O Exemplo Vivido e o Testemunho Proclamado

[30 de Junho de 2018, Sábado de madrugada (quase 3h da manhã)]

Compartilho com vocês, Manuelinos, com a devida autorização da autora, carta que me foi enviada por Dirce Vieira Machado de Oliveira, mulher do Otoniel Marinho de Oliveira, apelidado de “Tonhé”, meu colega de classe no Curso Clássico, de 1961 a 1963, no JMC. A Dirce é também irmã de Dioraci Vieira Machado, meu grande amigo, presbítero da Catedral Evangélica de São Paulo, e de um ex-manuelino, Domingos Vieria Machado, apelidado “Branco”.

Pedi permissão à Dirce para digitalizar e compartilhar a carta com os colegas do JMC porque acho que ela reflete de forma muito feliz a “Essência do JMC”. A Dirce nunca foi manuelina, no sentido estrito: nunca estudou ou viveu lá. Mas é mulher de um manuelino e irmã de outro. E relata aqui o que esses dois manuelinos, o Tonhé e o Branco, lhe disseram e lhe mostraram acerca da nossa escola querida.

O conhecimento que a Dirce revela acerca do JMC é baseado em exemplo de vida e testemunho. E podemos continuar a viver desse jeito e a dar esse testemunho, mesmo na ausência física de nossa escola, que foi fechada em 1970.

Aqui vai a carta, originalmente manuscrita em três folhas, com o meu agradecimento à Dirce, por ter escrito a carta e por ter autorizado a sua digitalização e divulgação. O estilo dela é, por vezes, desnecessariamente formal. Ela me chama, por exemplo, de “Senhor Eduardo Chaves”…). A pedido da Dirce, agi como um editor aqui e ali.

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“Senhor Eduardo Chaves:

Não fui aluna do JMC, mas, se olharmos para o Currículo do “1º Ciclo do Seminário Menor” do Instituto José Manuel da Conceição, constatamos que, no que diz respeito ao Currículo, além das disciplinas comuns entre essa escola e os ginásios que nós, de fora, cursávamos, disciplinas como Português, Matemática, Ciências, História do Brasil e Geral, Geografia Geral e do Brasil, Inglês, Francês, Latim, Desenho, etc., havia tambémMúsica, Bíblia e Canto Orfeônico. Se olharmos à Avaliação, no JMC os alunos eram avaliados em todas essas disciplinas, comuns com outras escolas ou não, mas sua avaliação era mais abrangente, incluindo as muitas experiências enriquecedoras que eles vivenciavam na organização de caravanas e na participação nelas, em visitas a igrejas, no envolvimento em grêmios estudantis, na ministração de palestras, no engajamento em encontros, bem como em atividades internas, como a limpeza do quarto, a ajuda na cozinha e no refeitório, na gestão de materiais e serviços, em campeonatos esportivos, e outros.

A escola era voltada para preparar aqueles que pretendiam sua vida acadêmica em Estudos Superiores de Teologia, como já registrava o Certificado de Habilitação no 1º Ciclo. Mas ela preparava também para o trabalho em outras áreas essenciais da Igreja, como a Música: canto, coral, instrumentos (piano e órgão), etc.

Havia também no JMC a vivência do amor, da confiança, e do respeito, pois os alunos conviviam diariamente com os professores, dentro e fora da sala de aula (os professores moravam no campus), pessoas que viviam e modelavam a sua fé e os seus ideais, e, através de relacionamentos humanos saudáveis, louvavam a Deus – e isto não somente no culto matinal, em que todos cantavam com muito entusiasmo, sendo motivados a viver uma vida com propósito e com sentido, mas também no dia-a-dia, pois a escola era de tempo integral, na verdade um internato, em que tudo o que se fazia, o dia inteiro, era considerado como parte relevante da educação de cada um.

Vim a saber, também, que nessa escola havia três Grêmios Estudantis: o Grêmio Castro Alves, dedicado a elevar a vida cultural dos alunos; o Grêmio Miguel Torres, que cuidava do aspecto espiritual da vida dos alunos; e o Grêmio Esportivo, que cuidava da saúde do seu corpo e da aprendizagem de formas de competir leais e respeitosas. Esse terceiro grêmio patrocinava a prática de futebol de campo, futebol de salão, basquete e vôlei.

Nos Ginásios que frequentávamos, longe do JMC, havia apenas um Grêmio Estudantil, sem grande sentido, pois sua única tarefa era produzir as Carteirinhas Estudantis para que pagássemos meia-entrada nos cinemas da cidade…

No JMC cada aluno era responsável pela limpeza de seu quarto e de sua roupa, que era lavada, passada, e, não raro, engomada. Eram responsáveis também pela manutenção dos espaços comuns.

Os alunos participavam ainda da aplicação das provas. Em dia de provas, um dos alunos assumia a responsabilidade de buscar a prova na Secretaria e distribuí-la para os colegas, e cada um podia fazer a prova na própria sala ou, em alguns casos, em seu próprio quarto – fato que reforçava seu comprometimento com a honestidade e a responsabilidade.

