Discurso do aluno Antonio Elias no Funeral do Dr. Waddell

NOTA:

O texto a seguir foi publicado no site original do JMC que mantive, neste mesmo endereço, no final da década de 1990, começo da de 2000. Transcrevo-o com vistas ao Encontro dos Manuelinos, que terá lugar em Campinas, a partir de amanhã, 20.09.2019 até 22.09.2019.

EC

…SENHORES:

— “Diga aos moços que trabalhem!” –

Diga aos moços que trabalhem, foi a mensagem grandiosa que nós, os estudantes do Conceição, recebemos do Dr. Waddell, nos últimos dias de vida de sua preciosa existência.

Essa mensagem repercutiu profundamente em nossos corações, porque acima de tudo, vale a pena seguir-lhe o exemplo nobre e honroso, – exemplo de quem sempre trabalhou com a grandeza moral, intelectual e sobre tudo espiritual de milhares de nossos patrícios.

A evangelização na Baía é um atestado vigoroso do quanto fez êsse venerando servo de Deus. Há 40 anos passados, lá estava o dr. Waddell, lutando contra as dificuldades e meios de comunicação. Viajando a cavalo meses a fio, desprovido de todo o conforto material, atravessava regiões inóspitas, áridas e perigosas.

Seu ideal era socorrer os necessitados do pão para a alma e muitas vezes, para o corpo. São inúmeras as conversões dêsse trabalho fecundo, tanto no estado da Baía, com em São Paulo; almas que se decidiam por Cristo, movidas, ora pela sua palavra autorizada, persuasiva e piedosa; ora pelo seu exemplo luminoso de abnegação, amor e fé!

A obra missionária no Brasil perde, portanto, com a partida do Dr. Waddell, um grande obreiro. O dr. Waddell não foi tão somente um valoroso missionário. O colégio de Ponte Nova, Baía, fundado por ele, onde funciona a segunda escola normal daquele Estado – segunda pelo grau de disciplina e cultura; o Mackenzie College, um dos mimos de S. Paulo, do qual ele foi seu presidente por alguns anos; e, finalmente, o “Conceição”, um dos seus sonhos realizados nesta última década, são um atestado vivo de que ele foi também um grande educador.

Educador e mestre excelente!

Muitos ministros, professores e doutores receberam do ilustre pedagogo, á semelhança de S. Paulo aos pés do sábio Gamaliel, lições preciosas, que, os impulsionaram á conquista elevada da posição em que se encontram hoje.

Mestre excelente perde o magistério brasileiro!

Mestre e amigo sincero, leal e desprendido. Amigo que sabia aconselhar, confortar e apontar o caminho da verdade e da vitória. Sempre solícito, sempre pronto a servir, ia ao sacrifício, se fosse preciso, para resolver problemas e dificuldades alheias. Afirmo isto, interpretando particularmente o pensamento unânime dos meus colegas do Conceição.

E agora que perdemos o grande missionário, grande educador, grande mestre e amigo, que havemos de fazer? Apenas garantir que lhe seguiremos os passos com as nossas lágrimas – expressão sincera da saudade.

Partistes, pois, Dr. Waddell, para a mansão celestial! Fostes receber no céu a coroa de glória

incorruptível.

Haveremos de vos honrar a memória, pondo em prática o vosso derradeiro pedido: “Moços, trabalhai!”

Sim, a obra portentosa que iniciastes há de continuar, porque ela é de Cristo.

Dr. Waddell – nosso grande mestre e grande amigo – Adeus!

Discurso pronunciado pelo sr. Antonio Elias, representando o corpo discente do Instituto José Manoel da Conceição, no cemitério, por ocasião do enterro do Rev. William A. Waddell, fundador do JMC. 

Transcrito aqui neste blog em Salto, 19 de Setembro de 2019

Advertisements

Depoimento de Eber Fernandes Ferrer (2004, revisto em 2008)

NOTA:

Fuçando nos meus guardados, achei um texto, que transcrevo a seguir, que foi escrito pelo colega Éber Fernandes Ferrer (hoje morando na Suíça), para o site do JMC que eu mantinha no final da década de 1990, começo da década de 2000. O site virou este atual blog, que ocupa o mesmo endereço (https://jmc.org.br), que eu também mantenho, mas nem tudo que estava no site original pode ser aproveitado no blog. Resolvi, porém, transcrever este depoimento aqui.

Imagino que o Éber, que hoje está com sérios problemas de saúde, que afirma ter chegado ao JMC em 1950 com 12 anos, deva ter nascido em 1938, estando, hoje, portanto, com 81 anos. Tenho certeza que o período de 1950 a 1958, em que ele esteve no JMC, foi compartilhado com vários colegas que vão estar presentes no Encontro dos Manuelinos que começa amanhã, 20.09.2019, em Campinas, e durará até o domingo, dia 22.09.

O texto está disponível também numa réplica do site dos anos 90-00, que tentei recriar na Internet de hoje, no URL: http://www.jmc-online.com/eber.htm.

EC

. o O o .

Depoimento de Eber Fernandes Ferrer, escrito em 31/01/2004, revisto em 23/01/2008

Tive o privilégio de ser aluno do JMC entre 1950 e 1958. Cheguei à Jandira/SP com apenas 12 anos de idade, proveniente de Cuiabá, capital de Mato Grosso, (quando só havia um estado) onde meu pai Eudes Ferrer era Pastor da Igreja Presbiteriana central. Minha mãe, Universina Fernandes Ferrer, havia falecido em 1942 em Itacira – Bahia e papai se casou novamente com Nanita Duarte Ferrer, que veio a ser a nossa segunda mãe. Família numerosa: éramos 12 filhos, 10 mulheres e dois homens.

Depois de cursar o primário no Colégio Barão de Melgaço, centro de Cuiabá, em 1950 fui ao JMC para fazer a admissão ao ginásio e cursar o colegial (matrícula No. 747). Posteriormente, cursei o Seminário Teológico da Igreja Presbiteriana do Brasil em Campinas até 1962. Meu tutor, Rev. Aristóteles Ferreira (que saiu do Colégio Burity, na Chapada dos Guimarães) para estudar no JMC, orientado pelo meu pai e que mais tarde veio a ser Pastor da Igreja de Cuiabá), foi meu 1° colega de quarto. Sendo esquelético e franzino,  eu era na época o mais jovem aluno. Vindo do mato, logo fui apelidado de “Chibiu”, que significa “pequeno diamante”. Comecei a praticar esportes por ordem médica, para ganhar peso e corpo. Jogava vôlei e basquete com o Takashi Shimizu e Charles Harper, entre outros; futebol de salão e de campo, tendo sido discípulo do talentoso Eladio Valentim Afonso, meu 1° treinador. Aos 14 anos já jogava com a equipe principal do JMC e participava dos clássicos contra o Corinthians de Jandira e o Seminário de Campinas, os quais eram nossos “fregueses”. Tião, Armando, Acazias, Jacó, Silas Ferreira, Isaias Gadoni, Xerxes, Jaime e o goleiro Gerson (o “Cabeção”), eram alguns dos inesquecíveis companheiros do balão marrom e às vezes quadrado, quando se jogava em campos de várzea ! Nosso grande fã, o Tabelião do Cartório de Jandira, pai da colega Lucy e da soprano Lucila, Sr. Hermenegildo Guimarães, não se esquecia de trazer ao campo uma boa bebida gelada, guaranás e sucos para festejar as vitórias do timão da vila. Tendo sido observado numa partida no Floresta de Osasco, o então técnico do juvenil do Palmeiras me chamou para treinar no Parque Antártica e me ofereceu um contrato para vir a ser profissional, mas o Rev. Eudes não quis assinar …(sendo eu menor de 21). Insistia em que devia estudar, pois futebol não oferecia futuro.

Ainda aos 14 anos já fazia parte do “English Speaking Club”, que se reunia em casa de Da Evelina Harper para exercícios de conversação e cantos em Inglês. Como vinha de uma família numerosa e relativamente pobre, não podia pagar os estudos no Jota. Me ofereci para trabalhar na horta-fazenda, dirigida pela família Shimizu (Tamiko, Gilda, Kazuio, Takashi, etc.) e fui admitido. Arava a terra com uma junta de bois; ajudava à colher os vegetais e as frutas; plantava e colhia arroz e trigo, etc. Adorava comer beterrabas e cenouras, enquanto trabalhava … Porém, devido à umidade da várzea, muitas vezes com água até os joelhos, tive reumatismo em pouco tempo e o médico me proibiu de continuar na lavoura. O chofer do caminhão necessitava um ajudante e me ofereci. Enchia o caminhão de telhas, tijolos e areia para as novas construções das novas casas ou salas de aula. O acompanhava à CEASA-SP para as compras no atacado de produtos alimentícios. Por ex; apesar de ser magro, carregava sacos de 60 kg de feijão, arroz, milho, etc. e os descarregava no colégio. Formamos um grupo de voluntários para nos fins de semana substituir os cozinheiros. Certa vez, quando descascava a mandioca, cortei parte de um polegar e colei depois. Comíamos bem, quando trabalhando na cozinha: segundo os gostos de cada um ! Porém, a minha profissão melhor paga no Jota foi a de “vidraceiro”. Fazia o inventário dos vidros quebrados ou faltantes nos quartos, salas de aula, nas residências, etc., e ia à S. Paulo comprar vidros novos, pasta para fixar e tinta para pintar. Os cortava com um pequeno diamante (uma razão a mais pela qual me chamavam de “Chibiu”) e reparava os estragados. Ganhava 3 cruzeiros velhos por hora trabalhada. Era uma fortuna para um adolescente pobre, do ponto de vista material, mas rico em vida ! Felizmente, consegui com a  “Presbyterian Fellowship Church”, de São Paulo, a metade de uma bolsa de estudos e com o meu trabalho, completava a outra parte. Faltava, no entanto, dinheiro para as despesas pessoais, do dentista ou médico, farmácia e outras. Graças ao Prof. João Euclides e sua esposa, fui adotado por uma família de S. Paulo, Sr. Vicente Themudo Lessa Filho e Da. Aleth, que me presenteavam roupas e sapatos usados, numa época em que só tinha uma muda para toda a semana. Era obrigado a ir estudar na casa do motor a óleo (na parte baixa, a caminho do campo de futebol). Enquanto estudava, deixava a roupa secando na frente do ar quente do motor e depois passava o ferro e usava no dia seguinte. Muitas vezes, lavei e passei roupa para os colegas mais afortunados, ou os substituía na lavagem da louça, para ganhar uns tostões. Porém, a família Lessa me oferecia trabalho de limpeza em suas residências em S. Paulo e/ou na Praia de São Vicente, onde ia nas férias, com o filho Netinho e a filha Alba. Lavava os carros, encerava a casa e/ou o apartamento, limpava e regava as plantas, passava roupa, limpava os vidros, etc. Com a grana recebida, me convidava ao cinema ou arcava com as despesas pessoais e ou com a(s) namorada (s). O mais importante era sentir estimado, como se fosse um verdadeiro filho.

