Os 70 Anos do JMC: Relato e Impressões

[Adiante, o texto completo do Quarto Boletim da Associação Alumni/Alumnae do “Instituto José Manuel da Conceição”, que publiquei em 1998, ano em que o JMC comemorou 70 anos] 

Quarto Boletim
Jornal do JMC
Órgão da Associação Alumni/Alumnae do “Instituto José Manuel da Conceição”Ano III (1998), Número 4

Manuelinos comemoram o 70º aniversário do Conceição

Reunidos na Catedral Evangélica, da Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo, a partir das 15 horas do dia 7 de fevereiro próximo, os ex-manuelinos estarão comemorando, com um culto, o 70º aniversário da fundação do Instituto José Manoel da Conceição. A Associação Alumni/ae do JMC coordena o encontro.

No texto:

Vamos erguer o Memorial do Instituto JMC? Você é quem decide!

“Faça da vida um sonho, e do sonho uma realidade” dizia Mme. Curie. Sem utopia, a vida não tem sentido.

O Instituto José Manuel da Conceição (o JMC) que funcionou em Jandira, desde 1928, foi inexplicável fechado em 1970.

Aquela excelente escola não existe mais, em Jandira.

Hoje (8/fevereiro/98) estaria completando 70 anos de existência. Mais de 2.700 alunos passaram por aquela Instituição. Hoje, estão espalhados pelo Brasil inteiro, na América Latina e no resto do mundo. Muitos são pastores, ministros das Igrejas. Outros educadores, lecionando nas diferentes universidades do Brasil.

Mas bem disse o prof. Eduardo Chaves, da UNICAMP: nós, os “manuelinos”, nos recusamos a permitir que seja feito um obtuário do Instituto José Manuel da Conceição. “Na nobre tradição Protestante”, e na palavra viva (viva vox) que traduz nossas memórias, declaramos vivo o “JMC”.

Hoje, o JMC está vivo, em cada um de nós, espalhados pelo Brasil inteiro.

E este Encontro Nacional dos “manuelinos” é uma prova concreta de que o JMC ressuscitou e ainda vive. Como temos insistido nos Boletins da Associação, o JMC é você, onde quer que esteja.

Mas falta apenas uma coisa para que o JMC continue vivo em cada um de nós… é preciso que formemos uma rede (net) de manuelinos. A Associação Alumni/ae do Instituto JMC quer ser esta rede de conexões, entre os manuelinos espalhados pelo Brasil e pelo mundo…

E para estarmos atualizados e globalizados já estamos navegando no WWW World Wide Web (grande onda mundial). Para que a rede de manuelinos se fortaleça, sugerimos, que em cada Estado se forme um núcleo. Infelizmente, o Brasil é muito grande e é quase impossível reunirmo-nos sempre num só lugar.

A Associação tem muitos sonhos e muitas utopias.

Queremos erguer o Memorial do Instituto JMC, em Jandira para deixar ali um marco de sua existência. Gostaríamos de solicitar ao Fundo Educacional Presbiteriano que nos ceda uma área para construção desse Memorial, e também uma verba (que ainda resta da indenização). Poderíamos construir uma Capela e uma Biblioteca que no futuro pudessem se constituir num Centro de Estudos Bíblicos e Teológicos.

A Associação também já enviou cartas ao Prefeito de Jandira e à Câmara Municipal solicitando a Cessão em Comodato do prédio onde funcionavam a biblioteca e os cultos (três salas). Ali temos o projeto de instalar a “Casa da Memória do Instituto José Manuel da Conceição”.

Então… que mais nos falta? Só falta você na associação Alumni/ae para formar a rede de manuelinos, pelo Brasil e pelo mundo.

