Biografia do Rev. Oscar Chaves – 1 (por seu filho Flávio Chaves)

[Esta biografia do meu pai, Rev. Oscar Chaves, foi escrita por meu irmão mais novo, Flávio de Campos Chaves, em 2004. Meu pai estudou no JMC de 1934 a 1938, fato que justifica a inclusão desta biografia aqui].

Rev. OSCAR CHAVES – A Atuação do Homem e Pastor em Santo André

(Sua vida do ponto de vista nem um pouco isento de seu filho…)

Oscar Chaves - foto classicaO Rev. Oscar Chaves veio para Santo André em fevereiro de 1952, aos 39 anos de idade, quando já tinha 10 anos de experiência ministerial, para pastorear a recém-organizada Igreja Presbiteriana da cidade. Porém, seu envolvimento com a cidade e a comunidade evangélica local já datava dos anos de 1937/38, quando ainda estudante do curso pré-teológico do Instituto José Manuel da Conceição, em Jandira/SP, pois já participava e auxiliava nos trabalhos da então Congregação Presbiteriana de Santo André.

[Vejam as três fotos abaixo. A primeira é de algumas pessoas da igreja na Estação Ferroviária de Santo André (antiga Estrada de Ferro Santos Jundiaí), no início de 1938. A segunda é do salão onde se reunia a Congregação, na Rua Senador Flaquer, antes de vir a ser construído o tempo da Rua 11 de Junho. A terceira é do templo construído na Rua 11 de Junho, 868. Um novo templo foi construído posteriormente, durante o pastorado do meu pai.]

Estacao de TremCasa de Oracao

Igreja de Sto Andre

Pastoreou a Igreja ininterruptamente por mais de 30 anos, até outubro de 1982, quando completou 70 anos e foi jubilado compulsoriamente, de acordo com a constituição da Igreja Presbiteriana do Brasil. Cumpre salientar que nesse período ele sempre foi eleito e reeleito sucessivas vezes, democraticamente, pela assembléia de todos os membros da Igreja, sempre com uma votação superior a 90% do total, tendo chegado, em uma eleição, a ter 99,1% dos votos da comunidade (nem o presidente Lula teve tanto sucesso nas urnas…).

Permaneceu ainda trabalhando na Igreja Presbiteriana de Santo André, como Pastor Emérito, até 1986, quando, juntamente com outros membros da igreja, fundou a Igreja Presbiteriana Maranata, também em Santo André, onde continuou atuando, também como Pastor Emérito, até sua morte, em março de 1991, totalizando 39 anos de um profícuo ministério na cidade.

O Rev. Oscar nunca teve maiores ambições (políticas, acadêmicas ou religiosas), embora reunisse condições para tê-las, que não fossem a de servir e atender às pessoas sob seu cuidado ministerial.

Homem culto e preparado, estudioso e amante dos livros, erudito no conhecimento teológico e da história universal e da igreja cristã, era, porém uma pessoa simples, um homem do povo, que falava a linguagem do povo e se fazia entender por todos em suas prédicas. Era alguém que não tinha preconceitos e que gostava de conversar e conviver com as pessoas mais humildes e carentes, pelas quais era muito amado e admirado.

Ele não criou e nem participou diretamente de associações ou outras entidades voltadas especificamente ao atendimento da população de Santo André, porém gastou literalmente a maior parte de sua vida no atendimento a essa mesma população, nas mais diferentes situações e em qualquer hora do dia ou da noite.

Como um bom pastor, não havia horário para ele sair de casa e atender às necessidades de suas ovelhas, como são chamadas as pessoas da comunidade evangélica.

Se de madrugada morria alguém, o rev. Oscar era o primeiro a ser informado e chamado, e lá ia ele confortar a família enlutada e ajudar no que fosse preciso.

Se alguém ficasse doente, lá estava o pastor visitando, animando, dando toda a assistência. Se o doente era carente e precisava de uma internação, ele é que providenciava, falava com médicos, diretores de hospitais, até que conseguisse um local para internar a pessoa, em Santo André, ou no Hospital das Clínicas, em São Paulo, ou qualquer outro lugar.