Com a Profa. Da. Elza Fiúza Teles aprendi a apreciar a língua e literatura francesas. Seu marido, o Prof. Renato, me fez descobrir os clássicos portugueses, assim como literatos/as modernos; inclusive participando em conferências no Auditório da Folha de São Paulo com Orígenes Lessa, Tristão de Atayde e tantos outros. Sua filha Heloisa, uma das primeiras namoradinhas, me fez descobrir o fascínio e o sabor do amor. Quantas serenatas à margem do Jordão … Fui eleito Presidente do Clube Recreativo e Cultural “Castro Alves” e organizava as serestas dos sábados à noite, passeios recreativos, etc. Com freqüência íamos até a Figueira, no alto da colina, às vezes para ver o sol se pôr ou nascer. Adorava acordar com as músicas clássicas como “Meditation de Thais” e recitar poemas de Castro Alves; participar de cenários de humor. Tocava violino três/quartos com o Isaias Gadoni e cantávamos juntos no quarteto com o Cilas Rissardi (tenor), Silas Ferreira (baixo), tanto em Jandira, como em festas na região da Grande São Paulo. Numa noite em que perdemos o último trem da Sorocabana de São Paulo à Jandira, passamos a noite em bancos da Praça e compusemos em grupo, com a poesia do Levy Silva, um sambinha chamado “Sou Carioca da Gema” … que ainda sei cantar até hoje !

Claro que participei do coral do JMC, masculino e misto. Fazíamos excursão a Bauru, Rio de Janeiro, Santos, Sorocaba, Botucatu, etc. Com freqüência fomos convidados à capital de São Paulo: Igreja Presbiteriana Independente, Presbiteriana Unida, Rádios, Teatros, etc. Fiz parte do Grande Coral do IV Centenário da Cidade de SP, dirigido pelo Prof. Maestro João Wilson Faustini, cantando barítono ao lado do seu irmão Zwinglio em l954.

Nesse ano Getúlio Vargas se suicidou … Fizemos uma vigília cívica para velar por ele e líamos, relíamos, sua carta testamento para entender o por que do seu gesto ? Nessa idade, com 14 anos, comecei a ter consciência política, suficiente para saber que ele foi morto pelos interesses industriais e financeiros norte americanos que, ao serem vitoriosos durante a 2a. Guerra Mundial, impuseram ao Brasil um sistema de transporte rodoviário (as fábricas Ford e General Motors logo se instalaram em São Paulo) enquanto Getúlio queria com o aço de Volta Redonda (complexo industrial por ele construído) incrementar o sistema de transporte ferroviário (herança inglesa) e recuperar o fluvial (português). As “forças ocultas” falaram mais alto e continuam hoje com a ALCA à impor o modelo de dominação econômica, de sub-desenvolvimento e exclusão do Brasil e da América Latina.

Concluindo: Toda essa experiência de vida trabalhada e de luta, me serviu como referente metodológica no trabalho social: ninguém valoriza nada na vida, a não ser aquilo que é conquistado com esforço próprio. Por isso, digo sempre: “não dêem esmolas, não ajudem à mendicância, a não ser que o mendigo pegue a vassoura e varra a sujeira do pátio, assim conquistando o direito a um prato de comida e à sua dignidade.” O Fome Zero nada significa, a não ser que apóie as famílias empobrecidas à produzirem a sua própria comida. Não é de assistência que o povo precisa, mas de dignidade e soberania para ser mais gente !

Numa palavra: o Jota foi acima de tudo uma escola de vida ! E sempre me recordo do Prof. Aureliano Pires recitando o poema: “Quem passou pela vida em brancas nuvens; quem em plácido repouso adormeceu; foi espectro de homem, não foi homem; só passou pela vida, não viveu” (autor Francisco Otaviano dos Reis).

Obrigado JMC por tudo que me propiciou viver e pelo ensino da sabedoria de ser ! Se hoje sou alguém, se fiz uma carreira internacional, trabalhando entre outras com: com o ICYE/WCC em Genebra; com as Nações Unidas (FAO em Roma); nas Caritas da Suíça (Lucerna) e Internationalis no Vaticano/ Roma; na Fundação Getúlio Vargas (IBRE) no Rio; no Cadastro do INCRA e projeto ARUANDA do SERPRO – RIO; se fui assessor de Ministérios em Brasília; Secretário de Promoção Social da Prefeitura Municipal e Diretor fundador do Centro de Comércio Exterior (CECEMS), do Estado do MS,  em Campo Grande (minha cidade natal);  quando estudante de Sociologia participei da elaboração do Plano Piloto de Urbanização de Curitiba e mais tarde (1984) como Sociólogo, do Programa de Cidades de Porte Médio (UAS) nas Cidades de Cuiabá e Várzea Grande – MT, apoiado pelo Ministério do Interior, Governo do Estado, Prefeituras locais e pelo Banco Mundial; se conheci muitos países nos 7 continentes do planeta terra e mar, é porque o Jota me abriu a cabeça e o coração para ser cidadão do mundo – um ser universal !  Obrigado àqueles e aquelas aos quais a vida me ligou e me fez Ser Realizado e Feliz !!!

Tive uma filha Cláudia Regina e um filho Marcelo com a 1a. esposa Vera Lucia Ferreira. Hoje sou casado com Claudine-Ferrer Germiquet (de origem huguenote), Suíça francesa, e sou também Suíço por direito de naturalização desde em 1992. Estamos de volta à Lucerna  desde o final de 2003. “Até mais ver”, como diriam nossos ancestrais portugueses… (que foram “de facto” nossos “conquistadores” e não só colonizadores) e por isso contam a história a seu modo, como eu também o fiz.

Eber Fernandes Ferrer, (70 anos), Teólogo, Sociólogo e Administrador, membro do Conselho Internacional do Forum Social Mundial e da Amnesty International (Suíça).

E-mail: cl.eb.ferrer@bluewin.ch
Skype: eber.claudine.ferrer

NB: minhas irmãs Eunice Ferrer (São Paulo, capital) e Elba Duarte Ferrer (Brasília – DF) também cursaram o JMC naqueles anos de ouro.

Horw, Lucerna – Suíça
31.01.2004 (revisado em 23.01.2008)

Transcrito aqui no blog em Salto, 19 de Setembro de 2019.

O Exemplo Vivido e o Testemunho Proclamado

[30 de Junho de 2018, Sábado de madrugada (quase 3h da manhã)]

Compartilho com vocês, Manuelinos, com a devida autorização da autora, carta que me foi enviada por Dirce Vieira Machado de Oliveira, mulher do Otoniel Marinho de Oliveira, apelidado de “Tonhé”, meu colega de classe no Curso Clássico, de 1961 a 1963, no JMC. A Dirce é também irmã de Dioraci Vieira Machado, meu grande amigo, presbítero da Catedral Evangélica de São Paulo, e de um ex-manuelino, Domingos Vieria Machado, apelidado “Branco”.

Pedi permissão à Dirce para digitalizar e compartilhar a carta com os colegas do JMC porque acho que ela reflete de forma muito feliz a “Essência do JMC”. A Dirce nunca foi manuelina, no sentido estrito: nunca estudou ou viveu lá. Mas é mulher de um manuelino e irmã de outro. E relata aqui o que esses dois manuelinos, o Tonhé e o Branco, lhe disseram e lhe mostraram acerca da nossa escola querida.

O conhecimento que a Dirce revela acerca do JMC é baseado em exemplo de vida e testemunho. E podemos continuar a viver desse jeito e a dar esse testemunho, mesmo na ausência física de nossa escola, que foi fechada em 1970.

Aqui vai a carta, originalmente manuscrita em três folhas, com o meu agradecimento à Dirce, por ter escrito a carta e por ter autorizado a sua digitalização e divulgação. O estilo dela é, por vezes, desnecessariamente formal. Ela me chama, por exemplo, de “Senhor Eduardo Chaves”…). A pedido da Dirce, agi como um editor aqui e ali.

 o O o

“Senhor Eduardo Chaves:

Não fui aluna do JMC, mas, se olharmos para o Currículo do “1º Ciclo do Seminário Menor” do Instituto José Manuel da Conceição, constatamos que, no que diz respeito ao Currículo, além das disciplinas comuns entre essa escola e os ginásios que nós, de fora, cursávamos, disciplinas como Português, Matemática, Ciências, História do Brasil e Geral, Geografia Geral e do Brasil, Inglês, Francês, Latim, Desenho, etc., havia tambémMúsica, Bíblia e Canto Orfeônico. Se olharmos à Avaliação, no JMC os alunos eram avaliados em todas essas disciplinas, comuns com outras escolas ou não, mas sua avaliação era mais abrangente, incluindo as muitas experiências enriquecedoras que eles vivenciavam na organização de caravanas e na participação nelas, em visitas a igrejas, no envolvimento em grêmios estudantis, na ministração de palestras, no engajamento em encontros, bem como em atividades internas, como a limpeza do quarto, a ajuda na cozinha e no refeitório, na gestão de materiais e serviços, em campeonatos esportivos, e outros.

A escola era voltada para preparar aqueles que pretendiam sua vida acadêmica em Estudos Superiores de Teologia, como já registrava o Certificado de Habilitação no 1º Ciclo. Mas ela preparava também para o trabalho em outras áreas essenciais da Igreja, como a Música: canto, coral, instrumentos (piano e órgão), etc.

Havia também no JMC a vivência do amor, da confiança, e do respeito, pois os alunos conviviam diariamente com os professores, dentro e fora da sala de aula (os professores moravam no campus), pessoas que viviam e modelavam a sua fé e os seus ideais, e, através de relacionamentos humanos saudáveis, louvavam a Deus – e isto não somente no culto matinal, em que todos cantavam com muito entusiasmo, sendo motivados a viver uma vida com propósito e com sentido, mas também no dia-a-dia, pois a escola era de tempo integral, na verdade um internato, em que tudo o que se fazia, o dia inteiro, era considerado como parte relevante da educação de cada um.

Vim a saber, também, que nessa escola havia três Grêmios Estudantis: o Grêmio Castro Alves, dedicado a elevar a vida cultural dos alunos; o Grêmio Miguel Torres, que cuidava do aspecto espiritual da vida dos alunos; e o Grêmio Esportivo, que cuidava da saúde do seu corpo e da aprendizagem de formas de competir leais e respeitosas. Esse terceiro grêmio patrocinava a prática de futebol de campo, futebol de salão, basquete e vôlei.

Nos Ginásios que frequentávamos, longe do JMC, havia apenas um Grêmio Estudantil, sem grande sentido, pois sua única tarefa era produzir as Carteirinhas Estudantis para que pagássemos meia-entrada nos cinemas da cidade…

No JMC cada aluno era responsável pela limpeza de seu quarto e de sua roupa, que era lavada, passada, e, não raro, engomada. Eram responsáveis também pela manutenção dos espaços comuns.

Os alunos participavam ainda da aplicação das provas. Em dia de provas, um dos alunos assumia a responsabilidade de buscar a prova na Secretaria e distribuí-la para os colegas, e cada um podia fazer a prova na própria sala ou, em alguns casos, em seu próprio quarto – fato que reforçava seu comprometimento com a honestidade e a responsabilidade.

Os alunos tinham também um Conselho dos Alunos, que tinha a atribuição de fazer a primeira análise de problemas de comportamento e conduta dos colegas, como indisciplina, antes de o caso ser encaminhado à Congregação dos Professores. O Conselho dos Alunos também analisava necessidades especiais de alunos, caso a caso.

O ambiente físico da escola era muito simples e frugal, e a maioria dos alunos era muito carente. Alguns eram mais velhos, fazendo o Ginásio já com mais de 18 anos. Mas todos sabiam por que estavam ali e tinham sede de aprender e saber. Tudo era muito humilde – mas se vivia ali como em uma família, que podia ser financeiramente pobre mas era rica em afeto e solidariedade.

No JMC o jovem tinha oportunidade de examinar sua vida, definir o seu futuro, crescer em conhecimento e responsabilidade, ao vivenciar os valores que a instituição apregoava e vivenciava.