Ex-Padre e Pastor José Manuel da Conceição 

“O Padre José”, extraído do livro entrevista com Ashbel Green Simonton, Editora Ultimato, págs. 43-46)

José Manoel da Conceição nasceu em São Paulo, seis meses antes da Independência do Brasil, em março de 1822. Mudou-se para Sorocaba em 1824 e foi educado pelo tio, o padre José Francisco de Mendonça. Começou a ler a Bíblia aos 18 anos. Pouco depois, travou amizade com uma família inglesa e várias famílias alemãs, todas protestantes, e ficou impressionado com a vida religiosa deles.

Naturalmente devoto, abraçou a carreira sacerdotal, tendo sido ordenado padre aos 22 anos. Exerceu o sacerdócio de 1844 a 1864, sempre na Província de São Paulo: Monte Mor, Piracicaba, Santa Bárbara, Taubaté, Sorocaba, Limeira, Ubatuba e Brotas. Os paroquianos gostavam muito dele. Por seu apego à Bíblia e por sua simpatia aos protestantes, ganhou o curioso apelido de “O Padre Protestante”.

Atraído pela simplicidade do evangelho e pela Reforma Religiosa do Século XVI, Conceição deixou o sacerdócio católico em setembro de 1864, dois meses antes de o papa Pio IX publicar a encíclica Quanta Cura, que continha o famoso Silabo de Erros – uma lista de 80 erros modernos que deveriam ser repudiados pelas autoridades católicas, entre eles a total liberdade de culto e de imprensa. Tornou-se membro da igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro, organizada dois anos antes pelo primeiro missionário presbiteriano a vir para o Brasil.

Antes de ser ordenado pastor evangélico em dezembro de 1865, há 130 anos, Conceição dedicou-se à evangelização de seus amigos paroquianos em Brotas, interior de São Paulo. Graças ao seu testemunho e a sua pregação, os missionários pioneiros organizaram em Brotas a terceira Igreja Presbiteriana brasileira.

A conversão de Conceição mudou por completo o quadro e o avanço da obra missionária protestante no Brasil. A dedicação dele a Jesus Cristo era muito grande, e o seu ministério itinerante era muito bem sucedido. Ele ardia de paixão pelas almas perdidas e pelos excluídos. Conceição tinha um temperamento muito especial. Não era capaz de ficar parado atrás de uma mesa, de gastar tempo com a organização eclesiástica, nem de assumir um pastorado fixo. Não se sentia atraído pelos grandes centros urbanos nem por pessoas bem vestidas. Era um incorrigível pregador de vila em vila. Hospedava-se em qualquer lugar e não se aproveitava de ninguém. Pregava, curava e desaparecia sem mais nem menos. Às vezes, deixava um bilhetinho, agradecendo a hospedagem ou dizendo que tinha ido embora. Nunca dizia para onde, porque ele mesmo não tinha um itinerário antecipadamente traçado. Viajava, a pé, distâncias enormes, às vezes de uma província para outra. Comia pouco e se contentava com qualquer comida. Sofria pressões do clero católico. Não poucas vezes era expulso de uma vila, ameaçado de morte, chamado de apóstata, anticristo e até de pastor louco.

Conceição era de uma simplicidade incrível, não obstante fosse muito preparado: sabia comunicar-se com os estrangeiros em suas próprias línguas, traduzia livros do inglês, do francês e do alemão, e tinha noções de medicina. Chegava a se vestir mal, roupa surrada demais. A herança que recebeu da família foi toda distribuída com obras de beneficência. Preocupava-se demais com os outros e muito pouco consigo mesmo. Embora desimpedido do voto do celibato por ter se desligado de Roma, o Padre José, como era chamado, nunca se casou, e sua pureza de vida sempre estava fora do alcance de qualquer maledicência. Não era servil aos missionários americanos, não obstante ser o único obreiro nacional no meio deles. Por causa de sua experiência na Igreja Católica, morria de medo de uma igreja excessivamente organizada. Realizava um ministério diferente dos missionários, e o seu trabalho era o que crescia mais. Conceição sonhava com um movimento profundo de reforma nos sentimentos e experiência religiosa do povo, aliado ao esclarecimento bíblico, que tornasse possível a criação de um cristianismo brasileiro puro e evangélico, mas enraizado nas tradições e hábitos populares.