Os alunos tinham também um Conselho dos Alunos, que tinha a atribuição de fazer a primeira análise de problemas de comportamento e conduta dos colegas, como indisciplina, antes de o caso ser encaminhado à Congregação dos Professores. O Conselho dos Alunos também analisava necessidades especiais de alunos, caso a caso.

O ambiente físico da escola era muito simples e frugal, e a maioria dos alunos era muito carente. Alguns eram mais velhos, fazendo o Ginásio já com mais de 18 anos. Mas todos sabiam por que estavam ali e tinham sede de aprender e saber. Tudo era muito humilde – mas se vivia ali como em uma família, que podia ser financeiramente pobre mas era rica em afeto e solidariedade.

No JMC o jovem tinha oportunidade de examinar sua vida, definir o seu futuro, crescer em conhecimento e responsabilidade, ao vivenciar os valores que a instituição apregoava e vivenciava.

De fato, a escola era viva – e uma parte essencial da vida de cada um!

Dirce Vieira Machado de Oliveira

Casada há 50 anos com um manuelino, Otoniel Marinho de Oliveira, e irmã há mais tempo de outro, Domingos “Branco” Vieira Machado.

Fernandópolis, 24 de Junho de 2018″.

Transcrição aqui no Blog em São Paulo, 30 de Junho de 2018

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O JMC: Seu Corpo e Sua Alma

[Artigo de Eduardo Chaves, publicado em O Estandarte, órgão oficial da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil, de Fevereiro de 2018, em comemoração aos 90 Anos da fundação do Instituto José Manuel da Conceição.]

Em 8/2/2018 comemoraremos 90 anos da fundação do Instituto “José Manuel da Conceição” (JMC) – escola-internato de educação básica fundada em 1928 por William A. Waddell em Jandira, SP. Enquanto instituição, o “Jota”, como era chamado, durou 42 anos: morreu cedo, em 1970. Há gente, ainda viva, que sabe bem qual foi, exatamente, sua causa mortis, mas faz questão de não compartilhar – imagino que por vergonha (ainda que vergonha alheia) ou para evitar constrangimentos, a vivos e a mortos.

Mas não é dessa história triste que pretendo falar aqui.

Quero, primeiro, constatar um fato sobre o qual nada podemos fazer. Quem entrou com treze anos no JMC em 1970, último ano de sua vida como escola, nasceu ao redor de 1957, e tem, hoje  (começo de 2018), cerca de sessenta anos. Mais quatro décadas e provavelmente não haverá mais ninguém vivo que tenha estudado ou trabalhado no Jota que possa celebrar seu aniversário.

Quero, no entanto, falar sobre algo mais alegre e promissor.

Organizações, como seres humanos, têm corpo e têm alma. O que mataram do JMC foi apenas o seu corpo. E Jesus, um dia, sabiamente nos advertiu (Mt 10:28): “Não temais os que podem matar o corpo mas não podem matar a alma”. . .

Os que mataram o corpo do JMC não conseguiram, até aqui, matar a sua alma. Até tentaram. Por isso celebraremos em 2018 os 90 anos de sua fundação. A alma do JMC continuou a viver depois da morte de seu corpo – e vive até hoje, quase cinquenta anos depois do assassinato de seu corpo. Prova disso é que nos dias 22 a 24/09/2017 cerca de setenta “manuelinos” se reuniram em Campinas, SP, para honrar e celebrar a alma daquela instituição notável. A alma do JMC continua a viver, não só na memória daqueles que um dia estudaram ou trabalharam lá, mas, também, na memória daqueles que, tendo apenas ouvido a sua história, resolveram adota-la como sua, tornando-se “manuelinos de coração”.

Organizações, como o JMC, podem continuar a ter vida depois da morte de seu corpo, através da memória que deixaram – memória que pode representar a renovação da esperança! As nossas celebrações são como a Eucaristia: “Fazei isso em memória de mim!”

O JMC um dia teve um corpo, que hoje está morto: deixou de ter vida. Mas a alma do JMC é outra coisa. Ela consiste daquilo que vivenciamos em Jandira: os conhecimentos que construímos; as competências que desenvolvemos; os valores que herdamos, adotamos ou criamos; as músicas que aprendemos, compusemos e cantamos; as vozes que aperfeiçoamos; os instrumentos musicais que dominamos; os esportes nos quais pelejamos e pelos quais demos nosso sangue; os relacionamentos que mantivemos; as amizades que formamos; os amores que em nós nasceram; as desilusões que sofremos; as atitudes e posturas que incorporamos; os hábitos que se tornaram nossa segunda natureza, fazendo de nós o que somos hoje… Essa é a alma do JMC! E ela continua viva naqueles que estudaram ou trabalharam lá. Essas coisas todas se incorporaram em nós, encarnaram-se em nossa vida, passaram a ser parte de nós, adotaram o nosso corpo como sua casa – quiçá como seu templo, enquanto esse templo durar…

Mas um dia o corpo de todos nós que estudamos ou trabalhamos no JMC estará morto também. A boa notícia (boa nova, evangelho!) é que a alma do JMC não precisa morrer com o corpo dos que estudaram e trabalharam lá: e ela não morrerá SE mantivermos viva a história do JMC e SE preservarmos acesa a chama de sua memória…  “Ide por todo o mundo e proclamai . . .”

