O JMC nos deu Educação

[O texto abaixo eu escrevi em Setembro de 1997 para colocar no site oficial dos ex-alunos do Instituto JMC. Ele tinha um título diferente então: “Vignettes do JMC”. Era parte de um conjunto de “vinhetas” sobre o JMC. Transcrevo-o aqui por considera-lo ainda relevante. Existe um outro artigo, o que abre este blog, escrito em 2009, doze anos depois deste, que tem, em parte o mesmo título: “O JMC nos deu Educação — no sentido mais pleno do termo”, que é, ao mesmo tempo, mais fático e mais teórico ao mesmo tempo. Não confundir os dois.]

Meu pai, Oscar Chaves, já havia estudado no Conceição, na década de trinta. Eu lá cheguei cerca de 25 anos depois, em Fevereiro de 1961, para iniciar o Curso Clássico. Tinha 17 anos. Formei-me em Novembro de 1963, numa cerimônia da qual fui orador da turma e que teve o então deputado Camilo Ashcar como paraninfo.

A experiência no Conceição me marcou. Ali o adolescente, recém menino (cheirando a fraldas, como dizia meu pai), virou gente grande: cresceu intelectualmente, começou a tomar conta de sua vida, aprendeu a assumir responsabilidade pelos seus atos, apaixonou-se mais de uma vez. Escola de vida.

Michael Hammer, o guru da reengenharia, disse, em seu último livro, que educação é aquilo que resta depois que a gente esqueceu o que nos foi ensinado. No caso do Conceição, restou muito.

Nos estudos, o principal remanescente foi o gosto pelo saber, o entusiasmo pela descoberta, o desejo constante de aprender. No meu caso particular, há várias instâncias disso.

Em primeiro lugar, menciono o amor pelo língua e pela cultura francesa, que me foi despertado pela Dona Elza Fiúza Telles. Ah, como era bom ter aula de Francês com ela, escutar sua pronúncia linda, virtualmente sem sotaque, ouvi-la falar sobre literatura francesa. O livro texto era Langue et Civilisation Française, de G. Mauger, até há bem pouco tempo usado nas Alianças Francesas, mas a gente não se limitava ao livro texto: lia os originais. Em suas aulas li Racine, Corneille, Molière, Chateaubriand, de Musset, de Vigny, Hugo, Stendahl, decorei Le Lac, de Lamartine, o Salmo 23 – “L’Étérnel est mon berger, je n’aurai point de disette”. E não ficávamos só nos clássicos: li, por exemplo, Alexis Zorba (Zorba o Grego), de Nikos Kazantzakis, em francês, no terceiro ano clássico, num sistema de leituras independentes em que Dona Elza deixava que cada aluno progredisse em seu próprio ritmo. O gosto pela língua e civilização francesa continuam até hoje: sou membro do Conselho Diretor e um dos sócios cotistas da Aliança Francesa de Campinas (que é uma instituição educacional e cultural sem fins lucrativos).

Em segundo lugar, é preciso registrar o amor pela língua inglesa, que foi despertado e nutrido pela Dona Jean Pemberton. Tanto nas aulas, como, especialmente, no famoso English Club, Dona Jean também nos ajudava a dominar e a amar o Inglês, a aprender famosas canções como “Oh! Give me a home, where the buffalo roams, where the deer and the antylope play, where seldom is heard a discouraging word, and the sky is not cloudy all day”, a decorar “tongue twisters” como “Peter Piper picked a pack of pickled peppers”, e a repeti-los com rapidez, a cantar Christmas Carols, etc.

Mas o Português não pode ser esquecido. O Reverendo Joaquim Machado fazia com que achássemos extremamente interessante e útil aprender as regras mais complicadas da colocação de pronomes, da crase, das funções da partícula “se”, etc., e nos dava redações para casa sobre temas como “O pobre muda de dono mas não muda de sorte”… Na aulas de literatura, com o Reverendo Renato Fiuza Telles, tive que fazer trabalhos sobre o Teatro de Gil Vicente, as cartas de amor da Sóror Mariana Alcoforado, Senhora, A Moreninha, Helena, e o sempre clássico Dom Casmurro. “Capitu: Culpada ou Inocente” – talvez culpada, quem sabe inocente? – foi o tema de um de meus trabalhos de literatura brasileira.