Conceição gastou vinte anos como sacerdote católico (dos 22 aos 42 anos) e oito anos como pastor protestante (dos 43 aos 51 anos). Morreu no dia em que mais uma vez se comemorava no Império do Brasil e do mundo inteiro a encarnação do Verbo, a 25 de dezembro de 1873. Morreu dormindo, na Enfermaria Militar do Campinho, no Rio de Janeiro, depois de ser atendido por um médico e um farmacêutico e depois de pedir para ficar a sós com Deus. Mas seu corpo está sepultado ao lado do fundador da Igreja Presbiteriana no Brasil, o missionário Ashbel Green Simonton, no Cemitério dos Protestantes, anexo ao Cemitério da Consolação, nas proximidades do Hospital das Clínicas, em São Paulo. Na lápide de Conceição está gravado: “Não me envergonho do Evangelho de Cristo”.

Hino do Instituto José Manuel da Conceição

Os efeitos da luz nos surpreendem
Nestes campos banhados de sol.
Relvas, flores, campinas resplendem
Como as tintas de um claro arrebol.

Estribilho:

Luz é vida, esplendor, harmonia,
Saturemos nossa alma de luz.
Que seus dons seu encanto magia,
No Brasil se derrame a flux.

E a ciência qual sol ressurgindo
Luz, espelha e beleza em redor:
Esplendendo, saneando, fulgindo
Torna a vida mais bela e melhor.

Mas de vida mais alta ciência
Do evangelho se ostenta imortal.
De perene divina influência
Saneadora do mundo moral.

Sob o signo ouro azul do Cruzeiro
De fé viva um clarão irrompeu:
“Conceição” da verdade luzeiro,
Que em Jandira o amor acendeu.

(Joaquim S. Costa, 1967)

William Alfred Waddell: Uma Vida a Serviço de Um Povo

Quando no início de minha carreira de jornalista me foi sugerido escrever a biografia de William Waddell, encarei a tarefa simplesmente como mais um trabalho. À medida em que as pesquisas foram se desenvolvendo, contudo, passei a considerar a oportunidade um grande privilégio. Waddell era uma figura notável, digna de ser biografada pelos maiores escritores. Hoje, estou convencido de que essa missão constituiu uma grande benção. Sobretudo, porque afeiçoei-me ao gênero e acabei escrevendo inúmeras reportagens e vários livros na mesma linha. Efetivamente, conhecer Waddell, mesmo após a sua morte, foi um presente de Deus.

Pudesse a natureza pressentir os grandes eventos, e por certo as flores de setembro, no dia 8, no ano de 1890 teriam irradiado uma alegria mais viva, teriam anunciado com expressão mais ardente e mais vibrante aos cidadãos paulistanos que o desenvolvimento já então impresso a seu tão promissor e querido Brasil estava para tomar um novo impulso. É que a esta data lançava-se em seus férteis campos espirituais uma semente nova que se haveria de desabrochar em tronco dos mais vigorosos.

Eram os germens do saber que prepara um povo para trilhar as rotas do progresso, e do cristianismo que alia ao saber o sentimento altruísta e ressalta no homens as suas características divinas, lançados em solo brasileiro, latentes e ocultos, na figura vigorosa de um daqueles nossos bravos irmãos da outra América que se entregavam à evangelização do Brasil. Era William Alfred Waddell que aportava nas praias onde Anchieta e Nóbrega já se haviam esvaído na mesma missão e no mesmo intuito.

Homens de raros talentos, chegava ao Brasil depois de haver graduado, com distinção, em engenharia e teologia na sua terra natal.