Para que isso aconteça precisamos “evangelizar” as novas gerações, transmitir para elas as boas novas que um dia vivenciamos: na dimensão vertical, para os nossos filhos, netos, bisnetos, sobrinhos; em dimensões horizontais e transversais, para os nossos amigos, os filhos, netos, bisnetos e sobrinhos deles…

Minha esperança foi literalmente renovada no encontro de Campinas ao lá ver crianças – várias delas, correndo, brincando, curtindo umas as outras, como a gente um dia se curtiu no Jota! Segundo narraram seus pais, algumas dessas crianças já participaram de vários desses encontros e anseiam por eles como o importante momento em que vão encontrar seus amigos dos encontros anteriores, crianças como elas, manuelinos como elas, que, entretanto, nunca colocaram o pé em Jandira (como boa parte de nós nunca colocou o pé na Palestina…), mas que se orgulham de manter viva a história e acesa a chama da memória do JMC. . .

Neste ano de 2018, também em Setembro, nos dias 21 a 23, haverá outro encontro, em lugar a ser anunciado (**). Você que me lê, pode se tornar um manuelino . . . Este é literalmente um apelo! Não deixe de visitar o site do JMC (https://jmc.org.br) ou a página do JMC no Facebook (https://www.facebook.com/institutojmc/) para saber os detalhes do próximo encontro e para deixar o seu endereço para receber comunicados… Ou para bater papo com os manuelinos em vários grupos de discussão no Facebook, lá indicados, vindo a fazer parte da família manuelina!

O dito de Jesus deixa claro que os que matam o corpo em regra não são capazes de matar a alma… mas ele não diz que a alma não pode morrer. Ela pode morrer, sim. Na verdade, SE a gente não tomar alguma providência, a alma do JMC morrerá conosco – com a morte do nosso corpo. Mas a morte da alma não é um “imperativo categórico”, inevitável, como a morte do corpo: ela pode sobreviver à nossa morte, mas para que isso aconteça, não podemos ficar parados…

Deus não faz por nós aquilo que podemos – e devemos – fazer.

Eduardo CHAVES (**)

Escrito em Cortland, OH, EUA, 1º de Janeiro de 2018, e publicado aqui em 4 de Março de 2018.

(*) Já é possível confirmar o local do encontro de 2018: será em Campinas, SP, no mesmo hotel em  que o realizamos no ano passado (2017). E a data, repetindo, é de 21 a 23 de Setembro, sexta-feira a domingo. RESERVEM A DATA. (5 de Março de 2018.  Confirmação do local obtida de Jairo Brasil, que ficou encarregado dessa missão). 

(**) Eduardo Chaves é manuelino de segunda geração: ele estudou no Instituto JMC de 1961 a 1963 (três anos), mas seu pai, Rev. Oscar Chaves, também estudou lá, de 1934 a 1938 (cinco anos). De 1974 a 2006 Eduardo Chaves foi Professor de Filosofia da Educação na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), de 2007 a 2013 foi Professor de Educação, Mudança e Inovação no Centro Universitário Salesiano de São Paulo (UNISAL), no campus de Americana, e de 2014 a 2017 foi Professor de História da Igreja na Faculdade de Teologia de São Paulo da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil (FATIPI). Ele pode ser contatado através do e-mail ec@jmc.org.br.

 

Memória, Identidade e o “Ser Manuelino”

[Micropalestra que fiz em Jandira, SP, 20 de Junho de 1998, por ocasião de encontro dos ex-alunos do JMC. Eduardo Chaves]

Queridos Manuelinos:

O Takashi me pediu para coordenar os trabalhos aqui hoje (20/6), neste nosso encontro anual (1998) em Jandira (SP). O Gerson Lacerda se responsabilizará pela parte devocional, nós, sem a menor dúvida, vamos cantar, e vamos discutir algumas coisas eminentemente práticas. Mas eu não poderia iniciar esta reunião sem fazer algumas reflexões de natureza teórico-prática com vocês. Parte do que vou dizer já disse antes – na verdade, já venho dizendo há tempo. A outra parte foi se cristalizando na minha mente à medida que pensava em algo interessante para dizer para vocês aqui hoje. Sou filósofo. Por isso minhas reflexões não deixarão de ter um tom meio filosófico.

