No Tempo do Conceição (por Loyde Amália Faustini)

O site do JMC despertou em mim a memória adormecida dos meus longínquos tempos de Conceição. Ao rever algumas fotos dessa época, novas lembranças surgiram em minha mente e, não resisti em externa-las. Tudo o que parecia apagado, começou a reaparecer, reviver e a ressurgir como se um livro começasse a ser lido.

Não, quem passou pelo Conceição, não se esquece das experiências lá vividas! Era um colégio único, diferente e jamais teremos outro igual. Fui aluna do Jota no ano de 1945. Tinha terminado o curso ginasial em escola do estado, na cidade de Pirajui, SP e, influenciada pela Martha, minha irmã, que estudara no Conceição alguns anos antes, fui para lá, onde matriculei-me  no 1º ano colegial. Muito jovem ainda e, pela primeira vez fora de casa, esse ano de estudos valeu pelas grandes e marcantes experiências  em minha vida.  Escola, ou melhor, educação de tempo integral, onde, além das aulas formais, aprendia-se a assumir responsabilidades, a cantar e a apreciar a boa música coral, a conhecer a bíblia, a praticar algum esporte, a conviver com regras baseadas na confiança e não na imposição e vigilância.

A rotina diária começava com o café da manhã na casa das moças e a corrida para as aulas que se iniciavam às 7 e meia e iam até às 10 e meia. A seguir, o culto diário e, depois, o almoço no refeitório, com todos os alunos. A tarde, em geral, era dedicada aos estudos, preparação de trabalhos, ensaios, esportes. O jantar também era feito na casa das moças. Havia uma escala e, em pequenos grupos, éramos encarregadas de prepara-lo. Pelo menos duas de nós deveríamos buscar enormes tigelas de feijão no refeitório da escola para complementar a refeição. À noite, reuniões, estudos, leituras, até o horário do apagar das luzes do colégio.Além de aprender a cozinhar em imensas panelas, tínhamos que lavar nossa própria roupa às margens do jordãozinho, coisas inusitadas para mim.

Aos sábados à noite, tínhamos reuniões alternadas dos grêmios Miguel Torres e Castro Alves. Aos domingos havia escola dominical e culto para os alunos que não tivessem outros compromissos com igrejas.

No culto diário, após as aulas, encontrávamos o diretor ou professores, missionários, visitantes ilustres que ocupavam o púlpito. Era também a oportunidade usada por d. Evelina, para treinar os muitos alunos-organistas que, muitas vezes tremendo, preparavam-se para o ofício.

Tive como “véias” a Silvia Magalhães Lima e a Adélia Rosa do Vale, duas grandes amigas. Foram meus colegas de classe os futuros pastores Elizeu Vieira Gonçalves, Egidio Costa, Lino Medeiros, Rubem Alberto, Adílio Gomes, Alcides de Matos, Palmiro Andrade e Darcy Amaral Camargo, além da Adélia. Tive aulas com o Rev, Renato, Rev. João Euclides, Rev. Buonaducci, prof. Dario. Fui aluna, ainda, de Mr. Harper (inglês) e d. Evelina (música), aulas que assistia na 4ª série.Tive um grande impacto quando, pela primeira vez, fiz provas sem a presença de professores. Esse fato marcou muito o resto de minha vida estudantil, coisa impensável em outra escola qualquer. A monotonia das aulas de história, associada ao livro de texto História Universal, de Oliveira Lima, que nada tinha de didático, fizeram-me apagar, por completo da memória, o conteúdo do que deveria ter sido aprendido. De Bello Galico, com comentários em inglês, para as aulas de latim, deixava-me confusa. Aulas de espanhol para quem só sabe portunhol, até que foi aproveitável. E o “princípio da isostasia,” por alguma razão, ainda me recordo da explicação do professor. Tudo, afinal deve ter contribuído, de alguma forma, para a minha formação futura…