Nos EUA

Nascera a 5 de Fevereiro de 1862, na cidadezinha de Bethel, em Nova York, EUA. Em 1882 colara grau no Union College, na cidade de Schenectady, em N.Y., onde, desde o início de seus estudos havia conseguido conquistar os primeiros prêmios de aproveitamento. Sentindo-se chamado para o sagrado ministério, ingressou no seminário de Princeton em 1884, conseguindo abreviar para 2 anos o curso que normalmente deveria ser feito em 3, foi licenciado para o presbitério de Albany em abril de 1886.

Sua profissão de fé, ele a fizera perante o Rev. T. Darling e os irmãos da igreja Presbiteriana de Schenectady, no outono de 1881. Mais tarde, ele mesmo

Pastor licenciado, seu primeiro campo foi a Igreja Presbiteriana de São Pedro, na Califórnia, de que assumiu a presidência do Conselho em “caráter de experiência”, no ano de sua licenciatura. No dia 10 de abril de 1887, o Presbitério em Los Angeles consagrou-o definitivamente a Deus, ordenando-o na cidade de San Diego. Durante os anos de 1887 e meados de 1890, consagrou-se à Igreja de São Pedro. No fim desse ministério, seus olhos se voltaram para as ricas searas do Brasil, onde Simonton,Blackford, Chamberlain e tantos outros “valentes de David” – como insiste Júlio Andrade Ferreira em chamá-los, semeavam a mancheias.

A 19 de setembro, ingressava na missão Brasil Central, em São Paulo. A partir de então, se entregaria a um profícuo ministério – que também foi magistério, como veremos a seguir.

No Brasil 

Inteligência rara, conhecimentos profundos e com uma didática quase perfeita, Waddell foi encaminhado para o então embrionário Mackenzie College.

Por volta de 1890, o Dr. Horácio Lane recentemente eleito diretor da Escola americana,sente-se na obrigação de introduzir os métodos de ensino superior americanos no Brasil, de vez que “as escolas do governo não podem fazer essas experiências com êxito”. ‘’O plano foi experimentado: iniciou-se a preparação de cursos preparatórios, cursos superiores literários, de ciência pura e de ciência aplicada ( que foi mais tarde denominado Curso de Engenharia)”.

Há cerca de 2 anos, uma comissão de educadores norte americanos havia visitado São Paulo e recomendado o “estabelecimento de cursos universitários, suplementares a Escola Americana”, razão por que foi constituída uma Junta de Síndicos que tratou de pôr em pratica a sugestão. O então Conselheiro Rui Barbosa foi consultado e informou não haver “de conformidade com as leis brasileiras, maneira pela qual a associação pudesse ser incorporada, para regularizar o título de propriedades, e recomendou a organização da corporação nos Estado Unidos, com administração de seus bens no Brasil, por meio de um procurador”.

Assim foi que no dia 9 de fevereiro de 1893, a Universidade de Nova York incorporou, em caráter de experiência, o curso superior da Escola Americana, efetivando, porém, a incorporação no dia 21 de Novembro de 1895

Começava dessa forma desabrochar a poderosa instituição educandária “que se ergue nos altos da Higienópolis”.

É em meio a esta fase de estruturação que aparece William Alfred Waddell. Seus conhecimentos de engenharia e sua estupenda noção de didática levaram-no a se transformar em um dos esteios da nova universidade. Participou da comissão que coordenou os cursos de engenharia, e foi um dos seus primeiros professores. Sobre sua capacidade, disse o Dr. Horácio Lane de certa feita, quando argüido de propósito: “É bastante inteligente, e capaz de dirigir todo o trabalho do Mackenzie, trabalhando só à noite, depois do jantar”.

Em Dezembro de 1891, um cidadão norte-americano, de nome J.T. Mackenzie, doou à escola a importância de 50 mil dólares, destinados à construção de um prédio próprio a seu funcionamento. A obra foi confiada a Waddell. Idealizada a planta e iniciada a construção, foi lançada a pedra angular no dia 12 de Fevereiro de 1894.