John Locke, filósofo inglês do século XVII, defendeu a tese de que nossa identidade pessoal é totalmente dependente de nossa memória. Ele argumentou de várias formas em defesa dessa tese. Mas, no fundo, ele achava que a tese era bastante autoevidente. Ele propôs o seguinte “experimento teórico” aos seus leitores. Imaginemos que numa determinada cidade vivam um príncipe e um sapateiro. Eles nunca se encontraram e não se conhecem. Uma bela manhã, entretanto, o sapateiro acorda totalmente sem as suas memórias, mas com as memórias do príncipe, e diz: “O que estou fazendo aqui neste local imundo? E com essas roupas horríveis? Mordomo! Onde você está?” Nada de mordomo. “Rainha, onde você está?” Nada de rainha. No lugar dela aparece a mulher do sapateiro. O príncipe diz: “Quem é você? O que estou fazendo aqui? Onde está meu mordomo?” Etc. (Os diálogos estou inventando, não são de Locke). Por outro lado, o príncipe acorda totalmente sem as suas memórias, mas com as do sapateiro, e também desconhece o local em que está, sentindo-se perdido no palácio, querendo ir embora para sua casa na periferia da cidade. Segundo Locke, se isso acontecesse, nós sem dúvida diríamos que o príncipe e o sapateiro haviam trocado de identidade. Pura e simplesmente.

Há muito a favor da tese de Locke. Quando alguém tem amnésia total, em virtude algum acidente ou de alguma doença, passa, em um sentido importante do termo, a ser outra pessoa. Começa vida nova. Adquire nova identidade. Há um filme de muito interessante de Harrison Ford em que isso acontece com ele, chamado Regarding Henry (de 1991)>

Também há um livro de ficção científica famoso, escrito por Robert Heinlein, em que se defende tese semelhante, I Will Fear no Evil (Não Temerei Mal Algum), em que o cérebro perfeitamente sadio de um velho cujo corpo era mantido vivo por instrumentos, e que era podre de rico, é transplantado para o corpo de uma linda moça, sua secretária. O autor gasta uma boa quantidade de páginas argumentando que o a pessoa que passou a existir no corpo da moça era de fato o velho, que mudou de corpo, adquirindo um novo (e bem mais apresentável!) – porque as memórias preservadas no cérebro transplantado eram as do velho, e, portanto, a identidade que permaneceu deveria ser a sua, a despeito do novo corpo.

Para que tanta discussão desse problema?

Porque estou convicto de que Locke estava certo e que é a memória a base da identidade pessoal. Na verdade, acredito que a memória é também a base da identidade de um povo ou de um grupo. É por isso que os Israelitas tinham que constantemente se lembrar de sua história. Preservar a sua história é manter a identidade de um povo ou de um grupo. Cultivar a memória é uma forma de manter a identidade em uma pessoa. Aquilo que eu esqueço deixa de ser parte de mim, deixa de ser parte de minha identidade.

Algumas vezes no passado me perguntei se ainda era protestante. Hoje não tenho dúvida. O Rubem Alves me convenceu de que sou. Sou, porque fui. Sou, porque vividamente me lembro de ter sido. Ser protestante é parte de minha memória viva, e, portanto, uma parte inextricável de minha identidade. (Vide o artigo do Rubem Alves que transcrevi em meu outro blog, em que ele discute isso: “Confissões de um Protestante Obstinado”, publicado em meu blog Liberal Space, em https://liberal.space/2015/10/07/confissoes-de-um-protestante-obstinado-depoimento-de-rubem-alves/.

Outras vezes no passado me dei conta de que ainda continuava amando as mulheres que amei. Hoje isso não me assusta, mais. Amo, porque amei. Amo, porque vividamente me lembro de tê-las amado. O amor que um dia senti de determinada forma é parte de minha memória viva, e, portanto, parte de minha identidade como pessoa, e, assim, ainda existe, ainda que não se expresse da mesma forma exterior.

Talvez essas considerações expliquem o que sinto pelo JMC – o que todos sentimos, acredito. Não gosto de me rotular, nem que me rotulem, de ex-Manuelino. Sou Manuelino até hoje. Sou, porque fui.

O que me causa espanto é que essa parece ser a experiência de todos os Manuelinos. Há uma surpreendente unanimidade entre os Manuelinos, que é o sentimento terno e carinhoso que mantêm pela escola. Basta olhar as mensagens deixadas no site. Uma vez Manuelino, sempre Manuelino. Somos Manuelinos, porque fomos. Somos, porque essa escola vive em nossa memória como uma das passagens mais importantes da nossa vida. Somos, porque é impossível que alguém realmente nos entenda hoje, num sentido profundo, sem entender o que essa escola significou para nós.

Lembro-me do que me contou o Dorival Xavier, no culto de 7/2/98. Disse-me que imprimiu minha vinheta sobre o JMC e fez cópias para seus filhos, dizendo: “Leiam isso aí, para que vocês saibam o que significa ser Manuelino”. Senti-me mais ou menos assim como deve ter se sentido o escritor sagrado, contando a história do povo de Israel, para que as novas gerações não perdessem a sua identidade.