De fato, a escola era viva – e uma parte essencial da vida de cada um!

Dirce Vieira Machado de Oliveira

Casada há 50 anos com um manuelino, Otoniel Marinho de Oliveira, e irmã há mais tempo de outro, Domingos “Branco” Vieira Machado.

Fernandópolis, 24 de Junho de 2018″.

Transcrição aqui no Blog em São Paulo, 30 de Junho de 2018

Alguns Poemas e Hinos Escritos pelo Rev. Oscar Chaves

1. Saudades de Minas

(De Oscar Chaves, JMC, 1934)

O sol vermelho e triste, caindo em cheio
Sobre as matas e as campinas,
Faz-me lembrar das tardes frescas
E saudosas lá de Minas…

O sol claro e lindo, cheio de raios
Resplandecentes, faz-me lembrar
Da terra linda e encantadora
De Tiradentes…

Lá nas mangueiras, bem de manhã,
O sabiá canta u’a melodia…
Depois a rola arrulha triste,
Despedindo-se do belo dia…

E, assim, na minha terra tudo tem um canto
De alegria… Desde a alva tudo ri,
Tudo salta, tudo vive, e cantante é o viver,
Desde a luz da madrugada até a lua aparecer!

(Nota do autor: Essa poesia eu a escrevi no meu primeiro ano de estudo no Curso Universitário “José M. da Conceição”, em 1934, quando senti a nostalgia de quem está longe do lar e da igreja (no ano anterior, 1933, eu tinha feito a profissão de fé em Patrocínio, com o Dr. Eduardo Lane). [O autor tinha 21 anos ao escrever o poema, nascido que era em 11/10/1912].

2. Por que Choras?

(De Oscar Chaves, JMC, 1938)

“E Maria estava chorando fora, junto ao sepulcro.
Disse-lhe Jesus: Mulher, por que choras?”
João 20:11,15

Junto ao sepulcro, chorando,
Na manhã daquele dia,
Estava a fiel Maria
O Salvador procurando.

Chorava a serva leal,
Com coração aflitivo,
Pensando estar sepultado
Aquele que estava vivo.

Mas Jesus, que conhecia
Dos humanos a fraqueza,
No rosto leu, de Maria,
A causa de tal tristeza.

E disse-lhe: Por que choras,
Como os que vivem sem luz?
A morte já foi vencida,
Porque vivo está Jesus!

Há muitos que, qual Maria,
Numa vida sem bonança,
Não têm paz nem alegria,
E choram sem esperança!

Não têm o Cristo dos céus,
Que sara toda amargura,
Pois confiam num Cristo morto,
Debaixo da sepultura!

Por que choras, meu irmão,
Como a triste Madalena?
Já ressuscitou Jesus
E do teu sofrer tem pena.

Levanta o olhar bem p’ra cima,
Tira os teus olhos do chão!
No céu está quem te anima,
Por que choras, meu irmão?

3. Aviva-me

(Letra de Oscar Chaves)

Eu salvo estou em Cristo, meu amado Salvador,
Eu tenho garantia no sangue expiador.
Mas para gozar paz até no meio do sofrer,
Minh’alma avivamento deve ter!

Coro:

Aviva-me, Senhor! Aviva-me, Senhor!
Eu quero ter servir com mais amor!
Meu débil coração de forças vem encher,
Ó Santo Espírito Consolador!

Oh, cria em mim, meu Deus, um santo e puro coração,
Dirige os passos meus, com tua santa mão!
O mal que te entristece não me deixes praticar,
Teu sangue pode me purificar!

Alegre nos teus passos quero sempre caminhar,
Nos teus possantes braços eu posso me amparar!
Oh, serve-te de mim no teu serviço, meu Jesus,
E eu andarei, assim, na tua luz!

4. Graças pela Igreja

(Letra de Oscar Chaves)

Graças dou por esta igreja que o Senhor aqui plantou,
Pelo som do Evangelho que ela sempre proclamou!
Pelos pobres pecadores que aqui acharam luz,
Pelas almas convertidas que aceitaram a Jesus!

Graças pela mocidade, sempre alegre, a brilhar,
Graças pelas criancinhas, que aqui têm outro lar!
Graças dou pelas senhoras e pelos varões também
Que em prol do Evangelho dão de si tudo que têm!

Graças dou pelo Coral, sempre firme e vencedor,
Que através de temporais tem louvado o Salvador!
Graças por irmãos queridos que já estão além do véu,
E por outros qu’inda lutam caminhando para o céu!

Graças do pela doutrina e a firmeza que ela traz,
Pela Bíblia que ensina ser Jesus a nossa paz!
Ó Jesus, Senhor da Igreja, para ti todo o louvor,
Toda a glória tua seja pelo teu imenso amor.

5. A Luta do Bem

(Letra de Oscar Chaves)

A vida cristã é feliz,
Apesar da tristeza e da dor,
Pois no meio da luta,
Ajudando a vencer,
Conosco está o Senhor!

Coro:

Vamos todos na luta do bem
O Evangelho de Cristo pregar,
Pois só ele, Jesus, é quem tem
O remédio eficaz
Para o mundo salvar!

Há muitos que vivem sem luz
Tateando nas trevas do mal,
Com a vida infeliz,
Com triste final,
Precisam de Cristo Jesus!

O tempo já passa veloz
E Cristo não tarda a voltar,
E este mundo perdido
Precisa de nós,
Senão não se pode salvar!

6. Privilégios do Crente

(Letra de Oscar Chaves)

Nós somos crentes em Jesus
E não seguimos mais o mal!
Remidos somos, já temos luz,
E temos novo ideal!

A vida nova agora temos,
Pois o pecado fica atrás!
No evangelho de Jesus Cristo
A nossa vida encontra a paz!

Nós somos servos do Senhor,
Fomos comprados lá na cruz,
E agora, em prova do nosso amor,
Levemos outros a Jesus!

Deixemos nossa luz brilhar
Porque o mundo em trevas jaz!
Só o redimido pode mostrar
Que o Evangelho satisfaz!

Seja bendito o nosso Deus
Por esta grande salvação,
Pois no caminho que leva aos céus
Sempre nos guia a sua mão!

Ao Salvador que nos salvou
Cantemos glória, glória, glória,
Pois pelo sangue que derramou
Temos certeza da vitória!

7. Nossa SAF (Sociedade Auxiliadora Feminina)

(Letra de Oscar Chaves)

Neste mundo confuso e perdido
Densas trevas encobrem a luz!
Corações todo dia desmaiam
E sucumbem com o peso da cruz!

Coro:

As mulheres cristãs desta igreja
Se uniram num só coração
Para as trevas do mundo espancarem
Com a Bíblia Sagrada na mão!
Com a Bíblia Sagrada na mão!

De semana em semana vão elas
Visitar os mais fracos na fé,
Pelos bairros e pelas vielas
Colocando os caídos de pé!

Muitas vezes seus lares deixando
Nossa SAF tem este ideal:
Vai cantando, vai lendo e orando,
Vai vencendo com o bem todo o mal!

(Para ser cantado com a música do Hino 642 do “Salmos e Hinos)

8. Acróstico: A Mulher PRESBITERIANA

(Por Oscar Chaves)

Preparada sempre pra servir,
Resoluta, confiada no Senhor,
Ela luta e vive a sorrir,
Sem orgulho, sem jaça, sem tremor!
Brandindo a Divina Espada,
Iluminada pela luz do céu,
Tem a vida bem iluminada,
Esperando a glória além do véu!
Reprovando todo o mau caminho,
Instruindo os que vivem sem luz,
A ninguém ilude e nem engana!
Na vida sempre anda com Jesus
A formidável mulher PRESBITERIANA!

Transcrito aqui, à parte da biografia, em Salto, 11 de Outubro de 2017

Perfil de João Wilson Faustini (por Rolando de Nassau)

(Dedicado ao leitor Eduardo Chaves, de Salto, SP)

“Nossa identidade pessoal é totalmente dependente de nossa memória” (John Locke, citado por Eduardo Chaves)

João Wilson Faustini (1931-    ) tem motivo para ser um músico alegre; nascido em Bariri (SP) em 20 de novembro, sua data de nascimento foi escolhida pela Igreja Presbiteriana Independente do Brasil como “Dia do Músico Evangélico” (“O Estandarte”, nov. 2011).

Desde menino, foi muito interessado em hinologia, música sacra e música coral. Aos 13 anos de idade, era o único organista da IPI de Pirajuí (SP).

De 1948 a 1951, foi o aluno no. 611 no Instituto Presbiteriano “José Manuel da Conceição”, em Jandira (SP), onde estudou regência coral e participou do coro regido por Evelina Harper (http://tecnicasderegencia.blogspot.com.br/2013/05).

De 1952 a 1955, Faustini fez o curso de bacharel em música no “Westminster Choir College”, em Princeton, NJ (USA), com ênfase em órgão e canto; também estudou regência coral com John Finley Williamson; aperfeiçoou-se com Robert Shaw e Wilhelm Ehmann. Foi o primeiro brasileiro nessa instituição de alto nível.

De 1955 a 1964, dirigiu o Departamento de Música do “JMC”, onde promoveu anualmente seminários e festivais; em 1959 organizou um Encontro de Corais (que assisti), com a participação de mais de mil cantores.

Atendendo ao convite de Faustini, fui a Jandira (SP) para assistir o Festival de Música Sacra (OJB, 08 out 59). Recebido por Faustini, passei pelo mesmo portão gradeado, construído em 1948, quando e por onde ele ingressou no “JMC”; dista 30 quilometros da capital. Foi fundado em 1928 e fechado em 1970, em pleno regimeautoritário. O festival foi realizado no Auditório “Waddell”.

O segredo do desenvolvimento intelectual e cultural dos alunos estava no fato de que tinham um projeto-de-vida bem definido, tinham motivação para estudar certas matérias; num ambiente de que participavam os professores, os internosdedicavam muito tempo ao estudo. O “JMC” era uma instituição educacional.

Nos “anos dourados” (1953-1959) no Rio de Janeiro e em São Paulo, havia, nos fins-de-semana, concertos sinfônicos para a juventude. Eduardo Chaves conta que, numa apresentação da Sinfonia Coral de Beethoven, ao seu lado estava Faustini, que, na “Ode à Alegria”, liberou abundantes lágrimas … Num Domingo de Páscoa, regendo “Fugi, tristeza e horror”, Faustini também chorou …

Por causa da sua tenacidade, Faustini ficou conhecido como regente excepcional, especialmente quando dirigiu a música na Cruzada Evangelística de Billy Graham e apresentou o Coro Evangélico no Teatro Municipal de São Paulo.

Faustini teve como discípulos os maestros Zuínglio Faustini, Davi Machado, Luiz Roberto Borges, Lutero Rodrigues e Parcival Módolo, e as organistas Dorotéa Kerr e Elisa Freixo.

Fiquei impressionado com a competência de Faustini na regência, adquirida no “Westminster”, e sua humildade na direção dos jovens do “JMC”. Também éramos jovens; Faustini tinha buscado o ambiente dos sons; eu, ainda procurava um caminho para as letras.

Ambos tínhamos adotado nossos pseudônimos. Em 1958, Faustini traduziu o hino “God of Our Fathers” (Deus dos Antigos). Um famoso pregador ouviu atradução, mas ficou empolgado com a música. Não gostou da letra, e disse a Faustini:

“Você pode ser bom músico, mas deixe que os poetas façam os textos dos hinos”.