A partir de então, a obra educacional assumiu tais proporções, que o próprio Waddell chegou a escrever: ‘’’Ela é uma honra para o nome americano; e de qualquer ponto de vista que se consideram seus padrões, terá poucas rivais em qualquer parte. Dr. Lane tem introduzido a Bíblia na escola, em todo departamento; ela é uma parte ativa e valorosa da propaganda. O Colégio será de valor como desdobramento da presente situação. Todos os homens no campo estarão mais ansiosos pelo crescimento do trabalho, além de escolas paroquiais.”

Em fins de 1893, no dia 2 de Novembro, sua esposa, foi levada para outra morada. Alma meiga, possuidora de relativa cultura, Mary Lenington Waddell, que herdara dos velhos pais um profundo sentimento cristão, foi sem dúvida um dos maiores estímulos para seu marido, apesar da pouca duração do matrimônio.

 Missionário 

Não obstante sua atuação anterior como professor, William Waddell viera ao Brasil atraído pelas missões. Seu sonho era evangelizar e, se bem que no magistério prestasse grande auxilio à obra dos missionários, a voz dos campos não deixou de soar em seu coração. Soou brandamente, a princípio:

Falou alto e clamou, mais tarde.

Em fins de 1896, empreendeu viagem à Bahia. As searas brancas prontas para a ceifa, que seus olhos ali puderam contemplar, fascinaram-no e lhe lançaram brados de desafio.

Naquele estado, Pinkerton, Finley e Kolb já haviam, em época ainda recente, realizado uma penetração relativamente profunda, deixando, como marcos de sua passagem, vários convertidos e, mesmo, diversos pontos de pregação. Por ocasião sua viagem, trabalhava os campos e Rev. Chamberlain, designado pelo Presbitério do Rio de Janeiro. Uma idéia da fecundidade do solo, o próprio Chamberlain a dá, nos relatórios que preparou para os sínodos de 1894 e 1897:

“Era meu propósito visitar este campo (refere-se, aqui, ao Presbitério de São Paulo, onde havia visitado recentemente algumas igrejas), como há poucos, logo que passasse o tempo chuvoso. Porém, a morte do Rev. Pinkerton na cidade de Salvador, Bahia, em Fevereiro de 1892 e a retirada do Rev. Finley para o campo de Sergipe vieram transtornar meu plano e tornar necessário que eu acudisse às necessidades da Bahia e da Cachoeira, no Estado da Bahia. Aceitando pôr meses esta incumbência, e sendo pelo Presbitério do Rio de Janeiro, para o qual o transferi minhas relações presbiterianas, incumbido do trabalho pastoral das mesmas igrejas, segui em Junho de 1892 para a Bahia. Não me limitei a ministrar estas igrejas, mas atendendo à incumbência do Sínodo, procurei cumprir o ministério de evangelista em regiões além. Para esse fim ausentei-me vários meses em longas viagens pelo interior da Bahia, deixando os presbíteros incumbidos dos cultos na cidade da Bahia (Salvador), e um grupo de moços, crentes fervorosos, dos da igreja de Cachoeira. Estas viagens revelaram um estado de ânimo tão interessante dos habitantes do interior que, quando me achei aliviado do encargo da pastoral nas ditas igrejas pela volta do Rev. J.B Kolb dos Estados Unidos da América, entreguei-me à obra de evangelização nas regiões do interior da Bahia, visitando as praças importantes acessíveis por estradas de ferro, estendendo, até onde me permitiram as forças, essas viagens de além.

“Em nenhuma cidade que visitei foi-me negado pela intendência o uso da sala do Juri, fato bem significante, da oportunidade que deve ser abraçada ardentemente por nós de subministrar a palavra enquanto é dia. A noite vem.

Esse primeiro contato missionário iria levar Waddell a abandonar temporariamente o Mackenzie.