A última turma a cursar o JMC o fez cerca de trinta anos atrás, em 1969 ou 1970, não estou bem certo. É possível que daqui a 50 anos não haja mais nenhum Manuelino vivo. A MENOS QUE ser Manuelino passe a ser mais um estado de espírito do que uma condição histórica. A MENOS QUE ser Manuelino passe a ser assim algo semelhante a ser Judeu, que mesmo sem ter nascido na Palestina, mesmo sem pátria, no exílio ou na diáspora, continuou a ser Judeu – porque se lembrava do Senhor seu Deus que o tirou da terra do Egito.

O nosso esforço com esta nossa Associação, como eu disse na abertura do site do JMC na Internet, é não permitir que a memória do JMC se perca, é preservar a memória, e, portanto, preservar a identidade do Manuelino – e, de certo forma, dar continuidade à raça, mesmo que de forma virtual.

Hoje, com computadores, grande parte da nossa memória está armazenada não no nosso cérebro, mas em meios magnéticos. Nossos computadores hoje passam a fazer parte de nossa identidade. O mesmo se dá no caso do JMC. O site do JMC na Internet é indispensável para a continuidade da raça. Como é o museu. E muitas outras coisas.

Já resgatamos nosso hino. Hoje temos aqui nossa bandeira, de novo, num trabalho de resgate histórico fenomenal do Takashi. Depois teremos nossas camisetas, nossos agasalhos. Aos poucos vamos recuperando fotos, histórias, objetos. Essas coisas são importantes, contudo, apenas pelas memórias que elas evocam e representam.

A esperança, dizia um professor meu do Seminário de Pittsburgh, se fundamenta na memória. Nós somos o que fomos, é verdade – mas somos também o que desejamos e esperamos ser. Nós somos o resultado dessa mescla de lembranças e sonhos, recordações e desejos, memória e esperança. O povo de Israel confiava na vinda do Messias (tinha esperança) porque se lembrava de que, no passado, Deus havia estado ao lado do seu povo (porque tinha memória).

A memória, já temos. Precisamos agora trabalhar para dar corpo ao nosso sonho. É a parte mais difícil, porque a memória é aquilo que foi – mas o futuro está aberto, pode ser o que sonhamos, e os sonhos são muitos, e muitas vezes incompatíveis. Mas é preciso trabalhar para procurar definir um horizonte na direção do qual caminhar.

É por isso que estamos mais uma vez aqui.

Bem-vindos a esse novo encontro dos Manuelinos.

Jandira, SP, 20 de Junho de 1998

Eduardo Chaves

Transcrito aqui em São Paulo em 6 de Novembro de 2015

O JMC nos deu Educação

[O texto abaixo eu escrevi em Setembro de 1997 para colocar no site oficial dos ex-alunos do Instituto JMC. Ele tinha um título diferente então: “Vignettes do JMC”. Era parte de um conjunto de “vinhetas” sobre o JMC. Transcrevo-o aqui por considera-lo ainda relevante. Existe um outro artigo, o que abre este blog, escrito em 2009, doze anos depois deste, que tem, em parte o mesmo título: “O JMC nos deu Educação — no sentido mais pleno do termo”, que é, ao mesmo tempo, mais fático e mais teórico ao mesmo tempo. Não confundir os dois.]

Meu pai, Oscar Chaves, já havia estudado no Conceição, na década de trinta. Eu lá cheguei cerca de 25 anos depois, em Fevereiro de 1961, para iniciar o Curso Clássico. Tinha 17 anos. Formei-me em Novembro de 1963, numa cerimônia da qual fui orador da turma e que teve o então deputado Camilo Ashcar como paraninfo.

A experiência no Conceição me marcou. Ali o adolescente, recém menino (cheirando a fraldas, como dizia meu pai), virou gente grande: cresceu intelectualmente, começou a tomar conta de sua vida, aprendeu a assumir responsabilidade pelos seus atos, apaixonou-se mais de uma vez. Escola de vida.

Michael Hammer, o guru da reengenharia, disse, em seu último livro, que educação é aquilo que resta depois que a gente esqueceu o que nos foi ensinado. No caso do Conceição, restou muito.

Nos estudos, o principal remanescente foi o gosto pelo saber, o entusiasmo pela descoberta, o desejo constante de aprender. No meu caso particular, há várias instâncias disso.

Em primeiro lugar, menciono o amor pelo língua e pela cultura francesa, que me foi despertado pela Dona Elza Fiúza Telles. Ah, como era bom ter aula de Francês com ela, escutar sua pronúncia linda, virtualmente sem sotaque, ouvi-la falar sobre literatura francesa. O livro texto era Langue et Civilisation Française, de G. Mauger, até há bem pouco tempo usado nas Alianças Francesas, mas a gente não se limitava ao livro texto: lia os originais. Em suas aulas li Racine, Corneille, Molière, Chateaubriand, de Musset, de Vigny, Hugo, Stendahl, decorei Le Lac, de Lamartine, o Salmo 23 – “L’Étérnel est mon berger, je n’aurai point de disette”. E não ficávamos só nos clássicos: li, por exemplo, Alexis Zorba (Zorba o Grego), de Nikos Kazantzakis, em francês, no terceiro ano clássico, num sistema de leituras independentes em que Dona Elza deixava que cada aluno progredisse em seu próprio ritmo. O gosto pela língua e civilização francesa continuam até hoje: sou membro do Conselho Diretor e um dos sócios cotistas da Aliança Francesa de Campinas (que é uma instituição educacional e cultural sem fins lucrativos).