As reuniões dos grêmios eram bem variadas.A recepção aos calouros que o Castro Alves promoveu naquele ano foi bastante simpática e muito ajudou na rápida integração com os colegas veteranos. Nós, novatos, ficávamos “na berlinda” nas brincadeiras, para a alegria dos demais alunos. Numa delas, tivemos que fazer uma longa lista de ações, lugares etc. Depois, ao ser lido um questionário, essas listas formavam frases e criavam as mais divertidas situações para a diversão dos presentes. Em outras reuniões, lembro-me de ouvir o José Costa declamar, com toda a emoção e entusiasmo, o Navio Negreiros, de Castro Alves. Parece-me ouvi-lo: “Estamos em alto mar…”. Nesse ano, conforme uma foto disponível, a diretoria eleita do Grêmio Castro Alves éramos o Carlos Monteiro (presidente), Violeta Graham e eu.

Após as reuniões dos grêmios, íamos todos para a refeitório, para um chazinho ou café e brincadeiras de salão. Qual o manuelino que não participou do “Há um macaco na roda….”, “Minha direita está vaga…” ? Quantos namoros, declarações de amor aconteceram nesse ambiente, como também no convívio diário? Os correios amorosos eram sempre colegas mais chegados ou livros que serviam para a troca de correspondência, dentro dos quais sempre havia um bilhete, uma cartinha especial…

Certo dia, as moças foram avisadas pela diretora da casa, d. Nena, que Mr. Harper viria conversar conosco, logo após o jantar. Foi um alvoroço geral, já que isso não era comum acontecer. Na hora marcada, lá apareceu o diretor que, muito solene e com grande tato, passou o seu recado, aconselhando as moças a não namorarem durante o curso porque, na certa, não haveria futuro para esse relacionamento pois, dentro em pouco, cada um voltaria para seus lares e para suas atividades. Para enfatizar, disse mais ou menos o seguinte: “O namoro aqui é como um cogumelo  à beira do rio, cresce logo, mas, dura muito pouco.” Por muito tempo, esse “discurso”foi motivo de muita risada entre as moças.

Quanto pernilongo havia por lá nessa época! Ao anoitecer, enquanto conversávamos ao ar livre, nuvens desses insetos cobriam nossas cabeças, com seu zumbido impertinente e picadas indesejadas! Era impossível dormir sem ter, cada um o seu próprio mosqueteiro.

Diversas comemorações marcavam a vida do Colégio. Uma era o Dia do Conceição, cujo programa era preparado com esmero e os alunos eram escalados para diferentes tarefas. Nessa ocasião, a memória dos fundadores era relembrada. Aprendíamos a cantar o Hino do Conceição. Muitos ex-alunos compareciam e participavam das atividades.As igrejas de São Paulo e de cidades vizinhas também costumavam visitar amigos e participar desses eventos festivos.. De manhã havia culto especial, programas musicais; à tarde, piqueniques, competições esportivas e sociabilidade. Barracas eram armadas para a venda, pelos alunos, de lanches para os visitantes. Uma outra era o Dia da Comunidade. Era o dia da faxina geral da escola e da limpeza especial dos quartos.O colégio parecia transformar-se em um formigueiro humano. Tudo saia do lugar e o almoço era servido em filas indianas, fora do refeitório. No final da tarde,depois de tanta labuta, vinha a recompensa tão desejada: permissão para visitar os alojamentos de todos os alunos do Colégio, para conferir a limpeza feita e premiar os mais esforçados. Era uma verdadeira diversão através de um trabalho altamente motivado.