Precisasse alguém de uma consulta e não tivesse recursos ou condições para se locomover até uma clínica ou hospital, lá estava novamente o pastor, que solicitamente se encarregava de transportar o paciente (quando já tinha o veículo da igreja), ou então providenciar o transporte para que fosse levado ao atendimento. Se houvesse necessidade de algum remédio e o doente não tivesse como adquiri-lo, ele sempre dava um jeito de conseguir…

Se um casal se desentendia e a temperatura no lar começava a aumentar…, quem era chamado? O Rev. Oscar, obviamente, que lá ia dando uma de “psicólogo” e conselheiro matrimonial, para conversar, orientar e apaziguar os ânimos…  É certo que às vezes ele atuava meio como o “Analista de Bagé” (de Luis Fernando Veríssimo) e acabava receitando como terapia a técnica do “joelhaço”, ou em um português um pouco mais claro e bem popular, um velho e bom pontapé naquela parte clássica da anatomia humana de um dos cônjuges, bem conhecida por todos… – Era assim o Rev. Oscar Chaves, uma pessoa autêntica, sincera e franca, sem muitas “papas na língua”, meio “estourado” e “mandão” de vez em quando, porém uma pessoa também simples e amável, com um coração enorme e sempre pronto a ajudar…

Se numa outra situação os filhos é que começavam a “dar problemas” em um lar, eis que o Rev. Oscar também comparecia, conversando, aconselhando, dando “algumas broncas” como se fossem seus próprios filhos, porém sempre amigo dos jovens e das crianças, por quem tinha um carinho muito especial e dedicava toda a sua atenção.

Ficasse alguém desempregado, o pastor estava novamente sempre disposto a ajudar, em todos os sentidos, amparando a família, procurando uma nova colocação, falando com pessoas conhecidas que pudessem ajudar na busca de um novo emprego.

Se uma nova família chegasse do Interior, ou de outro Estado como Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Paraná e tantos outros, lá estava o Rev. Oscar para ajudar a encontrar uma casa onde pudessem morar, um emprego para os que já tinham condições de trabalhar, e escola para os que estavam na idade de estudar. E as visitas a essa nova família se sucediam freqüentemente, ocasião em que ele procurava deixar todos bem à vontade na nova cidade e na nova Igreja em que iriam se congregar.

E assim foi o Rev. Oscar em toda a sua vida, inteiramente dedicada ao povo de Santo André (uma parte dele, obviamente…), em especial aos que estavam sob sua responsabilidade espiritual, como Pastor, ao longo dos seus quase 40 anos em que viveu em Santo André.

Ele cruzava Santo André em todas as direções, sempre visitando, levando uma palavra amiga de conforto e orientação, ou mesmo de exortação. Ele não parava… Inicialmente com sua motocicleta, a partir de 1953/54. [Vejam foto tirada quase na esquina da Av. Santos Dumont, onde morou logo que chegou a Santo André, com a Av. Artur de Queiroz].

Pai e moto

Com essa moto ele ia para o Parque das Nações (onde já existia também uma Congregação da qual ele cuidava), Camilópolis, Curuçá, Vila Lucinda, Oratório, Utinga, depois, em outro dia rumava sua “motinho” em sentido da Vila Pires, Vila Luzita, Vila Suiça, em outra ocasião ia para o Jardim do Estádio, Monções, Vila Linda, Humaitá, Homero Thon, Cidade São Jorge, então voltava rumo ao Príncipe de Gales, Vilas Alpina e Guiomar, Centro, Vila Assunção, Bairro Paraíso, Vila Bastos e por aí afora…

Em qualquer bairro ou vila de Santo André sempre havia uma família para receber a visita, o apoio e os cuidados pastorais do Rev. Oscar.

Isso sem contar que no início de seu pastorado em Santo André, ele era responsável pela Igreja sede, além de outras duas Congregações, uma no Parque das Nações e outra em São Bernardo do Campo. Além disso, seu ministério se estendia também até Mauá e Ribeirão Pires, que, posteriormente, tiveram suas Igrejas devidamente organizadas e emancipadas, da mesma forma como ocorreu com Parque das Nações e São Bernardo.