Em segundo lugar, é preciso registrar o amor pela língua inglesa, que foi despertado e nutrido pela Dona Jean Pemberton. Tanto nas aulas, como, especialmente, no famoso English Club, Dona Jean também nos ajudava a dominar e a amar o Inglês, a aprender famosas canções como “Oh! Give me a home, where the buffalo roams, where the deer and the antylope play, where seldom is heard a discouraging word, and the sky is not cloudy all day”, a decorar “tongue twisters” como “Peter Piper picked a pack of pickled peppers”, e a repeti-los com rapidez, a cantar Christmas Carols, etc.

Mas o Português não pode ser esquecido. O Reverendo Joaquim Machado fazia com que achássemos extremamente interessante e útil aprender as regras mais complicadas da colocação de pronomes, da crase, das funções da partícula “se”, etc., e nos dava redações para casa sobre temas como “O pobre muda de dono mas não muda de sorte”… Na aulas de literatura, com o Reverendo Renato Fiuza Telles, tive que fazer trabalhos sobre o Teatro de Gil Vicente, as cartas de amor da Sóror Mariana Alcoforado, Senhora, A Moreninha, Helena, e o sempre clássico Dom Casmurro. “Capitu: Culpada ou Inocente” – talvez culpada, quem sabe inocente? – foi o tema de um de meus trabalhos de literatura brasileira.

E o Latim com o Reverendo Fernando Buonaduce? “Quo usque tandem abutere, Catilina, patientia nostra? Quam diu etiam furor iste tuus nos eludet?” (Cicero, In Catilinam Oratio I). E Grego, de novo com a Dona Jean? Psicologia, Lógica e História com o Reverendo João Euclydes Pereira? Matemática com o Reverendo Aureliano Lino Pires? Até um pouco de Física tivemos, com o Samuel Xavier (irmão do Josué, marido da Isva Ruth, a eficiente Secretária da escola).

Onde é que um aluno de segundo grau hoje aprende tudo isso?

Em termos de enriquecimento cultural, não se pode esquecer a música. A pessoa de João Wilson Faustini, o Coral regular do Conceição, o Coral especial para o Billy Graham, o coral do Recital no Municipal, o Coral da Quinta Igreja Presbiteriana Independente, em Osasco, regido pelo meu amigo e companheiro de quarto no segundo ano, Jonas Christensen, o Coral Johann Sebastian Bach, em São Paulo, do qual participei, levado também pelo Jonas, os Concertos Matinais Mercedes Benz em São Paulo nos domingos de manhã, Concertos no Municipal em algumas sextas-feiras, dos quais me recordo especialmente de um em que, pela primeira vez, ouvi a Nona Sinfonia de Beethoven, na companhia do Faustini (e em meio às lágrimas inctroláveis dele), e tanto mais. A sensibilidade do Faustini era tanta que seus olhos se enchiam de lágrimas ao reger um ensaio em que o coral conseguisse interpretar as músicas como ele desejava. Ao reger Fugi Tristeza e Horror, no Domingo de Páscoa, seus olhos brilhavam de modo a dar a impressão de que ele havia acabado de ver o Jesus ressuscitado.

Num plano mais popular, as serenatas apaixonadas, realizadas à socapa perto da Casa das Moças, em que eu e o Evandro Luís da Silva sapecávamos lancinante duetos de Vaya com Diós, El Dia que me Quieras, Teus lindos olhos, etc. (Um dia tivemos que sair correndo porque o “Seu” Benedito acendeu a luz de sua casa e apareceu na porta com o que parecia ser uma espingarda… O Paulão Cosiuc, segundo consta, mergulhou de cabeça aquela noite nas águas então apenas barrentas do Jordão).

E os esportes? Futebol de campo e de salão, basquete, vôlei. Times valentes, aqueles. No futebol de campo e de salão, o Dorival Xavier era o astro – ninguém lhe chegava perto, era “hors concours”. No futebol de campo, entretanto, o Paulo Cosiuc conseguia fazer incríveis gols de bicicleta, que me deixavam admirado (quando não um pouco invejoso). No basquete e no vôlei o Ambrósio Jorge Neto, o Deoclécio (ele às vezes escrevia Deocléssio) Silveira Amaral e o Robert (“Bob”) Nicholas Lodwick brilhavam. (O pai do Bob, Reverendo Robert E. Lodwick, fiquei sabendo pela última Newsletter, já havia brilhado nessa arena anos antes). Jogos violentos de futebol de campo contra o time da Vila (cidade de Jandira), disputas acirradas contra o Seminário de Campinas, no futebol de salão, lindas partidas de basquete e de vôlei contra a Escola Graduada (Graded School) de São Paulo. Tirando o basquete, que nunca joguei, fui figurante nos outros três esportes. Jogava de beque no futebol de salão, com meu caro amigo Hélio de Castro e Souza, hoje Delegado de Ensino em Taubaté.