Faustini fez uma nova tradução; atribuiu a letra ao seu pseudônimo “J. Costa”. Aquele pregador logo disse: “Este sim é um bom poeta!” … (Rolando de Nassau, “Memórias”, http://www.abordo.com.br/nassau/).

Em 1963, formou-se em canto orfeônico e canto pela Escola Paulista de Música. Nos EUA e no Brasil, Faustini apresentou-se em muitos recitais de canto.

De 1964 a 1972, foi organista da “Saint Paul’s Presbyterian Church”, em Newark, NJ (USA), igreja de fala portuguesa.

Em 1966, tornou-se mestre em música sacra (especialização em composição) na escola de música do “Union Theological Seminary”, em New York, NY (USA), sob a orientação de Joseph Goodman.

Em 1967, foi colega de João Dias de Araújo no “Princeton Theological Seminary”, em Princeton, NJ (USA).

Nos últimos 46 anos, Faustini revelou-se profícuo compositor: os antemas e hinos reunidos na “Coleção Evelina Harper”; as coletâneas “Os Céus Proclamam”, “Ecos de Louvor”, “Louvemos a Deus”, “When Breaks the Dawn”, “Brazilian Organ Music”, “Cantai ao Senhor”, “Dádiva Divina” e “Queremos Te Louvar (para uso congregacional e coral), além de um hinário com 61 hinos.

Publicado em 1972, o hinário “Seja louvado” contém 175 hinos inteiramente novos na língua portuguesa (“ULTIMATO”, set. 77). Faustini contribuiu, em 1990, para o “HCC”, com 33 hinos por ele traduzidos.

Em 1973 seu livro “Música e Adoração” começou a difundir noções históricas e práticas ainda muito úteis aos músicos evangélicos no Brasil.

Regente do Coro da PIPI de São Paulo (1972-1975), foi ordenado ministro de música da Catedral Evangélica, cargo que exerceu entre 1976 e 1981, sendo o primeiro no Brasil entre os Evangélicos.

Em 1980, Faustini publicou “Música e Teologia Hoje”, cujas teses endossamos inteiramente; nesse opúsculo expunha a idéia de que todo músico de igreja deveria conhecer teologia. Ele mesmo foi o primeiro ministro de música a ser ordenado pastor (OJB, 04 e 11 jan 81).

Na segunda estadia fora do Brasil (1982-1996), foi novamente ministro da igreja presbiteriana em Newark, NJ (USA); depois (1997-2006),  foi organista e regente coral de uma igreja presbiteriana em Elizabeth, NJ (USA).

Esteve no Brasil em 1988 e 1989 participando de dois seminários, que em 1990 serviram de base para a SOEMUS (Sociedade Evangélica de Música Sacra), da qual é patrono. Em 22 de maio de 2013, na capela anexa à Embaixada do Brasil em Roma, a organista Elisa Freixo executou a peça “Currupio”, de Faustini.

O índice das obras de Faustini está disponível no site http://hinocristao.com/faustini/publicadas/ .

Pela quantidade e qualidade das obras e atividades, Faustini merece ser considerado um dos mais importantes músicos evangélicos do Brasil.

Em 31 de Julho de 2013

Biografia do Rev. Oscar Chaves – 1 (por seu filho Flávio Chaves)

[Esta biografia do meu pai, Rev. Oscar Chaves, foi escrita por meu irmão mais novo, Flávio de Campos Chaves, em 2004. Meu pai estudou no JMC de 1934 a 1938, fato que justifica a inclusão desta biografia aqui].

Rev. OSCAR CHAVES – A Atuação do Homem e Pastor em Santo André

(Sua vida do ponto de vista nem um pouco isento de seu filho…)

Oscar Chaves - foto classicaO Rev. Oscar Chaves veio para Santo André em fevereiro de 1952, aos 39 anos de idade, quando já tinha 10 anos de experiência ministerial, para pastorear a recém-organizada Igreja Presbiteriana da cidade. Porém, seu envolvimento com a cidade e a comunidade evangélica local já datava dos anos de 1937/38, quando ainda estudante do curso pré-teológico do Instituto José Manuel da Conceição, em Jandira/SP, pois já participava e auxiliava nos trabalhos da então Congregação Presbiteriana de Santo André.

[Vejam as três fotos abaixo. A primeira é de algumas pessoas da igreja na Estação Ferroviária de Santo André (antiga Estrada de Ferro Santos Jundiaí), no início de 1938. A segunda é do salão onde se reunia a Congregação, na Rua Senador Flaquer, antes de vir a ser construído o tempo da Rua 11 de Junho. A terceira é do templo construído na Rua 11 de Junho, 868. Um novo templo foi construído posteriormente, durante o pastorado do meu pai.]

Estacao de TremCasa de Oracao

Igreja de Sto Andre

Pastoreou a Igreja ininterruptamente por mais de 30 anos, até outubro de 1982, quando completou 70 anos e foi jubilado compulsoriamente, de acordo com a constituição da Igreja Presbiteriana do Brasil. Cumpre salientar que nesse período ele sempre foi eleito e reeleito sucessivas vezes, democraticamente, pela assembléia de todos os membros da Igreja, sempre com uma votação superior a 90% do total, tendo chegado, em uma eleição, a ter 99,1% dos votos da comunidade (nem o presidente Lula teve tanto sucesso nas urnas…).

Permaneceu ainda trabalhando na Igreja Presbiteriana de Santo André, como Pastor Emérito, até 1986, quando, juntamente com outros membros da igreja, fundou a Igreja Presbiteriana Maranata, também em Santo André, onde continuou atuando, também como Pastor Emérito, até sua morte, em março de 1991, totalizando 39 anos de um profícuo ministério na cidade.

O Rev. Oscar nunca teve maiores ambições (políticas, acadêmicas ou religiosas), embora reunisse condições para tê-las, que não fossem a de servir e atender às pessoas sob seu cuidado ministerial.

Homem culto e preparado, estudioso e amante dos livros, erudito no conhecimento teológico e da história universal e da igreja cristã, era, porém uma pessoa simples, um homem do povo, que falava a linguagem do povo e se fazia entender por todos em suas prédicas. Era alguém que não tinha preconceitos e que gostava de conversar e conviver com as pessoas mais humildes e carentes, pelas quais era muito amado e admirado.

Ele não criou e nem participou diretamente de associações ou outras entidades voltadas especificamente ao atendimento da população de Santo André, porém gastou literalmente a maior parte de sua vida no atendimento a essa mesma população, nas mais diferentes situações e em qualquer hora do dia ou da noite.

Como um bom pastor, não havia horário para ele sair de casa e atender às necessidades de suas ovelhas, como são chamadas as pessoas da comunidade evangélica.

Se de madrugada morria alguém, o rev. Oscar era o primeiro a ser informado e chamado, e lá ia ele confortar a família enlutada e ajudar no que fosse preciso.

Se alguém ficasse doente, lá estava o pastor visitando, animando, dando toda a assistência. Se o doente era carente e precisava de uma internação, ele é que providenciava, falava com médicos, diretores de hospitais, até que conseguisse um local para internar a pessoa, em Santo André, ou no Hospital das Clínicas, em São Paulo, ou qualquer outro lugar.

Precisasse alguém de uma consulta e não tivesse recursos ou condições para se locomover até uma clínica ou hospital, lá estava novamente o pastor, que solicitamente se encarregava de transportar o paciente (quando já tinha o veículo da igreja), ou então providenciar o transporte para que fosse levado ao atendimento. Se houvesse necessidade de algum remédio e o doente não tivesse como adquiri-lo, ele sempre dava um jeito de conseguir…

Se um casal se desentendia e a temperatura no lar começava a aumentar…, quem era chamado? O Rev. Oscar, obviamente, que lá ia dando uma de “psicólogo” e conselheiro matrimonial, para conversar, orientar e apaziguar os ânimos…  É certo que às vezes ele atuava meio como o “Analista de Bagé” (de Luis Fernando Veríssimo) e acabava receitando como terapia a técnica do “joelhaço”, ou em um português um pouco mais claro e bem popular, um velho e bom pontapé naquela parte clássica da anatomia humana de um dos cônjuges, bem conhecida por todos… – Era assim o Rev. Oscar Chaves, uma pessoa autêntica, sincera e franca, sem muitas “papas na língua”, meio “estourado” e “mandão” de vez em quando, porém uma pessoa também simples e amável, com um coração enorme e sempre pronto a ajudar…

Se numa outra situação os filhos é que começavam a “dar problemas” em um lar, eis que o Rev. Oscar também comparecia, conversando, aconselhando, dando “algumas broncas” como se fossem seus próprios filhos, porém sempre amigo dos jovens e das crianças, por quem tinha um carinho muito especial e dedicava toda a sua atenção.

Ficasse alguém desempregado, o pastor estava novamente sempre disposto a ajudar, em todos os sentidos, amparando a família, procurando uma nova colocação, falando com pessoas conhecidas que pudessem ajudar na busca de um novo emprego.

Se uma nova família chegasse do Interior, ou de outro Estado como Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Paraná e tantos outros, lá estava o Rev. Oscar para ajudar a encontrar uma casa onde pudessem morar, um emprego para os que já tinham condições de trabalhar, e escola para os que estavam na idade de estudar. E as visitas a essa nova família se sucediam freqüentemente, ocasião em que ele procurava deixar todos bem à vontade na nova cidade e na nova Igreja em que iriam se congregar.

E assim foi o Rev. Oscar em toda a sua vida, inteiramente dedicada ao povo de Santo André (uma parte dele, obviamente…), em especial aos que estavam sob sua responsabilidade espiritual, como Pastor, ao longo dos seus quase 40 anos em que viveu em Santo André.

Ele cruzava Santo André em todas as direções, sempre visitando, levando uma palavra amiga de conforto e orientação, ou mesmo de exortação. Ele não parava… Inicialmente com sua motocicleta, a partir de 1953/54. [Vejam foto tirada quase na esquina da Av. Santos Dumont, onde morou logo que chegou a Santo André, com a Av. Artur de Queiroz].

Pai e moto

Com essa moto ele ia para o Parque das Nações (onde já existia também uma Congregação da qual ele cuidava), Camilópolis, Curuçá, Vila Lucinda, Oratório, Utinga, depois, em outro dia rumava sua “motinho” em sentido da Vila Pires, Vila Luzita, Vila Suiça, em outra ocasião ia para o Jardim do Estádio, Monções, Vila Linda, Humaitá, Homero Thon, Cidade São Jorge, então voltava rumo ao Príncipe de Gales, Vilas Alpina e Guiomar, Centro, Vila Assunção, Bairro Paraíso, Vila Bastos e por aí afora…

Em qualquer bairro ou vila de Santo André sempre havia uma família para receber a visita, o apoio e os cuidados pastorais do Rev. Oscar.

Isso sem contar que no início de seu pastorado em Santo André, ele era responsável pela Igreja sede, além de outras duas Congregações, uma no Parque das Nações e outra em São Bernardo do Campo. Além disso, seu ministério se estendia também até Mauá e Ribeirão Pires, que, posteriormente, tiveram suas Igrejas devidamente organizadas e emancipadas, da mesma forma como ocorreu com Parque das Nações e São Bernardo.

O Rev. Oscar Chaves era incansável em seu trabalho. Não havia hora em que ele não fosse solicitado. Era até interessante…Parecia que era somente ele se sentar para almoçar ou jantar, que o telefone tocava ou alguém chegava em sua casa, sempre procurando por um conselho, uma ajuda ou outra coisa qualquer.