Durante a visita, conheceu Laura Chamberlain, filha do velho missionário, que desde 1894, trabalhava na “City School”, em Salvador. Desposou-a no dia 12 de Janeiro de 1897, em Feira de Santana, trazendo-a para uma breve estada no Mackenzie College.

Em 1899, Waddell solicitou sua transferência para o campo da “Igreja da Bahia” (Salvador), passando a residir, então, na capital baiana.

Passou, assim, a arar aqueles campos em companhia do irmão e da. Laura, Rev. Pierce Chamberlain e de Diocleto Simões Ferreira, que fora, por alguma razão, excluído da Igreja e que Waddell achara por bem restaurar a comunhão. Daí por diante, as viagens de itinerância ao interior se intensificaram.

Nessa época, os missionários visitaram a cidadezinha de São Felix, onde realizaram profícuo trabalho de evangelização. Em 1900, William Waddell deu inicio ao templo da Igreja de Salvador. Os 4 próximos anos, ele os dedicou ao seu pastorado e a viagens de itinerância.

Em 1905, passou a residir em Cachoeira, onde d.Laura se consagrou ao magistério na “Girl’s School”

Em um dos percursos de evangelização, sentiu-se “imensamente atraído pelo campo de Palmeiras”. Era uma vila pequenina, mas situava-se em local extremamente estratégico: no centro geográfico de uma região próspera, que poderia ser transformado mais tarde em centro intelectual e espiritual. Tentou adquirir ali uma gleba para a fundação de uma nova escola. A intolerância religiosa, no entanto, levou os proprietários da região, a fecharem totalmente as portas para o se trabalho. Isto não o desanimou, porém. Voltou imediatamente os olhos ao vilarejo próximo de Ponte Nova. Ali em um recanto aprazível

Às margens do rio Utinga, adquiriu o sítio com que sonhara e de início à “escolinha ” que iria transformar mais tarde no Colégio Ponte Nova. A fundação se deu no ano de 1906. Era outra obra fadada a se imortalizar no evangelismo pátrio.

Radicado em Ponte Nova, onde permaneceria até 1914, Waddell passou a se de dividir novamente entre o ministério e o magistério. Fazia ambos os trabalhos. Continuou a visitar as igrejas próximas. Cachoeira, Palmares, Cabeças, Lavras, e inúmeras outras cidades passaram a constituir o seu campo. Foram anos de trabalho intensivo.

Por volta de 1913, idealizou uma expedição missionária ao centro do país. Homem de grande visão,

Waddell já sentia a necessidade de penetrar o interior brasileiro. Sabia o valor que representaria para a evangelização nacional o fato de, quando o progresso da nação principiasse a se interiorizar, já existirem Igrejas formadas nas regiões que seriam atingidas por tal progresso. Então, os conquistadores da terra haveriam de deparar-se com a mentalidade cristã, e, vencendo o meio, seriam vencidos pelo Espírito. A expedição partiu de Salvador. Chefiou-a o recém chegado Rev. Franklin Graham, que cumpriu extensa jornada, fincando, nos estados de Goías, de Mato Grosso, e mesmo, em regiões mais afastadas da Bahia, os marcos do cristianismo. Assim foi que quando o dinamismo de um presidente novo principiou a levar a civilização ao interior do Brasil, provocando um verdadeiro formigar de gentes e de recursos nos sertões goianos, lá estavam, altaneiras e de braços estendidos, a imitar as seculares palavras do mestre quando clamava: “Vinde a mim vós que estais cansados e oprimidos e eu vos aliviarei…”,as igrejas de Planaltina, Rio Verde, e tentas outras resultantes das idéias e planificações do cérebro de Waddell.

A Igreja de Cuiabá se teria originado dessa excursão.