Eu me estenderia muito se começasse a falar sobre os colegas de classe e os outros. Presto homenagem apenas a três dos colegas de classe que já morreram: Ambrósio Jorge Neto, Jonas Christensen, e Maria Helena Pires. (Os dois primeiros eram colegas de classe mas não concluíram o curso no JMC em 1963). [Restante da Turma].

Estender-me-ia ainda mais se falasse dos amores. Quem passou algum tempo no Conceição e não ficou pelo menos uma vez apaixonado, “foi espectro de homem, não foi homem, só passou pela vida, não viveu”. O poema de Francisco Otaviano dos Reis fala do sofrimento, não do amor, mas no Conceição amor e sofrimento eram sinônimos, porque era proibido namorar, embora a norma fosse aplicada com certa leniência. Era proibido, sim, andar de mãos dadas, abraçar-se, trocar beijos. Mas era tolerado esperar juntos na fila diante do refeitório, sentar-se juntos durante as refeições, trocar breves palavras no intervalo das aulas. E era permitido olhar. Ah, como fala um olhar! As moças só vinham para o lado dos rapazes para as aulas, as refeições e os cultos. Fora disso, ficavam na distante Casa das Moças, do outro lado do Jordão. “O Jordão eu não passarei só” era um hino sobre o qual muita brincadeira se fazia. Mais de uma vez fiquei do lado de cá do vale olhando para uma figura que, com minha miopia (que me valeu o apelido de “Cegão”), só a fé me garantia ser quem eu queria no alpendre da Casa das Moças. Como bem sabem o Elizeu Cremm e a Marli (hoje também) Cremm, namoro à distância representava sofrimento, mas ajudava a aumentar a “botina”, porque o amor se alimenta talvez mais de olhares e sorrires do que dos finalmentes hoje tão comuns em fase precoce de namoro, ou mesmo sem… Meus amores lá tinham nomes (ainda têm, embora os sobrenomes tenham se alterado…) que terminam com um som de “i”: Reacy, Natalie, Sueli. A amizade, o carinho e a doce lembrança permanecem depois de, em alguns casos, mais de 35 anos. [Natalie, cujo sobrenome era Browne, era neta do Rev. Philippe Landes, sobre quem Emílio Maciel Eigenheer fala em sua vinheta].

Nos aspectos mais práticos da vida, era duro ter que arrumar o quarto, lavar a roupa, ajudar no refeitório de vez em quando, viver quase sempre sem dinheiro. A gente tinha que “se virar” para ganhar um magro dinheirinho. Enquanto no Conceição preguei pela primeira vez, numa congregação em Itapevi, fui pela primeira vez trabalhar numa Igreja nas férias (em Pirapozinho, SP) – e isso rendia alguma remuneração. Em troca de alguns trocados, cantei, em quarteto ou octeto, em vários casamentos na Catedral Evangélica da Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo (“Sublime amor, além do entendimento”, “Senhor aqui viemos te adorar, trazendo humildemente o nosso amor”). No Conceição, fui eleito pela primeira vez (Presidente do Grêmio Miguel Torres) – embora isso não rendesse nenhum dinheiro… Ali votei pela primeira vez (se não me engano, para Jânio Quadros, quando ele se recandidatou, sem sucesso, ao Governo do Estado, depois da renúncia à Presidência). Quanta primeira vez compactada em tão pouco tempo! (A primeira vez em que todo mundo pensa quando se fala em primeira vez só veio a acontecer depois do JMC).

No Conceição conquistei confiança em minha própria capacidade e isso foi fruto do contexto de estimulação e desafio intelectual, rigor acadêmico, e liberdade com responsabilidade em que vivíamos. Ali senti que poderia, com a base que tinha recebido, ser o que quisesse na vida. (O leque do que eu queria era, entretanto, bastante limitado naquela época.)

Educação é isso: é o que resta, depois que a gente se esqueceu do que nos foi ensinado: o amor do saber, o entusiasmo pela descoberta, a fascinação pelo conhecimento, pela cultura, pelas artes, o desejo de sempre aprender mais, o sentido de valor que nos ensina a separar o importante do urgente e a priorizar as coisas, a certeza de que a vida vale a pena quando se tem um objetivo pelo qual lutar. O Conceição nos legou tudo isso. O Conceição nos deu educação. Talvez a melhor educação de que se tenha notícia neste país.

Em Campinas, Setembro de 1997

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Transcrito aqui em Salto, 7 de Março de 2010

O JMC nos deu educação – no sentido mais pleno do termo

[Este artigo, de 2009, tem um título que, em parte, repete o título de outro artigo que escrevi cerca de doze anos antes, em 1997 (“O JMC nos deu Educação”), e que está transcrito aqui também, mais acima. Não devem ser confundidos. O de 1997 é mais pessoal, este, mais fáctico e ao mesmo tempo teórico].

