Exegese Bíblica: Sábado

Os pensamentos exarados nesta série de artiquetes são o resumo de algumas exposições feitas no fim do ano passado nos cultos que dirijo no J.M.C. E’ assunto que ocupa frequentemente a atenção de crentes evangélicos, sobretudo por causa da insistente propaganda feita pelos adventistas. Não há mal, portanto, em que repise matéria tratada já em numerosos trabalhos polêmicos, apresentando, o que me parece mais sólido e inabalavel, a respeito da atitude da Igreja para com o dia de descanso judaico.

Porque não guardamos o sábado? Não o guardavam os judeus? Não é a êle que se refere o V.T. em passos numerosos? E’ certamente o sábado, o sétimo dia, que os israelitas observavam, embora alguns exegetas com pendor para a fantasia tenham procurado provar o contrário. E então? Não é incoerente o protestantismo que, com ser tão apegado ao ensino e ás formas de culto prescritas nas Escrituras, não guarda o sétimo dia da semana, indiferente a um preceito da Lei, tantas vezes reiterado.

E’ verdade, o protestantismo é bíblico, mas dentro da Bíblia, é a religião do Novo Testamento, não a do Velho, que pratica. E é por êle que se tem de documentar a moral e a religião de quem quiser abraçar um sistema evangélico de vida e procedimento.

Será, pois, no N.T. que sobretudo discutiremos o ponto tratado, abrindo exceção para um ou outro texto das Escrituras da antiga aliança. Estudemos primeiro alguns textos-alicerces dos judaizantes.

I) Mat. 5-17 e 18 "Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogar, mas cumprir,... de modo nenhum passará da Lei um só i ou só til, sem que tudo se cumpra "Citam-se estas palavras para provar de que a Lei continua em vigor e é obrigatória para os cristãos. Até comentadores de outras correntes evangélicas incidem frequentemente no erro de aduzir o passo em defesa de afirmação semelhante, embora visando a outro alvo. A esta interpretação podem formular-se algumas objeções que, até onde consigo perceber, são irretorquíveis: a) Se fosse êste o sentido das palavras de Cristo, teríamos contradição clara com outras afirmações peremptórias do próprio Mestre e de Paulo, o apóstolo das gentes.

Deixando para a segunda parte do estudo a discussão completa do problema, poderá, contudo, o leitor consultar Lucas 16-16. Galat. 5-3 e 4, onde se rejeita qualquer idéia de que a Lei continue no Cristianismo. b) Suponhamos que esteja certa a interpretação dos legalistas: manda-se aqui guardar a Lei e com ela o sábado.

Consequências: não só o sábado se há de guardar, mas, conservando a fôrça., toda da frase, nem "um só i ou um só til" se deve omitir: sacerdócio e ritual, sacrifícios e altares, leis de escravatura e de divórcio, distinção entre animais puros e impuros, circuncisão e tudo o mais que lá estiver tem de reaparecer na Igreja Cristã, porque o texto é rigorosamente expressivo "nem um só i ou um só til" passará sem cumprimento. C) O verbo cumprir não diz respeito á guarda da Lei, mas antes á sua realização profética em Cristo. No vers. 17 o original tem pleróo que se emprega geralmente para falar do cumprimento profético das predições registradas nas Escrituras do V.T.

Tal se verifica em Mat. I-22 "para que se cumprisse o que dissera o Senhor", Lucas 4-21: "Hoje se cumpriu esta Escritura nos vossos ouvidos". Cf. ainda em Mat. 2-15, Lucas 24-44. Em Mateus escrito para demonstrar que em Cristo se cumpriram as profécias messiânicas, o têrmo é frequente nesta acepção.

No vers.18 reaparece, em nossas versões, a mesma palavra: "sem que tudo se cumpra". Aqui. porém, o grego varia dizendo génetai, o que esclarece bem o pensamento bíblico, pois o verbo significa "vir a ser, ou a existir, realizar-se, acontecer.

A Vulgata Latina conserva bem o sentido primitivo, traduzindo "donec omnia fiant’.

O mesmo termo temos em Lutero que verte: "bis dass es alles geschehe" (até que tudo aconteça) . Assim a doutrina evidente do passo controvertido é esta: A Lei e os Profétas não serão inutilizados por Cristo, mas terão nêle o seu cumprimento profético, porque êle é a realização daquilo de que as leis e as cerimonias antigas eram a sombra e o tipo.

Nota. Alguns comentaristas dão ao verbo pleróo, aqui o sentido de "aperfeiçoar" e a lição central seria: "não vim revogar a Lei e os Profétas mas sim aperfeiçoá-las, torná-las completas".

Embora seja mais rara esta acepção, ela se coaduna bem com o contexto todo, em que Jesus discorre sôbre as leis antigas, profundando-as, espiritualizando-as e emendando-as. Mas ainda assim não caberia a exegesesabatista, pois o aperfeiçoamento da Lei em Cristo não importaria a conservação dela em todos os seus pormenores na nova dispensação, como adiante veremos.

Rev. Henrique Maurer Jr.

           
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