Falando sobre a larga visão de que era dotado Waddell, o Rev. Philip Landes diz:

“Foi ele quem deu o brado de RUMO AO OESTE. Previu que o progresso atingiria bem cedo todas as fronteiras do Brasil, e procurou abrir os olhos da missão a este aspecto. Tal propósito levou-me, a mim e a minha esposa, a trabalhar naqueles campos. Waddell era capaz de ver o futuro. Se tivesse de lhe colocar uma alcunha, chama-lo-ia o missionário estadista”.

Durante as lidas missionárias, pode sentir sempre a presença de benévola de sua Segunda esposa, d. Laura. Mestra dedicada cristã de alma meiga, aprendeu ela bem cedo a sentir como sentiam os sertanejos e a viver como viviam. Essas qualidades, aliadas a “um desejo sem par, que a perseguira desde os tempos de escola, de ver o Brasil agigantar-se em um progresso fundamentalmente cristão”, levaram-na a se tornar obreira eficiente e estímulo para o esposo missionário. Por ocasião do pastorado de Cachoeira, já lecionara na “Girl’s School”. Depois, lecionou no colégio Ponte Nova, cooperando de maneira decisiva na evangelização do lugar. Sua habilidade no trato com o homem do campo foi uma das causas do sucesso da obra.

Colégio 

A escola de Ponte Nova foi fundada em face da ausência de um número suficiente de obreiros para a região. O plano de Waddell era preparar professores que, por sua vez, seriam usados na preparação de outros, desencadeando assim uma verdadeira onda de cultura e cristianismo naquelas terras sertanejas.

Iniciada a escola, adotou-se para os alunos o sistema de “self-help”, então em voga na América do Norte. Os estudantes pagavam apenas uma taxa anual de 50 mil réis, devendo as despesas excedentes disto serem cobertas por seu próprio trabalho.

No princípio, havia poucas e toscas construções, que se prestavam, ao mesmo tempo, para internato, salas de aulas, e residências de professores. A obra, no entanto, prosperou. Hoje, a escola conta com edifícios amplos e próprios para o funcionamento. Em 1927, I. Graham construi o “Pavilhão Waddell”.

Oito anos mais tarde ergueu-se o maior prédio escolar daquelas regiões: ” O Pavilhão Bixler”.

A nota, porém, que mais se distingue no colégio hoje, é o “Grace Memorial Hospital”, que ali se ergue um como refúgio para o sertanejo sofredor. Wood idealizou-o em 1916, e tornou realidade em bem poucos anos, com o concurso de Reese e outros incansáveis obreiros.

Sua escola normal foi oficializada em 1936 e, em 39, colou grau a sua primeira turma com diploma reconhecido pelo governo. Os progressos sucederam-se, uns após outros, ano após ano,

As grandes personalidades, que se formaram as margens de Utinga, espalham-se hoje por este Brasil a fora. São muitas. Difícil enumerá-las. Algumas porém, podem se citar. São apenas algumas das que compõem os grandes bandos de verdadeiras águias humanas que ali, nesse ninho humilde e singelo, foram geradas e criadas: Paulo Freire galgou os céus da política nacional; é hoje deputado federal pelo Estado de Minas Gerais. Alexandrina Passos e Eulália Alcântara são mestras dedicadas e valorosas obreiras. Adauto e Othon Dourado são figuras das mais representativas no cenário presbiteriano do Brasil. Élson Castro é hoje o diretor da escola. E que dizer de outros…

São Paulo Outra Vez 

No início de 1914,Waddell voltou a São Paulo. A 5 de Março, foi eleito presidente do Mackenzie College. O colégio, no entanto, principiava a se tornar impraticável a um de seus sonhos: a preparação especial do candidato ao Ministério. Uma nova escola começou a se gerar em sua mente fértil. A ocasião, porém não era propícia : antes de mais nada, precisava atender as necessidades do Mackenzie. Limitou-se a planejá-la, e preparar caminho para a sua fundação.