O Rev. Oscar Chaves era incansável em seu trabalho. Não havia hora em que ele não fosse solicitado. Era até interessante…Parecia que era somente ele se sentar para almoçar ou jantar, que o telefone tocava ou alguém chegava em sua casa, sempre procurando por um conselho, uma ajuda ou outra coisa qualquer.

Com o passar do tempo a Igreja recebeu uma doação da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo. Era um velho jipe, que, não sendo mais adequado para os serviços da Secretaria, foi doado para a Igreja, que fez nele alguns reparos tornando-o extremamente útil para o ministério do Rev. Oscar.

Pai e jeep

É certo que com o Jeep o trabalho dele mais do que dobrou! Porque agora o pastor, além de poder atender e visitar com mais freqüência e rapidez as suas ovelhas, passou também a usar o veículo para prestar assistência e ajudar, de forma mais eficaz, todos aqueles membros da Igreja que eram mais carentes e não podiam pagar uma condução ou táxi para se locomover até um hospital, clínica, etc…

Mesmo assim, com a agenda superlotada, ele encontrava um tempo para estudar, ler, escrever seus artigos, folhetos, crônicas, poemas e hinos, pintar seus quadros e desenvolver seus dons musicais, tocando mais de cinco instrumentos: órgão (elétrico e de fole), piano, acordeão, flauta transversal e doce, violão, etc…

Está certo que, com toda essa atividade e a vocação irresistível para o Ministério Cristão, às vezes sua própria família ficava um pouco prejudicada e carente de uma maior assistência… Mas era muito difícil imaginar que isso pudesse ser diferente… A sua vida era o Ministério, a Igreja, o serviço a Deus e às pessoas.

Enfim, assim era a vida, o cotidiano do Rev. Oscar Chaves, que dá nome a EMEI da Vila Linda…

Alguém poderá perguntar qual terá sido a contribuição do Rev. Oscar Chaves para com a cidade que foi adotada por ele e que, com certeza, também o adotou?

Por aquilo que já foi escrito, dá para se ter uma pequena idéia do envolvimento do Pastor com a sua comunidade andreense. Onde existe uma Igreja Evangélica como a Presbiteriana, e outras, certamente a vida das pessoas que as freqüenta se torna melhor, sofre uma influência extremamente positiva e que se estende a toda a comunidade e vizinhança, e não estamos falando apenas em um nível espiritual… Os aspectos da vida material, social e cultural também são afetados positivamente. As condições de saúde e higiene das pessoas melhoram, bem como a sua condição cultural e intelectual. É muito difícil encontrar um membro de uma Igreja que seja analfabeto e, mais ainda, que se encontre uma criança que não vá à escola ou não saiba ler e escrever. – Isso porque, em todos os batizados de crianças na Igreja Presbiteriana, e o Rev. Oscar batizou, com certeza, muito mais de 1000 crianças em seu ministério, os pais são não apenas incentivados, mas levados a prometer que ensinarão seus filhos a ler e escrever e que os enviarão à escola na idade apropriada, para que eles possam ler a Bíblia Sagrada por si mesmos, adquirindo, assim, ensinamentos que, com certeza, também as farão melhores pessoas e cidadãos.

Acrescente-se a isso que a instituição da Escola Dominical, uma atividade sempre tão prezada pelo Rev. Oscar em sua Igreja, onde as crianças e adultos são divididos em classes de acordo com sua faixa etária e interesses, para estudarem semanalmente a Bíblia e princípios morais, éticos e religiosos cristãos, certamente foi um instrumento muito poderoso para influenciar positivamente as pessoas que a freqüentaram, bem como o meio em que as mesmas viviam e vivem.

Assim era o Rev. Oscar Chaves. Uma pessoa carismática e muito querida e admirada pela grande maioria das pessoas que tiveram o prazer de conhecê-lo. A sua obra, seu legado e conseqüências e frutos de todo o seu trabalho e atividades em Santo André e na região do ABC, assim como a influência positiva que deixou, dificilmente poderão ser medidos, quantificados e retratados, de forma verdadeira e eficiente, e em toda a sua abrangência.