E o Latim com o Reverendo Fernando Buonaduce? “Quo usque tandem abutere, Catilina, patientia nostra? Quam diu etiam furor iste tuus nos eludet?” (Cicero, In Catilinam Oratio I). E Grego, de novo com a Dona Jean? Psicologia, Lógica e História com o Reverendo João Euclydes Pereira? Matemática com o Reverendo Aureliano Lino Pires? Até um pouco de Física tivemos, com o Samuel Xavier (irmão do Josué, marido da Isva Ruth, a eficiente Secretária da escola).

Onde é que um aluno de segundo grau hoje aprende tudo isso?

Em termos de enriquecimento cultural, não se pode esquecer a música. A pessoa de João Wilson Faustini, o Coral regular do Conceição, o Coral especial para o Billy Graham, o coral do Recital no Municipal, o Coral da Quinta Igreja Presbiteriana Independente, em Osasco, regido pelo meu amigo e companheiro de quarto no segundo ano, Jonas Christensen, o Coral Johann Sebastian Bach, em São Paulo, do qual participei, levado também pelo Jonas, os Concertos Matinais Mercedes Benz em São Paulo nos domingos de manhã, Concertos no Municipal em algumas sextas-feiras, dos quais me recordo especialmente de um em que, pela primeira vez, ouvi a Nona Sinfonia de Beethoven, na companhia do Faustini (e em meio às lágrimas inctroláveis dele), e tanto mais. A sensibilidade do Faustini era tanta que seus olhos se enchiam de lágrimas ao reger um ensaio em que o coral conseguisse interpretar as músicas como ele desejava. Ao reger Fugi Tristeza e Horror, no Domingo de Páscoa, seus olhos brilhavam de modo a dar a impressão de que ele havia acabado de ver o Jesus ressuscitado.

Num plano mais popular, as serenatas apaixonadas, realizadas à socapa perto da Casa das Moças, em que eu e o Evandro Luís da Silva sapecávamos lancinante duetos de Vaya com Diós, El Dia que me Quieras, Teus lindos olhos, etc. (Um dia tivemos que sair correndo porque o “Seu” Benedito acendeu a luz de sua casa e apareceu na porta com o que parecia ser uma espingarda… O Paulão Cosiuc, segundo consta, mergulhou de cabeça aquela noite nas águas então apenas barrentas do Jordão).

E os esportes? Futebol de campo e de salão, basquete, vôlei. Times valentes, aqueles. No futebol de campo e de salão, o Dorival Xavier era o astro – ninguém lhe chegava perto, era “hors concours”. No futebol de campo, entretanto, o Paulo Cosiuc conseguia fazer incríveis gols de bicicleta, que me deixavam admirado (quando não um pouco invejoso). No basquete e no vôlei o Ambrósio Jorge Neto, o Deoclécio (ele às vezes escrevia Deocléssio) Silveira Amaral e o Robert (“Bob”) Nicholas Lodwick brilhavam. (O pai do Bob, Reverendo Robert E. Lodwick, fiquei sabendo pela última Newsletter, já havia brilhado nessa arena anos antes). Jogos violentos de futebol de campo contra o time da Vila (cidade de Jandira), disputas acirradas contra o Seminário de Campinas, no futebol de salão, lindas partidas de basquete e de vôlei contra a Escola Graduada (Graded School) de São Paulo. Tirando o basquete, que nunca joguei, fui figurante nos outros três esportes. Jogava de beque no futebol de salão, com meu caro amigo Hélio de Castro e Souza, hoje Delegado de Ensino em Taubaté.

Eu me estenderia muito se começasse a falar sobre os colegas de classe e os outros. Presto homenagem apenas a três dos colegas de classe que já morreram: Ambrósio Jorge Neto, Jonas Christensen, e Maria Helena Pires. (Os dois primeiros eram colegas de classe mas não concluíram o curso no JMC em 1963). [Restante da Turma].