Com o passar do tempo a Igreja recebeu uma doação da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo. Era um velho jipe, que, não sendo mais adequado para os serviços da Secretaria, foi doado para a Igreja, que fez nele alguns reparos tornando-o extremamente útil para o ministério do Rev. Oscar.

Pai e jeep

É certo que com o Jeep o trabalho dele mais do que dobrou! Porque agora o pastor, além de poder atender e visitar com mais freqüência e rapidez as suas ovelhas, passou também a usar o veículo para prestar assistência e ajudar, de forma mais eficaz, todos aqueles membros da Igreja que eram mais carentes e não podiam pagar uma condução ou táxi para se locomover até um hospital, clínica, etc…

Mesmo assim, com a agenda superlotada, ele encontrava um tempo para estudar, ler, escrever seus artigos, folhetos, crônicas, poemas e hinos, pintar seus quadros e desenvolver seus dons musicais, tocando mais de cinco instrumentos: órgão (elétrico e de fole), piano, acordeão, flauta transversal e doce, violão, etc…

Está certo que, com toda essa atividade e a vocação irresistível para o Ministério Cristão, às vezes sua própria família ficava um pouco prejudicada e carente de uma maior assistência… Mas era muito difícil imaginar que isso pudesse ser diferente… A sua vida era o Ministério, a Igreja, o serviço a Deus e às pessoas.

Enfim, assim era a vida, o cotidiano do Rev. Oscar Chaves, que dá nome a EMEI da Vila Linda…

Alguém poderá perguntar qual terá sido a contribuição do Rev. Oscar Chaves para com a cidade que foi adotada por ele e que, com certeza, também o adotou?

Por aquilo que já foi escrito, dá para se ter uma pequena idéia do envolvimento do Pastor com a sua comunidade andreense. Onde existe uma Igreja Evangélica como a Presbiteriana, e outras, certamente a vida das pessoas que as freqüenta se torna melhor, sofre uma influência extremamente positiva e que se estende a toda a comunidade e vizinhança, e não estamos falando apenas em um nível espiritual… Os aspectos da vida material, social e cultural também são afetados positivamente. As condições de saúde e higiene das pessoas melhoram, bem como a sua condição cultural e intelectual. É muito difícil encontrar um membro de uma Igreja que seja analfabeto e, mais ainda, que se encontre uma criança que não vá à escola ou não saiba ler e escrever. – Isso porque, em todos os batizados de crianças na Igreja Presbiteriana, e o Rev. Oscar batizou, com certeza, muito mais de 1000 crianças em seu ministério, os pais são não apenas incentivados, mas levados a prometer que ensinarão seus filhos a ler e escrever e que os enviarão à escola na idade apropriada, para que eles possam ler a Bíblia Sagrada por si mesmos, adquirindo, assim, ensinamentos que, com certeza, também as farão melhores pessoas e cidadãos.

Acrescente-se a isso que a instituição da Escola Dominical, uma atividade sempre tão prezada pelo Rev. Oscar em sua Igreja, onde as crianças e adultos são divididos em classes de acordo com sua faixa etária e interesses, para estudarem semanalmente a Bíblia e princípios morais, éticos e religiosos cristãos, certamente foi um instrumento muito poderoso para influenciar positivamente as pessoas que a freqüentaram, bem como o meio em que as mesmas viviam e vivem.

Assim era o Rev. Oscar Chaves. Uma pessoa carismática e muito querida e admirada pela grande maioria das pessoas que tiveram o prazer de conhecê-lo. A sua obra, seu legado e conseqüências e frutos de todo o seu trabalho e atividades em Santo André e na região do ABC, assim como a influência positiva que deixou, dificilmente poderão ser medidos, quantificados e retratados, de forma verdadeira e eficiente, e em toda a sua abrangência.

Basta dizer, no entanto, que quando ele veio para Santo André, em 1952, existia apenas uma Igreja Presbiteriana na cidade. Hoje, como fruto direto e indireto de seu trabalho, somente em nossa cidade de Santo André temos nove Igrejas Presbiterianas: a Igreja Central (Rua Onze de Junho), a Igreja Maranata (Rua Tiradentes), e mais as igrejas do Parque das Nações, Utinga, Jardim Monções, Vila Suiça, Jardim Santo Alberto, Parque Erasmo Assunção e Jardim Itapuã, além das Igrejas Presbiterianas de Mauá, e outras oito Igrejas Presbiterianas em São Bernardo do Campo.

O Rev. Oscar foi um pai amoroso, dedicado e preocupado com seus filhos (e com os filhos dos outros também…) embora fosse um pouco radical “demais” e ortodoxo / “linha dura” em suas opiniões e posições, em geral. Com o passar dos anos foi-se tornando pelo menos radical e um pouquinho mais liberal e tolerante com algumas coisas e assuntos… Certamente, tinha também uma infinidade de defeitos, grandes e pequenos, e de todo o tipo, que deixo, porém, para que outros os descrevam e comentem…

Como seu filho, posso dizer que passei, “inexoravelmente”, por quase todas as fases (só falta chegar aos 60…) descritas em um velho texto – “O que o Filho pensa do Pai” – que o Rev. Oscar, sempre que podia, ele o incluía em seus sermões, como ilustração ou com um outro pretexto qualquer (e eu, principalmente quando adolescente e jovem, sempre achava que ele falava tudo aquilo só para me “provocar”…).

Termino aqui essa modesta biografia com a transcrição do referido texto, esperando que, quem sabe, sirva de “inspiração” para outros filhos meio “revoltados”…

Flávio de Campos Chaves
Santo André, 8 de Maio de 2.004.

[Pensamentos que meu pai frequentemente citava]

O que o Filho Pensa do Pai

  • Aos 07 anos: Papai é um sábio, sabe de tudo.
  • Aos 14 anos: Parece que Papai se engana em certas coisas que me diz.
  • Aos 20 anos: Papai está um pouco atrasado em suas teorias; não são desta época.
  • Aos 25 anos: O “Velho” não sabe nada… Está caducando, decididamente…
  • Aos 35 anos: Com a minha experiência, meu Pai, nesta idade, seria um milionário…
  • Aos 45 anos: Não sei se consulto o “Velho” neste assunto, talvez pudesse me aconselhar.
  • Aos 55 anos: Que pena ter morrido o “Velho”… A verdade é que tinha umas idéias e clarividências notáveis…
  • Aos 60 anos: Pobre Papai… Era um sábio… Como lastimo tê-lo compreendido tão tarde…

Autor Desconhecido
Publicado pelo Laboratório Paulifarma em 18/05/1971

O filho e o pai - Oscar Chaves

Algumas outras singelas obras do Rev. Oscar Chaves

1) Poesia – Título: DEUS É AMOR

Tudo que no mundo vive,
Tudo, seja aonde for
Canta ao homem a velha história,
Dizendo: DEUS É AMOR!

As andorinhas nos ninhos
À hora do sol se por
Cantam alegres aos filhinhos
Dizendo: DEUS É AMOR!

A brisa mansa e suave
Carregada de frescor
Corre alegre pelos campos
Dizendo: DEUS É AMOR!

O sol brilhando no céu
Com todo o seu esplendor,
Manifesta a glória divina
Dizendo: DEUS É AMOR!

Também o trovão bravio,
Da chuva anunciador,
À terra a mensagem dá
Dizendo: DEUS É AMOR!

Somente o homem perdido,
Que vive sem o Senhor,
Gasta toda a sua vida
Sem dizer: DEUS É AMOR!

2) Hino / Cântico – Título: AVIVA-ME

Eu salvo estou em Cristo, meu amado Salvador,
Eu tenho garantia no sangue expiador,
Mas para gozar paz até no meio do sofrer
Minh’alma avivamento deve ter!

Coro

Aviva-me Senhor! Aviva-me Senhor!
Eu quero te servir com mais amor!
Meu débil coração de força vem encher,
Ó Santo Espírito consolador!

Oh, cria em mim, meu Deus um santo e puro coração,
Dirige os passos meus, com tua santa mão!
O mal que te entristece não me deixes praticar!
Teu sangue pode me purificar!

Alegre nos teus passos quero sempre caminhar,
Nos teus possantes braços eu posso me amparar!
Oh, serve-te de mim, no teu serviço, meu Jesus,
E eu andarei, assim, na tua luz!

3) Hino / Cântico – Título: NÃO É SEGREDO

O mestre disse falando assim:
“O Evangelho pregai por mim!
Falai bem alto, qual um clarim,
E eis-me convosco até ao fim!

Força e poder eu vos darei,
Os vossos passos eu guiarei,
E se cumprindo o que falei,
Então à terra eu voltarei!”

E quando Cristo aqui voltar
E para a glória os seus levar,
Com grande gozo vamos cantar:
Não é segredo, Deus sabe amar!

Não é segredo, Deus é amor,
Confia nEle, ó pecador.
Mandou Seu Filho, provando assim
Que sua graça jamais tem fim!

4) Hino / Cântico – Título: FAZE-ME SENHOR

Faze-me, Senhor, mais fiel e leal,
Faze-me, Senhor, evitar mais o mal.
Faze-me, Senhor, mais constante no bem,
Faze-me, Senhor, faze-me fiel,
Faze-me leal.

Faze-me, Senhor, sempre cheio de amor,
Faze-me, Senhor, ter mais fé e fervor!
Faze-me, Senhor, mais e mais perdoar,
Faze-me, Senhor, faze-me fiel,
Faze-me leal.

Faze-me, Senhor, faze-me sempre lembrar
Que muito em breve Tu hás de voltar!
Faze-me, Senhor, sempre cheio de fé,
Faze-me, Senhor, faze-me fiel,

5) Hino / Cântico – Título: PENSA EM MIM JESUS

Pensa em mim, Jesus, lá na excelsa luz,
Já mostrou na cruz amor sem fim.
Satisfeito estou, sem medo vou,
Cristo pensa em mim!

Tenho a proteção do meu Salvador,
Que, com grande amor, dá-me o perdão,
E me guia assim, mesmo na dor,
Com a sua mão!
Faze-me leal!

6) Crônica – Título: TEMPOS QUE NÃO VOLTAM MAIS…

Nota: Esta crônica foi enviada ao “Programa da Saudade” da Rádio Difusora de São Paulo, em 1954, e lida no programa pelo seu apresentador Décio Pacheco da Silveira.

 Por que gostamos de recordar os dias passados, longínquos, saudosos, de nossa infância?

Todos nós, depois de grandes, temos um pouco da nostalgia e do sentimentalismo de Casemiro de Abreu, quando chorava, nos versos, a sua “infância querida que os anos não trazem mais…”.

Sim, amigo, você tem as suas recordações, com certeza. Eu também as tenho. E como é doce lembrar aquele tempo em que a gente, inocente e despreocupado, “adormecia sorrindo e despertava a cantar…”.

Minha cidade era pequena, sossegada e poética, escondida entre as montanhas grandes e corcundas lá do oeste de Minas: Patrocínio. Foi lá que meus pais nasceram, e foi lá que eu vi a luz do sol e me criei. Patrocínio antiga era melhor e mais encantadora do que a de hoje. Talvez eu tenha essa impressão por causa dos sonhos e das alegrias da minha meninice. Tudo, antigamente, parecia melhor, mesmo com o atraso e com a falta de conforto que havia. Ainda me lembro de minha cidade sem luz elétrica. Parecia mais gostosa ainda, pois, em vez de brincarmos à noite, nós, os moleques, nos sentávamos ao redor da “Siá Adélia”, a velhinha magra e bondosa que nos contava histórias todas as noites, à porta da sua casa. Que histórias extraordinárias ela nos contava! Almas do outro mundo, mulas sem cabeça, assombrações, homens que viravam lobisomens… Ela contava, com arte de mestre, coisas que nos deixavam arrepiados!