Basta dizer, no entanto, que quando ele veio para Santo André, em 1952, existia apenas uma Igreja Presbiteriana na cidade. Hoje, como fruto direto e indireto de seu trabalho, somente em nossa cidade de Santo André temos nove Igrejas Presbiterianas: a Igreja Central (Rua Onze de Junho), a Igreja Maranata (Rua Tiradentes), e mais as igrejas do Parque das Nações, Utinga, Jardim Monções, Vila Suiça, Jardim Santo Alberto, Parque Erasmo Assunção e Jardim Itapuã, além das Igrejas Presbiterianas de Mauá, e outras oito Igrejas Presbiterianas em São Bernardo do Campo.

O Rev. Oscar foi um pai amoroso, dedicado e preocupado com seus filhos (e com os filhos dos outros também…) embora fosse um pouco radical “demais” e ortodoxo / “linha dura” em suas opiniões e posições, em geral. Com o passar dos anos foi-se tornando pelo menos radical e um pouquinho mais liberal e tolerante com algumas coisas e assuntos… Certamente, tinha também uma infinidade de defeitos, grandes e pequenos, e de todo o tipo, que deixo, porém, para que outros os descrevam e comentem…

Como seu filho, posso dizer que passei, “inexoravelmente”, por quase todas as fases (só falta chegar aos 60…) descritas em um velho texto – “O que o Filho pensa do Pai” – que o Rev. Oscar, sempre que podia, ele o incluía em seus sermões, como ilustração ou com um outro pretexto qualquer (e eu, principalmente quando adolescente e jovem, sempre achava que ele falava tudo aquilo só para me “provocar”…).

Termino aqui essa modesta biografia com a transcrição do referido texto, esperando que, quem sabe, sirva de “inspiração” para outros filhos meio “revoltados”…

Flávio de Campos Chaves
Santo André, 8 de Maio de 2.004.

[Pensamentos que meu pai frequentemente citava]

O que o Filho Pensa do Pai

  • Aos 07 anos: Papai é um sábio, sabe de tudo.
  • Aos 14 anos: Parece que Papai se engana em certas coisas que me diz.
  • Aos 20 anos: Papai está um pouco atrasado em suas teorias; não são desta época.
  • Aos 25 anos: O “Velho” não sabe nada… Está caducando, decididamente…
  • Aos 35 anos: Com a minha experiência, meu Pai, nesta idade, seria um milionário…
  • Aos 45 anos: Não sei se consulto o “Velho” neste assunto, talvez pudesse me aconselhar.
  • Aos 55 anos: Que pena ter morrido o “Velho”… A verdade é que tinha umas idéias e clarividências notáveis…
  • Aos 60 anos: Pobre Papai… Era um sábio… Como lastimo tê-lo compreendido tão tarde…

Autor Desconhecido
Publicado pelo Laboratório Paulifarma em 18/05/1971

O filho e o pai - Oscar Chaves

Algumas outras singelas obras do Rev. Oscar Chaves

1) Poesia – Título: DEUS É AMOR

Tudo que no mundo vive,
Tudo, seja aonde for
Canta ao homem a velha história,
Dizendo: DEUS É AMOR!

As andorinhas nos ninhos
À hora do sol se por
Cantam alegres aos filhinhos
Dizendo: DEUS É AMOR!

A brisa mansa e suave
Carregada de frescor
Corre alegre pelos campos
Dizendo: DEUS É AMOR!

O sol brilhando no céu
Com todo o seu esplendor,
Manifesta a glória divina
Dizendo: DEUS É AMOR!

Também o trovão bravio,
Da chuva anunciador,
À terra a mensagem dá
Dizendo: DEUS É AMOR!

Somente o homem perdido,
Que vive sem o Senhor,
Gasta toda a sua vida
Sem dizer: DEUS É AMOR!