Estender-me-ia ainda mais se falasse dos amores. Quem passou algum tempo no Conceição e não ficou pelo menos uma vez apaixonado, “foi espectro de homem, não foi homem, só passou pela vida, não viveu”. O poema de Francisco Otaviano dos Reis fala do sofrimento, não do amor, mas no Conceição amor e sofrimento eram sinônimos, porque era proibido namorar, embora a norma fosse aplicada com certa leniência. Era proibido, sim, andar de mãos dadas, abraçar-se, trocar beijos. Mas era tolerado esperar juntos na fila diante do refeitório, sentar-se juntos durante as refeições, trocar breves palavras no intervalo das aulas. E era permitido olhar. Ah, como fala um olhar! As moças só vinham para o lado dos rapazes para as aulas, as refeições e os cultos. Fora disso, ficavam na distante Casa das Moças, do outro lado do Jordão. “O Jordão eu não passarei só” era um hino sobre o qual muita brincadeira se fazia. Mais de uma vez fiquei do lado de cá do vale olhando para uma figura que, com minha miopia (que me valeu o apelido de “Cegão”), só a fé me garantia ser quem eu queria no alpendre da Casa das Moças. Como bem sabem o Elizeu Cremm e a Marli (hoje também) Cremm, namoro à distância representava sofrimento, mas ajudava a aumentar a “botina”, porque o amor se alimenta talvez mais de olhares e sorrires do que dos finalmentes hoje tão comuns em fase precoce de namoro, ou mesmo sem… Meus amores lá tinham nomes (ainda têm, embora os sobrenomes tenham se alterado…) que terminam com um som de “i”: Reacy, Natalie, Sueli. A amizade, o carinho e a doce lembrança permanecem depois de, em alguns casos, mais de 35 anos. [Natalie, cujo sobrenome era Browne, era neta do Rev. Philippe Landes, sobre quem Emílio Maciel Eigenheer fala em sua vinheta].

Nos aspectos mais práticos da vida, era duro ter que arrumar o quarto, lavar a roupa, ajudar no refeitório de vez em quando, viver quase sempre sem dinheiro. A gente tinha que “se virar” para ganhar um magro dinheirinho. Enquanto no Conceição preguei pela primeira vez, numa congregação em Itapevi, fui pela primeira vez trabalhar numa Igreja nas férias (em Pirapozinho, SP) – e isso rendia alguma remuneração. Em troca de alguns trocados, cantei, em quarteto ou octeto, em vários casamentos na Catedral Evangélica da Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo (“Sublime amor, além do entendimento”, “Senhor aqui viemos te adorar, trazendo humildemente o nosso amor”). No Conceição, fui eleito pela primeira vez (Presidente do Grêmio Miguel Torres) – embora isso não rendesse nenhum dinheiro… Ali votei pela primeira vez (se não me engano, para Jânio Quadros, quando ele se recandidatou, sem sucesso, ao Governo do Estado, depois da renúncia à Presidência). Quanta primeira vez compactada em tão pouco tempo! (A primeira vez em que todo mundo pensa quando se fala em primeira vez só veio a acontecer depois do JMC).

No Conceição conquistei confiança em minha própria capacidade e isso foi fruto do contexto de estimulação e desafio intelectual, rigor acadêmico, e liberdade com responsabilidade em que vivíamos. Ali senti que poderia, com a base que tinha recebido, ser o que quisesse na vida. (O leque do que eu queria era, entretanto, bastante limitado naquela época.)

Educação é isso: é o que resta, depois que a gente se esqueceu do que nos foi ensinado: o amor do saber, o entusiasmo pela descoberta, a fascinação pelo conhecimento, pela cultura, pelas artes, o desejo de sempre aprender mais, o sentido de valor que nos ensina a separar o importante do urgente e a priorizar as coisas, a certeza de que a vida vale a pena quando se tem um objetivo pelo qual lutar. O Conceição nos legou tudo isso. O Conceição nos deu educação. Talvez a melhor educação de que se tenha notícia neste país.

Em Campinas, Setembro de 1997

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Transcrito aqui em Salto, 7 de Março de 2010

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