Eu, o Raul e o Mauro (meus manos), o Joãozinho da S’Adélia, o João do Nilo, o Bias, seu irmão, o Walterson (que nós chamávamos de Son) e outros, nós nem piscávamos, eletrizados pelas palavras da nossa boa velhinha. À noite, lá pelas dez horas, quando ela se despedia de nós e entrava em sua casa, nós ficávamos com um medo terrível de nos separarmos para dormir. Parecia-nos ver aquele vulto branco que toda sexta-feira, à meia-noite, gemia debaixo da árvore, perto da porteira, e que costumava montar na garupa do cavaleiro que transitasse por aquelas bandas…

Eu e os manos tínhamos receio até de atravessar a rua, pois nossa casa ficava bem em frente à casa da S’Adélia. – Boa e inteligente velhinha!

Às vezes, sentados em grupos, na calçada de minha casa, à noite, nós fazíamos um dueto triste e dolente, que enchia o “Largo da Cadeia”. Cantávamos a “Tristeza do Jeca”, “O Meu Boi Morreu”, “A Madrugada que já passou…” E esse dueto, bem afinado e sentimental, não deixava de ter a sua poesia e a sua beleza simples. No dia seguinte, no Grupo Escolar, dona Amélia, minha professora, (que morava perto), alegre e entusiasmada, elogiava as vozes tão bonitas que tinham cantado lá no Largo…

E o futebol, no Largo da Cadeia? A molecada se reunia ali, e quase sempre, com bola de pano (ponta de meia velha) a peleja chegava a tal ponto de entusiasmo que terminava em briga. Quanto dedão machucado, quanta unha arrancada naqueles jogos!

E o Carnaval, então? Era uma beleza! Tudo inocente engraçado. Não tinha as imoralidades, as malícias de agora. A coisa mais engraçada para nós era ver o Tito padeiro vestido de mulher, muito sério, pela rua afora. O Raul Rodrigues, narigudo e feio, vestido de caipira, era também um número extraordinário! Homens de perna de pau, altos, da altura das casas, mascarados, saíam pelas ruas e jardins, acompanhados da meninada… E o povo cantando: “A baratinha Yayá, a baratinha Yoyô”, “Periquito louro, do bico dourado…” Oh, tempos felizes aqueles!… Não voltam mais, nunca mais!

Depois fomos crescendo, tomando rumos diferentes, separando-nos devagarinho… Uns, a morte levou. Outros, levou-os a vida. Separamo-nos.

Faz 20 anos que deixei minha terra (notar que a crônica foi escrita em 1954). Tenho-a visitado de vez em quando. Mas não é mais a minha querida Patrocínio. Tudo diferente. Os amigos velhos não estão mais lá. S’Adélia morreu há pouco tempo, cheia de anos e de bondade. O Totonho, seu marido, que ensaiava a banda de música, também morreu há pouco. O Raul lá está ainda, o meu mano. O Mauro formou-se em Lavras, e trabalha em Belo Horizonte. O Walterson é hoje um médico ilustre na Capital mineira. O João do Nilo e o Bias sumiram-se, não sei para onde. Minha querida mãe também (que tantos socos me deu na cabeça por causa do futebol no Largo da Cadeia) está em Belo Horizonte. Eu cá estou, em Santo André, próximo à capital do estado de São Paulo, como Ministro do Evangelho, pregando a doutrina de Jesus aos meus bons patrícios.

Mas tenho saudades, imensas saudades da minha terra. Se me fosse dado viver outra vez, eu gostaria de nascer e passar a minha infância lá mesmo, em Patrocínio, meu querido rincão mineiro. Mas não nessa Patrocínio atual. Naquela outra, aquela antiga, poética, inocente, e sem luz elétrica…

Flávio de Campos Chaves
Santo André, 08 de Maio de 2.004.

(Auto)Biografia do Rev. Oscar Chaves – 2 (em parte por seu filho Eduardo Chaves)

[Estas notas, exceto onde assinalado, são basicamente autobiográficas, retiradas que foram de resumo dos principais fatos de sua vida preparados pelo próprio Rev. Oscar Chaves e destinados a uma publicação feita pela Igreja Presbiteriana de Santo André, quando ele comemorou 40 anos de ordenação ao ministério em 1982. Alguns fatos foram acrescentados ao relato biográfico com base em outras anotações do Rev. Oscar Chaves, feitas em sua primeira Bíblia, ganha do Rev. Eduardo Lane como presente de Natal no ano de 1932. Outros fatos foram complementados por mim, Eduardo Chaves, filho mais velho do Rev. Oscar, porque eram do meu conhecimento. Ao final, incluo alguns poemas e hinos escritos pelo Rev. Oscar. A biografia escrita por meu irmão também inclui alguns.]

Oscar Chaves – (Auto)BiografiaOscar Chaves - foto classicaO Rev. Oscar Chaves nasceu em Patrocínio, Minas Gerais, em 11 de Outubro de 1912, filho de Carlos Gonçalves Chaves e Alvina Jacintha de Oliveira Chaves.

Nasceu em lar católico e cresceu como católico sincero, indo à igreja todos os domingos, acompanhando todas as procissões, especialmente as da Semana Santa. Quando ainda mocinho fez parte da Conferência de São Vicente de Paula, que naquele tempo só tinha pessoas de idade. Mais tarde, quando jovem, começou a estudar o espiritismo de Allan Kardec e se tornou um católico-espírita. Freqüentou muitas sessões espíritas com sua mãe. Depois foi convidado para os cultos protestantes (crentes), tendo aceito vários convites.

Quando começou a ter envolvimento com os crentes, pôs-se a ler livros de polêmicas do pastor Presbiteriano Rev. Álvaro Reis com espíritas (Cartas a um Doutor Espírita, por exemplo) e abandonou as idéias espíritas. Depois voltou-se para livros de controvérsias de protestantes com padres católicos, escritos especialmente por diversos autores presbiterianos.

O livro que mais o esclareceu e o entusiasmou foi Mimetismo Católico, discussão entre o Rev. Álvaro Reis, famoso pastor presbiteriano, e o Dr. Carlos de Laet, grande líder católico. Chegou a ler esse livro oito vezes! Mas ainda não era “crente” e tinha vergonha de entrar na Igreja Evangélica. Só no final de 1932 veio a se converter. Para que isso acontecesse, teve de ir para uma outra cidade, Patos de Minas, perto de Patrocínio, onde ficou cinco meses lecionando num pequeno colégio.

(Vide Nota 1)

Em Patos ele se firmou no Evangelho e, voltando para Patrocínio em Dezembro de 1932, fez, no dia 1º de Janeiro de 1933, sua profissão de fé na Igreja Presbiteriana, com o Rev. Dr. Eduardo Lane. Em Fevereiro, um mês depois de professar, já fez sua primeira pregação no púlpito daquela igreja, a convite do pastor. Nessa data, 1/2/1933, o texto de seu primeiro sermão foi o do Evangelho Segundo João, cap. 5, vers. 40: “E não quereis vir a mim para terdes vida.”

Naquele mesmo ano desejou ir estudar para o ministério em São Paulo. Seu pastor, Dr. Lane, viu, porém, que ele estava muito “verde” e o fez esperar um ano. Em Fevereiro de 1934 foi para o Curso Universitário “José Manuel da Conceição”, em Jandira, onde estudou cinco anos (quando foi para o JMC já tinha o 3º Ginasial). Lá se formou em 1938, indo então para o Seminário de Campinas, onde concluiu o curso teológico em 1941.

Foi licenciado pregador do Evangelho em 26 de Janeiro de 1942 (segunda-feira), pelo então Presbitério de São Paulo, na Congregação Presbiterial “Betânia”, em Pinheiros, sob o pastorado do Rev. Avelino Boamorte. Seu sermão de prova versou sobre João 18:36: “O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos para que eu não fosse entregue aos Judeus. Mas agora o meu reino não é daqui”.

Licenciado, foi enviado para a cidade de Paracatu, MG, para trabalhar com a West Brazil Mission, sendo o primeiro obreiro da Missão a residir naquela antiga cidade mineira.

De Paracatu veio para Campinas, em Junho de 1942, para se casar, no dia 3 de Julho, com Edith de Campos, com quem ficou casado até o fim de sua vida. Da. Edith foi com o Rev. Oscar para Paracatu, quando ele para lá voltou, depois das núpcias.

No fim de 1942 o Rev. Oscar foi convidado para ser missionário da Junta de Missões Nacionais da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) e, aceitando o convite, foi ordenado para o ministério pelo Presbitério de São Paulo, no dia 31 de Janeiro de 1943 (domingo, à noite), no templo da Igreja Cristã Reformada da Lapa, em São Paulo. Com ele foram ordenados Wilson de Castro Ferreira e Domício Pereira de Matos. Estavam presentes no culto os Revs. William Kerr, Avelino Boamorte, Mario Cerqueira Leite, Amantino Adorno Vassão, Miguel Rizzo Júnior (orador), Paulo Pernassetti, Júlio Camargo Nogueira, Jorge César Mota e o pastor da Igreja Cristã Reformada. Oficiaram como ministros assistentes os Revs. Zaqueu de Melo [que era irmão de uma cunhada do Rev. Oscar, Da. Maria de Melo Chaves, autora de um livro sobre o Protestantismo brasileiro, Bandeirantes da Fé, traduzido para o francês como Pionniers de la Foi e reeditado recentemente pela Editora Cultura Cristã] e Moisés Aguiar. Seu sermão de ordenação versou sobre Filipenses 1:21: “Porque para mim o viver é Cristo e o morrer é ganho”. A primeira parte desse versículo é, em grego, o moto do Instituto JMC: “’emoì gàr tò zên Christós”.

Ordenado, ele foi então enviado para Lucélia, na Alta Paulista, onde fundou o trabalho presbiteriano, que nasceu em sua casa, na sala de visitas. Ficou ali dois anos deixando um terreno comprado, um grande salão construído e uma Escola Dominical com 127 alunos. Em Lucélia nasceu, em Setembro de 1943, seu primogênito, Eduardo Oscar [Responsável por este blog]. Enquanto em Lucélia, implantou várias igrejas na região, com destaque para a de Dracena, em 1943.

De Lucélia foi enviado para Irati, no sul de Paraná (entre Ponta Grossa e Guarapuava), onde ficou menos de um ano, pois o trabalho era realizado entre luteranos, o que não era um campo propício para a Junta.

Dali foi enviado ao norte do Paraná, para onde, naquela época, afluíam famílias de toda a parte. Em Marialva foi residir em uma casa de madeira, inacabada, pois era tremenda a escassez de moradias, devido ao alto número de famílias que chegavam todos os dias. Em Marialva já havia uma pequena Escola Dominical num pequenino salão de madeira, que era visitada pelo Rev. Wilson Lício, então pastor em Arapongas. Foi comprado um harmônio, um terreno e construído um grande templo de madeira. Em três anos havia uma Escola Dominical com 173 alunos e um imponente coral com quase trinta coristas, com todos os coristas de uniforme (herança do JMC) — algo que revolucionou aquela pequenina cidade que, naquela época, era uma cidade estilo “velho Oeste”, com cenas de “bang-bang” na rua. Ali recebeu mais de 60 novos membros, a maioria vinda do romanismo e do espiritismo. O Rev. José Carlos Nogueira, então presidente da Junta, quando visitou aquele campo, disse que Marialva era a “Antioquia do Paraná”.