2) Hino / Cântico – Título: AVIVA-ME

Eu salvo estou em Cristo, meu amado Salvador,
Eu tenho garantia no sangue expiador,
Mas para gozar paz até no meio do sofrer
Minh’alma avivamento deve ter!

Coro

Aviva-me Senhor! Aviva-me Senhor!
Eu quero te servir com mais amor!
Meu débil coração de força vem encher,
Ó Santo Espírito consolador!

Oh, cria em mim, meu Deus um santo e puro coração,
Dirige os passos meus, com tua santa mão!
O mal que te entristece não me deixes praticar!
Teu sangue pode me purificar!

Alegre nos teus passos quero sempre caminhar,
Nos teus possantes braços eu posso me amparar!
Oh, serve-te de mim, no teu serviço, meu Jesus,
E eu andarei, assim, na tua luz!

3) Hino / Cântico – Título: NÃO É SEGREDO

O mestre disse falando assim:
“O Evangelho pregai por mim!
Falai bem alto, qual um clarim,
E eis-me convosco até ao fim!

Força e poder eu vos darei,
Os vossos passos eu guiarei,
E se cumprindo o que falei,
Então à terra eu voltarei!”

E quando Cristo aqui voltar
E para a glória os seus levar,
Com grande gozo vamos cantar:
Não é segredo, Deus sabe amar!

Não é segredo, Deus é amor,
Confia nEle, ó pecador.
Mandou Seu Filho, provando assim
Que sua graça jamais tem fim!

4) Hino / Cântico – Título: FAZE-ME SENHOR

Faze-me, Senhor, mais fiel e leal,
Faze-me, Senhor, evitar mais o mal.
Faze-me, Senhor, mais constante no bem,
Faze-me, Senhor, faze-me fiel,
Faze-me leal.

Faze-me, Senhor, sempre cheio de amor,
Faze-me, Senhor, ter mais fé e fervor!
Faze-me, Senhor, mais e mais perdoar,
Faze-me, Senhor, faze-me fiel,
Faze-me leal.

Faze-me, Senhor, faze-me sempre lembrar
Que muito em breve Tu hás de voltar!
Faze-me, Senhor, sempre cheio de fé,
Faze-me, Senhor, faze-me fiel,

5) Hino / Cântico – Título: PENSA EM MIM JESUS

Pensa em mim, Jesus, lá na excelsa luz,
Já mostrou na cruz amor sem fim.
Satisfeito estou, sem medo vou,
Cristo pensa em mim!

Tenho a proteção do meu Salvador,
Que, com grande amor, dá-me o perdão,
E me guia assim, mesmo na dor,
Com a sua mão!
Faze-me leal!

6) Crônica – Título: TEMPOS QUE NÃO VOLTAM MAIS…

Nota: Esta crônica foi enviada ao “Programa da Saudade” da Rádio Difusora de São Paulo, em 1954, e lida no programa pelo seu apresentador Décio Pacheco da Silveira.

 Por que gostamos de recordar os dias passados, longínquos, saudosos, de nossa infância?

Todos nós, depois de grandes, temos um pouco da nostalgia e do sentimentalismo de Casemiro de Abreu, quando chorava, nos versos, a sua “infância querida que os anos não trazem mais…”.

Sim, amigo, você tem as suas recordações, com certeza. Eu também as tenho. E como é doce lembrar aquele tempo em que a gente, inocente e despreocupado, “adormecia sorrindo e despertava a cantar…”.

Minha cidade era pequena, sossegada e poética, escondida entre as montanhas grandes e corcundas lá do oeste de Minas: Patrocínio. Foi lá que meus pais nasceram, e foi lá que eu vi a luz do sol e me criei. Patrocínio antiga era melhor e mais encantadora do que a de hoje. Talvez eu tenha essa impressão por causa dos sonhos e das alegrias da minha meninice. Tudo, antigamente, parecia melhor, mesmo com o atraso e com a falta de conforto que havia. Ainda me lembro de minha cidade sem luz elétrica. Parecia mais gostosa ainda, pois, em vez de brincarmos à noite, nós, os moleques, nos sentávamos ao redor da “Siá Adélia”, a velhinha magra e bondosa que nos contava histórias todas as noites, à porta da sua casa. Que histórias extraordinárias ela nos contava! Almas do outro mundo, mulas sem cabeça, assombrações, homens que viravam lobisomens… Ela contava, com arte de mestre, coisas que nos deixavam arrepiados!