De modo especial, dois fatos ficaram gravados em minha memória. O primeiro foi um piquenique promovido pela própria direção da escola e realizado em Cotia. Para lá todos os alunos se moveram e passamos um dia alegre com jogos, brincadeiras, disputas e passeios. O dia seguinte era o dia da Páscoa e Mr. Harper havia convidado todos os alunos para participarem de um culto, às 6 horas da manhã, junto à figueira. Aconteceu que a freqüência foi bem abaixo do esperado. Logo descobriu-se o motivo: alguma comida servida no dia anterior tinha feito mal para muita gente que teve que se levantar durante a noite e não conseguiu chegar até lá.O segundo fato foi a eleição da primeira rainha do Conceição. O grêmio resolveu fazer uma campanha para levantar fundos para a compra de livros e ampliação da biblioteca e o meio utilizado foi a venda de votos para essa eleição. Para minha surpresa, fui a eleita! A coroação se deu em uma reunião festiva do grêmio, sendo a rainha introduzida solenemente pelo diretor, com discurso e tudo o mais. Não sei se houve repetição desse fato, posteriormente…

Um dos grandes privilégios que tive enquanto aluna foi participar da Caravana Evangélica Musical dirigida por d. Evelina que, nesse ano realizava a sua sexta viagem. Que emoção senti ao ser convidada para sacrificar minhas férias de junho para viajar com a Caravana, já tão famosa! O grupo compunha-se de 11 moças e 13 rapazes. Viajamos de trem, de ônibus e, boa parte, de caminhão. Nem sentíamos o desconforto da viagem pois, como sempre, o grupo era muito bem recebido pelas igrejas hospedeiras. Visitamos algumas igrejas da Capital e, depois fomos para Campinas, Ribeirão Preto (SP), Uberaba, Uberlândia, Araguari (MG), Anápolis, Goiania e Rio Verde (GO). Ainda nem se cogitava de Brasília. Cantávamos nas igrejas das cidades, em praças públicas, em estações ferroviárias, em rádios e em hospitais. Numa dessas cidades, a Carmem Vilá ficou doente e teve que ser internada em hospital e só voltou ao colégio depois de recuperada. Em Anápolis conhecemos o Hospital Evangélico e o trabalho do Dr. Fanstone, então seu diretor. Goiania, cidade planejada, apenas mostrava o início de seu crescimento futuro.Em Rio Verde conhecemos Dr. Gordon e d. Helena, missionários radicados na cidade que ali fundaram e deixaram um hospital e uma escola de enfermagem. A Maurita incorporou-se à Caravana para vir estudar no Conceição. Dali em diante, a viagem prosseguiu de caminhão, com diversos sacos de arroz doados, servindo de assentos aos caravanistas. Lembro-me de que, depois disso, no colégio, por muitos dias comíamos arroz precisando separar a grande quantidade de carunchos que os cozinheiros não davam conta de limpar…

Muitos hinos fazem-me lembrar de d. Evelina e de seu carisma  diante do coro, ao rege-los. Na verdade, são músicas e hinos que, ainda hoje, ligam todos os manuelinos como se fossem uma só família. Dentre eles, a Bênção Aaraônica, de Peter Lutkin,  o Aleluia, de Handel e o Elevo os meus olhos, de Mendelsshon que, até hoje canto decór, fazem-me sentir a presença marcante de D. Evelina à frente do coro.

Em 1950 voltei ao Conceição para dar aulas de Música e de História do Brasil, para a 4ª série ginasial. Estava ensaiando minha carreira no magistério e essa experiência muito me ajudou nessa profissão. Alunos desse época: Sergio Paulo Freddi, Josias de Almeida, Takashi Shimizu, Soroku…. E., muitas vezes ainda voltei por lá. Depois que o João, meu irmão, foi para o Jota e, aos poucos, começou a assumir, tanto a Caravana Evangélica Musical, como o Departamento de Música do Colégio, tinha sempre motivos para lá voltar. Outras caravanas musicais, dias do Conceição, aulas de canto, seminários de música e até os preparativos para uma viagem frustrada aos Estados Unidos. Mas, sei que se agora quiser voltar lá outra vez, lamentavelmente, nunca mais encontrarei aquele querido Colégio de todos nós.

Loyde Amália Faustini
Janeiro de 1998

Transcrito aqui em 6 de Novembro de 2015.

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