Em Dezembro de 1946, durante seu ministério em Marialva nasceu, em Campinas, SP, seu segundo filho, Flávio, que é hoje Presbítero da Igreja Presbiteriana “Maranatha”, de Santo André, SP.

Depois de três anos, formado o trabalho em Marialva, deslocou-se para Maringá, para abrir ali o trabalho presbiteriano, pois a cidade, oficialmente criada em 1947, devia se tornar, como de fato se tornou, a mais importante cidade ao oeste de Londrina. Alugou uma casa com um salão comercial na frente e, no salão, começou uma Escola Dominical com 18 alunos. Não havia luz elétrica, nem água encanada, nem esgoto, nem calçamento. Ali teve um campo que, quando de sua saída, no início de 1952, se desdobrou em quatro outros. De jardineira da Viação Garcia visitava Marialva, Mandaguari, Jandaia do Sul, Pirapó, Taquarussu, Peaberu, Campo Mourão, Paranavaí, Capelinha e outros lugarejos.

Depois de três anos em Maringá, veio para São Paulo, deixando lá dois bons lotes de terreno comprados, onde depois foi construído o atual templo, e uma Escola Dominical com 137 alunos.

A convite do Presbitério de São Paulo, assumiu, a partir de Março de 1952, a Igreja Presbiteriana de Santo André — igreja recém organizada (o fora em 1951), com poucos recursos humanos e financeiros. A Escola Dominical, quando tinha 60 pessoas, estava animadíssima. O pequeno salão de cultos, construído na Rua 11 de Junho, 878, onde está hoje o Edifício de Educação Religiosa, poucas vezes se enchia. O campo era formado pela igreja de Santo André e as congregações de São Bernardo do Campo e do Parque das Nações, este um bairro de Santo André.

Em 1982 [quando foram preparadas estas notas biográficas, para comemorar os 40 anos de ordenação do Rev. Oscar], Santo André tinha uma Escola Dominical com 580 alunos, a igreja tinha 600 membros adultos e um Conjunto Coral de 90 vozes. A Igreja de Santo André tinha, em 1982, cinco filhas já emancipadas e organizadas: as Igrejas de São Bernardo do Campo, Parque das Nações, Utinga (também bairro de Santo André), Mauá e Ribeirão Pires, além de congregações em Jardim das Monções, Cidade São Jorge, e Vila Suiça, todas em Santo André. A Igreja de Santo André já tinha (também em 1982) uma “neta”, a Igreja de Santo Alberto, criada pela Igreja do Parque das Nações.

Em outubro de 1976, depois de pastorear a igreja de Santo André por 24 anos, foi reeleito pastor com 99,1% dos votos da Assembléia Geral da igreja.

Em Santo André nasceram suas duas filhas, Priscila, em Março de 1957, e Eliane, em Janeiro de 1959. Ambas continuam a residir em Santo André.

O Rev. Oscar foi Presidente dos Presbitérios Paulistano e da Borda do Campo, tendo sido também Tesoureiro deste e do Sínodo que o congregava (Sínodo Santos-Borda do Campo). Foi Presidente da Junta de Missões Nacionais da Igreja Presbiteriana do Brasil e membro da Comissão de Evangelização Presbiteriana. Visitou uma vez os Estados Unidos, a convite do Concílio Internacional de Igrejas Cristãs (presidido pelo arqui-conservador Rev. Carl McIntire), para assistir, como observador, a uma de suas grandes reuniões, em Atlantic City, New Jersey.

O Rev. Oscar foi convidado para ocupar vários cargos na administração da Igreja Presbiteriana do Brasil, e mesmo para ser professor de sua alma mater, o Seminário de Campinas. Entretanto, sempre declinou dos convites, preferindo o trabalho na igreja local.

O Rev. Oscar fez diversos trabalhos de evangelização pelo rádio, em duas emissoras de Santo André. Pregou em mais de cem cidades de treze Estados brasileiros. Foi reeleito diversas vezes pastor da Igreja Presbiteriana de Santo André [vide abaixo].

(Vide Nota 2)

Em 1982 o Rev. Oscar completou 70 anos e foi jubilado. Permaneceu, entretanto, ajudando na Igreja, que passou a ser pastoreada pelo até então pastor auxiliar, Rev. Evandro Luiz da Silva, que havia sido escolhido por ele próprio.

Em um desses lamentáveis acontecimentos a que nem as pessoas mais bem intencionadas estão imunes, o Rev. Oscar e o Rev. Evandro Luiz da Silva se desentenderam a tal ponto que, em 1986, o Rev. Oscar e um grupo de membros da Igreja Presbiteriana de Santo André deixaram a igreja e formaram uma congregação que eventualmente se tornou a Segunda Igreja Presbiteriana de Santo André, hoje chamada Igreja Presbiteriana Maranatha de Santo André. Ali os membros que acompanharam o Rev. Oscar o declararam Pastor Emérito – corrigindo o que só pode ser qualificado de uma indelicadeza cometida pela Igreja que ele pastoreou durante mais de 30 anos, que não havia tomado a iniciativa de assim honrá-lo (ou, em outra versão, concedeu-lhe o título mas depois cassou-o). A Igreja Presbiteriana Maranatha tem hoje (1997) prédio próprio onde funcionam o tempo e as instalações de Educação Religiosa.

O Rev. Oscar, além de dedicado pastor e excelente homem de púlpito, era poeta e músico. Escreveu várias poesias e inúmeras letras de hino, tendo também composto a melodia de alguns. Tocava vários instrumentos, todos eles de ouvido: órgão (inclusive elétrico), piano, acordeon, flauta transversal, flauta doce, gaita, violão, cavaquinho, bandolim, e até mesmo serrote. Era bom pintor de telas de aquarela e guache – embora quase todas elas, e suas gravuras a lápis, exibissem o mesmo tema bucólico e campestre, pleno de por-de-sóis, montanhas, coqueiros, palmeira (ou então as paranaenses araucárias) e lagos com pequenos barcos a vela.

O Rev. Oscar faleceu em 5/3/91, no Hospital das Clínicas da Universidade Estadual de Campinas, vitimado por câncer na próstata. Morreu um ano antes de poder comemorar o Jubileu de Ouro de sua ordenação e as suas Bodas de Ouro com Da. Edith de Campos Chaves, que o sobreviveu por treze anos, vindo a falecer em 11 de Junho de 2008 (coincidente na data — em que se comemora a Batalha de Riachuelo — que dava nome à rua da Primeira Igreja Presbiteriana de Santo André. Uma ironia da vida.

O Rev. Oscar deixou, ao falecer, além da esposa e seus quatro filhos, seis netos: Andrea e Patrícia (filhas de Eduardo Oscar), Flávio Filho e César (filhos de Flávio), e Vítor e Diogo (filhos de Eliane). Hoje, se vivo, ele teria dois bisnetos, Gabriel e Lucas, filhos do César.

(Vide Nota 3)

NOTAS:

(1) [Nota de Eduardo Chaves, responsável por este blog e filho do Rev. Oscar]

Com data de 28 de fevereiro de 1931, quando ele tinha, portanto, apenas 18 anos, Oscar Chaves transcreveu, em um caderno de capa dura, e em caprichada letra de imprensa, 39 páginas de um trecho sobre a “A Matança dos Protestantes, em Paris, no dia 24 de Agosto de 1572, Domingo, Dia de São Bartolomeu”, retirado do romance histórico de Michel Zevaco chamado Epopéa d’Amor. Depois de transcrever a passagem do livro, ele comentou, de próprio punho:

“Não nos admira nada que tal coisa acontecesse, porque isso é o cumprimento da prophecia do Apocalypse, que, referindo-se à Egreja Romana (que mais tarde havia de apostatar), disse: ‘E não luzirá mais em ti a luz das lâmpadas, nem se ouvirá mais em ti a voz do esposo e da esposa, porque os teus mercadores eram príncipes da terra, porque nos teus ensinamentos erraram todas as gentes. E nella (na Egreja) foi achado o sangue dos prophetas, dos santos, e de todos os que foram mortos sobre a terra’ (Apocalypse 18:23,24). ‘E a mulher (a Egreja Romana) estava vestida de púrpura e de escarlata, adornada com ouro, pedras preciosas e pérolas . . . e na sua fronte estava escripto este nome: Mistério! Babilônia, a Grande, a mãe da fornicação e das abominações da Terra. E a mulher achava-se embriagada com o sangue dos santos e das testemunhas de Jesus’ (Apocalypse 17:4,5,6).

O castigo dessa egreja apóstata será grande, e, por isso, a todos dirige o Senhor este apêllo: ‘Sahi della, povo meu, para não serdes participantes dos seus delictos, e para não serdes comprehendidos nas suas pragas. Porque os seus peccados chegaram até os céus, e o Senhor se lembrou das suas iniqüidades’. (Apocalypse 18:4,5).”

Fim da citação. Só 22 meses depois, em Dezembro de 1932, Oscar Chaves iria formalmente abraçar a Igreja Presbiteriana. Mas sua convicção acerca da Igreja Romana estava firmada bem antes disso, como demonstra não só a citação, mas o esforço necessário para transcrever a mão, em letra de imprensa, 39 páginas de um texto vibrante de denúncia das atrocidades cometidas pelos Católicos contra os Protestantes (Huguenotes) naquele Domingo de São Bartolomeu em Paris, no ano de 1572.

(2) A partir daqui, o texto é um acréscimo pela mão de Eduardo Chaves, responsável por este blog, e filho do Rev. Oscar Chaves.

(3) Eis alguns fatos que meu pai julgou importante anotar em sua Bíblia preferida e mais velha, um presente do Rev. Eduardo Lane e que tem, na capa de dentro, uma fotografia do Rev. Eduardo Lane e outra dele, com as seguintes anotações, de próprio punho:

“Oscar Chaves

25 de Dezembro de 1932

Esta Bíblia foi um presente do Rev. Dr. Eduardo Lane, em Patrocínio, Minas, no Natal de 1932 (a minha primeira Bíblia!).

Sou do Senhor.”

Logo abaixo há um recorte de jornal com os seguintes dizeres:

“Fracassaremos:

Quando perdermos o interesse por nós mesmos
Quando vivermos tão ocupados que não possamos sorrir um pouco
Quando considerarmos o dinheiro mais valioso que o respeito próprio
Quando nos esquecermos das distrações.
Quando deixarmos de espalhar um pouco de felicidade durante as horas de trabalho diário
Quando calcarmos os princípios sob nossos pés
Quando tirarmos vantagens daquelles que são mentalmente fracos.
Quando invejarmos o que possuem os que nos rodeiam
Quando permitirmos que o egoísmo domine os nossos corações
Quando dermos à religião o segundo lugar em nossas vidas

Buscae primeiro o reino de Deus e a sua justiça e as outras cousas vos serão acrescentadas.

(Traduzido)”

Em uma página em branco na parte de dentro da segunda capa estão registrados os seguintes fatos:

“Pai: Carlos Gonçalves Chaves, nascido em 4/11/81, falecido em 7/4/1926.

Mãe: Alvina Jacyntha de Oliveira, nascida em 24/10/88, falecida 3/4/1959.

Irmãos:

Carlos Chaves, 13 de março
Raul, 20 de novembro
Mauro, 25 de fevereiro
Aldo, 25 de fevereiro
Dulce, 18 de fevereiro”

Em algumas páginas em branco entre o Velho e o Novo Testamento estão registrados os seguintes fatos:

“Professei minha fé em  Jesus Cristo no dia 1 de Janeiro de 1933, na Igreja Evangélica desta cidade, de Patrocínio. Fiz minha primeira pregação numa quinta-feira, dia 23 de fevereiro de 1933, na Igreja Evangélica desta cidade, sobre João 5:40.