Eu, o Raul e o Mauro (meus manos), o Joãozinho da S’Adélia, o João do Nilo, o Bias, seu irmão, o Walterson (que nós chamávamos de Son) e outros, nós nem piscávamos, eletrizados pelas palavras da nossa boa velhinha. À noite, lá pelas dez horas, quando ela se despedia de nós e entrava em sua casa, nós ficávamos com um medo terrível de nos separarmos para dormir. Parecia-nos ver aquele vulto branco que toda sexta-feira, à meia-noite, gemia debaixo da árvore, perto da porteira, e que costumava montar na garupa do cavaleiro que transitasse por aquelas bandas…

Eu e os manos tínhamos receio até de atravessar a rua, pois nossa casa ficava bem em frente à casa da S’Adélia. – Boa e inteligente velhinha!

Às vezes, sentados em grupos, na calçada de minha casa, à noite, nós fazíamos um dueto triste e dolente, que enchia o “Largo da Cadeia”. Cantávamos a “Tristeza do Jeca”, “O Meu Boi Morreu”, “A Madrugada que já passou…” E esse dueto, bem afinado e sentimental, não deixava de ter a sua poesia e a sua beleza simples. No dia seguinte, no Grupo Escolar, dona Amélia, minha professora, (que morava perto), alegre e entusiasmada, elogiava as vozes tão bonitas que tinham cantado lá no Largo…

E o futebol, no Largo da Cadeia? A molecada se reunia ali, e quase sempre, com bola de pano (ponta de meia velha) a peleja chegava a tal ponto de entusiasmo que terminava em briga. Quanto dedão machucado, quanta unha arrancada naqueles jogos!

E o Carnaval, então? Era uma beleza! Tudo inocente engraçado. Não tinha as imoralidades, as malícias de agora. A coisa mais engraçada para nós era ver o Tito padeiro vestido de mulher, muito sério, pela rua afora. O Raul Rodrigues, narigudo e feio, vestido de caipira, era também um número extraordinário! Homens de perna de pau, altos, da altura das casas, mascarados, saíam pelas ruas e jardins, acompanhados da meninada… E o povo cantando: “A baratinha Yayá, a baratinha Yoyô”, “Periquito louro, do bico dourado…” Oh, tempos felizes aqueles!… Não voltam mais, nunca mais!

Depois fomos crescendo, tomando rumos diferentes, separando-nos devagarinho… Uns, a morte levou. Outros, levou-os a vida. Separamo-nos.

Faz 20 anos que deixei minha terra (notar que a crônica foi escrita em 1954). Tenho-a visitado de vez em quando. Mas não é mais a minha querida Patrocínio. Tudo diferente. Os amigos velhos não estão mais lá. S’Adélia morreu há pouco tempo, cheia de anos e de bondade. O Totonho, seu marido, que ensaiava a banda de música, também morreu há pouco. O Raul lá está ainda, o meu mano. O Mauro formou-se em Lavras, e trabalha em Belo Horizonte. O Walterson é hoje um médico ilustre na Capital mineira. O João do Nilo e o Bias sumiram-se, não sei para onde. Minha querida mãe também (que tantos socos me deu na cabeça por causa do futebol no Largo da Cadeia) está em Belo Horizonte. Eu cá estou, em Santo André, próximo à capital do estado de São Paulo, como Ministro do Evangelho, pregando a doutrina de Jesus aos meus bons patrícios.

Mas tenho saudades, imensas saudades da minha terra. Se me fosse dado viver outra vez, eu gostaria de nascer e passar a minha infância lá mesmo, em Patrocínio, meu querido rincão mineiro. Mas não nessa Patrocínio atual. Naquela outra, aquela antiga, poética, inocente, e sem luz elétrica…

Flávio de Campos Chaves
Santo André, 08 de Maio de 2.004.

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