No ano seguinte, organizou-se a federação das Escolas Evangélicas, de que passaram a fazer parte, todos “os institutos e colégios da Igreja”. Em 1927, deixou a presidência do Mackenzie e, a 1 de Julho do mesmo ano, foi eleito seu Presidente Emérito.

Doravante nada haveria, assim, que o impedisse de dar início à nova escola.

JMC

Havia poucos anos que um sítio fora adquirido pelo Mackenzie College, no Km 32 da Estrada de Ferro Sorocabana. Eram mais de 40 alqueires situados em um vale suave, entre pequeninas montanhas da Cordilheira do Mar. Embaixo, bem na confluência dos morros, estendia-se quilômetros sem fim, o leito da Sorocabana. De uma de suas bandas, corria, em sentido contrário e com uma languidez mórbida, o riacho Jordão. Da outra um declive brusco e, pouco adiante, um brejo pequeno.

Foi ali que se dedicou a instalar o outro “ninho de águias”, construído habilmente, palha por palha, pelo estadista de Landres. Três casas rudes foram o ponto de partida. Outras, também rudes e humildes, seguí-las-iam com o correr dos anos.

Após os primeiros preparativos, foram iniciadas as aulas. Assim, “no dia 8 de Fevereiro de 1928, reuniram-se no salão nobre do acampamento do Mackenzie College, sito Km 32 da E.F.S., o Rev. Dr. William A. Waddell, Rev. e sra. C. R. Harper, Rev. Lenington, e os srs. Terêncio Vitorino, Eduardo Pereira de Magalhães e Tuffy Elias, para a abertura das aulas do curso universitário José Manuel da Conceição”. Estes 3 últimos eram os primeiros alunos, os demais, os primeiros mestres.

Um breve histórico da vida do Rev. José Manuel da Conceição e da fundação da Escola Americana, e uma oração, proferidas por Waddell, momentos após o cântico do hino 26 dos Salmos e Hinos, selaram a breve cerimônia de fundação, e consagraram definitivamente a obra de Deus.

Nos anos que se seguiram, chegaram novas levas de alunos. João Euclydes Pereira e Francisco Alves foram das primeiras turmas. Vinham da província mineira, que mandaria mais tarde outros de seus nobres filhos. Hoje, um é o vice-presidente do Supremo concílio da Igreja Presbiteriana Independente; o outro é eminente teólogo e professor do seminário de Campinas. Da Bahia, dentre outros, vieram Adauto Dourado e José Dias, Eudes Férrer veio do Mato Grosso. Goiás, Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul também mandaram estudantes ilustres. Quase todos os estados da Federação fizeram-se representar. São Paulo, por excelência. Daqui, foram mandados Aretino Matos, Daily França, Renato Teles, Fernando Buonaduce. Hoje, são todos professores e ministros dedicados; são esteios do evangelismo pátrio.

Atualmente, o JMC consta com cerca de duas centenas de alunos. Seu diretor é Olson Pemberton,Jr, que, por muitos anos foi missionário no sul do país. Seus professores, na maioria ex-alunos são: Renato e Maria Elza Teles, Fernando Buonaduce, Jean Pemberton, João Euclydes Pereira, João e Queila Faustini, Joaquim e Yolanda Machado Josué e Samuel Xavier, Maria Block Cruz e Floyd Gilbert.

100 Anos Depois 

Esta é, em resumo a história de William A. Waddell. Foi homem de coragem, cristão fervoroso e intelectual profundo: foi um dos “valentes de David”. Sua obra, viveu-a a serviço de um povo que não era o seu, em uma pátria que não era também a sua.

Hoje, passado já um século desde o seu nascimento em Bethel, nós alunos e professores desta casa de ensino,frutos de seu trabalho e do seu amor, erguemos a nossa fronte para os céus, prestamos-lhe homenagem devida aos heróis verdadeiros, agradecendo a Deus a sua vinda e rogamos outros…

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Transcrito aqui em Salto, 7 de Março de 2010

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