Patrocínio, Março de 1933

Recebi o meu diploma da Faculdade de Teologia no dia 14 de novembro de 1941 (sexta-feira, no Teatro Municipal de Campinas [o celebrado Teatro São Carlos]).

Fiquei noivo da Edith no dia 18 de novembro de 1941, em Campinas, às 7 hs. Da noite.

Casei-me no dia 3 de julho de 1942, às 16 hs,  na Faculdade de Teologia, em Campinas.

Fui licenciado pregador do evangelho no dia 26 de janeiro de 1942 (segunda Feira) na Congregação Presbiterial “Betania”, em Pinheiros, sob o pastorado do Rev. Avelino Boamorte.

Trabalhei durante o ano de licenciatura em Paracatu, Minas, para a West Brazil Mission.

Fui ordenado para o santo ministério no dia 31 de janeiro de 1943 (Domingo, à noite), no templo da Igreja Cristã Reformada da Lapa, São Paulo. Comigo foram ordenados: Wilson Ferreira de Castro e Domício Pereira de Matos.

Ministros presentes: Revs.: William Kerr, Avelino Boamorte, Mario Cerqueira Leite, Amantino Adorno Vassão, Miguel Rizzo Jr. (orador), Paulo Pernassetti, Júlio Camargo Nogueira, Jorge César Mota e o pastor da Igreja Cristã Reformada.

Ministros assistentes: Revs. Zaqueu de Melo e Moisés Aguiar.

Comecei o trabalho missionário, para a “Junta Mista de Missões”, em Lucélia, S. Paulo, no dia 24-2-1943.

Nasceu o nosso primogênito, Eduardo Oscar, em Lucélia, S. Paulo (à rua Amazonas s/n), no dia 7 de setembro de 1943, às 10 hs da noite (terça-feira).

Eduardo Oscar foi batizado em Campinas, na Igreja Cristã Presbiteriana, na noite de 30-1-1944, pelo Rev. Dr. Eduardo Lane. [Não se esclarece de que cidade: presumo que Campinas].

Flávio: nasceu o nosso segundo filho, Flávio, no dia 20 de dezembro de 1946, às 7:14 da manhã, em Campinas, à Rua José Paulino, 254 [pertinho do Largo do Pará].

Flávio foi batizado no dia 22 de fevereiro de 1948, domingo, às 8:30 da manhã, na Igreja Cristã Presbiteriana de Campinas, pelo Rev. Américo Justiniano Ribeiro.

Com a “Junta de Missões”, trabalhei 9 anos: 2 anos e 4 meses em Lucélia, 8 meses em Irati, e 6 anos em Marialva e Maringá, no norte do Paraná.

Em 1952 (março) deixei a “Junta” e voltei para o Presbitério de São Paulo, pastoreando a Igreja de Sto. André (a partir de Março de 1952) como pastor do presbitério.

Em Janeiro de 1953 fui eleito por 3 anos pela Igreja.

Em Janeiro de 1956 (dia 8) fui reeleito por mais 5 anos (143 membros presentes e recebi 138 votos).

Em 1961 fui eleito pela terceira vez por mais 5 anos.

Em 1966 fui eleito pela quarta vez pastor de Santo André por mais 5 anos (187 presentes, tive 184 votos)

Em 3-10-71 fui eleito pela quinta vez  por mais 5 anos (268 votos dos 271 membros presentes)

Em 24-10-1976 fui eleito pela sexta vez por mais 5 anos, com 99,1% dos votos (235 pessoas e tive 233 votos).

Priscila: nasceu nossa filhinha no dia 2 de março de 1957, às 23:55 horas, em Santo André, à Rua Particular, nº 10 (Travessa da Senador Flaquer).

Eliane: nasceu em Santo André, também à rua Particular, nº 10 (Travessa da Senador Flaquer) no dia 27 de Janeiro de 1959, às 7:30 horas da manhã.

Ambas foram batizadas na Igreja Presbiteriana de Santo André, na Escola Dominical, pelo Rev. Raimundo dos Santos, no dia 7 de fevereiro de 1960.

FINIS”

ALGUNS POEMAS E HINOS ESCRITOS PELO REV. OSCAR CHAVES:

1. Saudades de Minas

(De Oscar Chaves, JMC, 1934)

O sol vermelho e triste, caindo em cheio
Sobre as matas e as campinas,
Faz-me lembrar das tardes frescas
E saudosas lá de Minas…

O sol claro e lindo, cheio de raios
Resplandecentes, faz-me lembrar
Da terra linda e encantadora
De Tiradentes…

Lá nas mangueiras, bem de manhã,
O sabiá canta u’a melodia…
Depois a rola arrulha triste,
Despedindo-se do belo dia…

E, assim, na minha terra tudo tem um canto
De alegria… Desde a alva tudo ri,
Tudo salta, tudo vive, e cantante é o viver,
Desde a luz da madrugada até a lua aparecer!

(Nota do autor: Essa poesia eu a escrevi no meu primeiro ano de estudo no Curso Universitário “José M. da Conceição”, em 1934, quando senti a nostalgia de quem está longe do lar e da igreja (no ano anterior, 1933, eu tinha feito a profissão de fé em Patrocínio, com o Dr. Eduardo Lane). [O autor tinha 21 anos ao escrever o poema, nascido que era em 11/10/1912].

2. Por que Choras?

(De Oscar Chaves, JMC, 1938)

“E Maria estava chorando fora, junto ao sepulcro.
Disse-lhe Jesus: Mulher, por que choras?”
João 20:11,15

Junto ao sepulcro, chorando,
Na manhã daquele dia,
Estava a fiel Maria
O Salvador procurando.

Chorava a serva leal,
Com coração aflitivo,
Pensando estar sepultado
Aquele que estava vivo.

Mas Jesus, que conhecia
Dos humanos a fraqueza,
No rosto leu, de Maria,
A causa de tal tristeza.

E disse-lhe: Por que choras,
Como os que vivem sem luz?
A morte já foi vencida,
Porque vivo está Jesus!

Há muitos que, qual Maria,
Numa vida sem bonança,
Não têm paz nem alegria,
E choram sem esperança!

Não têm o Cristo dos céus,
Que sara toda amargura,
Pois confiam num Cristo morto,
Debaixo da sepultura!

Por que choras, meu irmão,
Como a triste Madalena?
Já ressuscitou Jesus
E do teu sofrer tem pena.

Levanta o olhar bem p’ra cima,
Tira os teus olhos do chão!
No céu está quem te anima,
Por que choras, meu irmão?

3. Aviva-me

(Letra de Oscar Chaves)

Eu salvo estou em Cristo, meu amado Salvador,
Eu tenho garantia no sangue expiador.
Mas para gozar paz até no meio do sofrer,
Minh’alma avivamento deve ter!

Coro:

Aviva-me, Senhor! Aviva-me, Senhor!
Eu quero ter servir com mais amor!
Meu débil coração de forças vem encher,
Ó Santo Espírito Consolador!

Oh, cria em mim, meu Deus, um santo e puro coração,
Dirige os passos meus, com tua santa mão!
O mal que te entristece não me deixes praticar,
Teu sangue pode me purificar!

Alegre nos teus passos quero sempre caminhar,
Nos teus possantes braços eu posso me amparar!
Oh, serve-te de mim no teu serviço, meu Jesus,
E eu andarei, assim, na tua luz!

4. Graças pela Igreja

(Letra de Oscar Chaves)

Graças dou por esta igreja que o Senhor aqui plantou,
Pelo som do Evangelho que ela sempre proclamou!
Pelos pobres pecadores que aqui acharam luz,
Pelas almas convertidas que aceitaram a Jesus!

Graças pela mocidade, sempre alegre, a brilhar,
Graças pelas criancinhas, que aqui têm outro lar!
Graças dou pelas senhoras e pelos varões também
Que em prol do Evangelho dão de si tudo que têm!

Graças dou pelo Coral, sempre firme e vencedor,
Que através de temporais tem louvado o Salvador!
Graças por irmãos queridos que já estão além do véu,
E por outros qu’inda lutam caminhando para o céu!

Graças do pela doutrina e a firmeza que ela traz,
Pela Bíblia que ensina ser Jesus a nossa paz!
Ó Jesus, Senhor da Igreja, para ti todo o louvor,
Toda a glória tua seja pelo teu imenso amor.

5. A Luta do Bem

(Letra de Oscar Chaves)

A vida cristã é feliz,
Apesar da tristeza e da dor,
Pois no meio da luta,
Ajudando a vencer,
Conosco está o Senhor!

Coro:

Vamos todos na luta do bem
O Evangelho de Cristo pregar,
Pois só ele, Jesus, é quem tem
O remédio eficaz
Para o mundo salvar!

Há muitos que vivem sem luz
Tateando nas trevas do mal,
Com a vida infeliz,
Com triste final,
Precisam de Cristo Jesus!

O tempo já passa veloz
E Cristo não tarda a voltar,
E este mundo perdido
Precisa de nós,
Senão não se pode salvar!

6. Privilégios do Crente

(Letra de Oscar Chaves)

Nós somos crentes em Jesus
E não seguimos mais o mal!
Remidos somos, já temos luz,
E temos novo ideal!

A vida nova agora temos,
Pois o pecado fica atrás!
No evangelho de Jesus Cristo
A nossa vida encontra a paz!

Nós somos servos do Senhor,
Fomos comprados lá na cruz,
E agora, em prova do nosso amor,
Levemos outros a Jesus!

Deixemos nossa luz brilhar
Porque o mundo em trevas jaz!
Só o redimido pode mostrar
Que o Evangelho satisfaz!

Seja bendito o nosso Deus
Por esta grande salvação,
Pois no caminho que leva aos céus
Sempre nos guia a sua mão!

Ao Salvador que nos salvou
Cantemos glória, glória, glória,
Pois pelo sangue que derramou
Temos certeza da vitória!

7. Nossa SAF (Sociedade Auxiliadora Feminina)

(Letra de Oscar Chaves)

Neste mundo confuso e perdido
Densas trevas encobrem a luz!
Corações todo dia desmaiam
E sucumbem com o peso da cruz!

Coro:

As mulheres cristãs desta igreja
Se uniram num só coração
Para as trevas do mundo espancarem
Com a Bíblia Sagrada na mão!
Com a Bíblia Sagrada na mão!

De semana em semana vão elas
Visitar os mais fracos na fé,
Pelos bairros e pelas vielas
Colocando os caídos de pé!

Muitas vezes seus lares deixando
Nossa SAF tem este ideal:
Vai cantando, vai lendo e orando,
Vai vencendo com o bem todo o mal!

(Para ser cantado com a música do Hino 642 do “Salmos e Hinos)

8. Acróstico: A Mulher PRESBITERIANA

(Por Oscar Chaves)

Preparada sempre pra servir,
Resoluta, confiada no Senhor,
Ela luta e vive a sorrir,
Sem orgulho, sem jaça, sem tremor!
Brandindo a Divina Espada,
Iluminada pela luz do céu,
Tem a vida bem iluminada,
Esperando a glória além do véu!
Reprovando todo o mau caminho,
Instruindo os que vivem sem luz,
A ninguém ilude e nem engana!
Na vida sempre anda com Jesus
A formidável mulher PRESBITERIANA!

Transcrito aqui em São Paulo, 6 de Novembro de 2015