O JMC não era uma simples escola, como as outras.

O JMC era uma escola de vida.

Para começar, era um internato. A maior parte de nós, alunos, morávamos lá – isso quer dizer que vivíamos a nossa vida lá. A maior parte dos professores também. Também os diretores.

As outras escolas em geral se preocupam em encher a mente de seus alunos de informações. O JMC fazia, das cianças e adolescentes que ali chegavam, literalmente gente grande. E não só gente grande do ponto de vista intelectual: gente grande também do ponto de vista emocional, interpessoal, profissional, social, moral – humano, enfim.

Ali aprendemos a pensar com idéias próprias, a argumentar, a defender nossas idéias contra crítica, a criticar as idéias dos outros, a debater questões controvertidas (o JMC não fugia delas)…

Ali aprendemos a entender outras línguas, a nos expressar nelas e a praticá-las em clubes de línguas estrangeiras (clubes de alunos interessados em uma determinada língua, como o English Club);

Ali os professores, se você já conhecia bem o assunto da aula deles, o dispensavam da aula para trabalhar com você em tutoriais individualizados (dona Elza Fiuza Telles, professora de Francês, fez isso comigo durante os três anos que passei lá);

Ali aprendemos a conviver uns com os outros, a gerenciar nossas emoções, a lutar contra impulsos primitivos, a nos conter quando um colega nos fazia uma brincadeira de mau gosto…

Ali aprendemos a amar e a encontrar formas criativas de expressar o amor, para contornar a proibição do namoro…

Ali aprendemos a tomar conta de nossa vida, de nosso quarto, de nossas roupas, de nossos objetos pessoais, de nossos livros…

Ali aprendemos a trabalhar em atividades manuais ou braçais, limpando o chão e até mesmo o banheiro e até a privada, bem como servindo no restaurante,  trabalhando na cozinha, lavando louças, cuidando de nossas roupas…

Ali aprendemos a viver simples e frugalmente, com pouco e, por vezes, nenhum dinheiro, e a compartilhar o pouco que tínhamos…

Ali aprendemos a administrar o nosso tempo, alocando-o conforme nossas prioridades: a vida intelectual e o estudo; a música, o esporte, e o lazer; o amor e a vida social; a contemplação e a devoção…

Ali aprendemos que, de vez em quando, ficar sem fazer nada, deitados na grama, olhando para o céu, tendo apenas nós mesmos como companhia, era algo importante…

Ali aprendemos a ter responsabilidade, a responder por nossos atos – a fazer provas sozinhos no quarto, com os livros e cadernos ao lado, sem sucumbir à tentação de abri-los…

Ali desenvolvemos nosso caráter, que é (como alguém um dia disse) aquilo que fazemos quando ninguém está olhando…

Michael Hammer, o guru da reengenharia, disse, em um de seus livros, citando alguém, que educação é aquilo que fica conosco depois que a gente esquece o que nos foi ensinado.

No caso do JMC, ficou muito conosco. Somos o que somos, em grande parte, em virtude de nossa experiência no JMC.

Educação é isso: é o que resta, depois que a gente se esqueceu do que nos foi ensinado: o amor do saber, o entusiasmo pela descoberta, a fascínio pelo conhecimento, pela cultura, pelas artes, por outras manifestações tipicamente humanas, como esporte, o desejo de sempre aprender mais, o sentido de valor que nos ensina a separar o importante do urgente e a priorizar as coisas, a honestidade e a honradez, a certeza de que a vida vale a pena quando se tem um objetivo pelo qual lutar e se luta por ele sem abandonar os princípios que moldam o nosso caráter. O JMC nos legou tudo isso. O JMC nos deu educação. Talvez a melhor educação de que se tenha notícia neste país.

Por isso, a experiência, ainda que apenas de um ano, no JMC marcou todos os seus alunos.

É por isso que, quarenta anos depois de seu fechamento em 1970, seus ex-alunos ainda se apegam à memória da instituição, querem preservá-la, não conseguem se conformar que ela se perca com a morte, cada vez mais freqüente agora, dos manuelinos. É uma tristeza reconhecer que não existem mais manuelinos com menos de cinqüenta anos, por aí… e que dentro de uns trinta anos, no máximo, provavelmente não haverá mais nenhum manuelino vivo.

Por isso essa obsessão por preservar a memória, contar e registrar a história, para que filhos, netos, bisnetos saibam que um dia houve uma escola contra a qual nenhuma voz jamais se levantou e que todos os que passaram por lá amam com devoção… Há ex-alunos com mais de 90 anos, que amam o JMC com devoção até hoje. E para que saibam, também, e esse o lado negro da história, que a escola foi fechada, quarenta anos atrás, pelo medo – ou, o que é pior, por interesses escusos… E para que saibam que os que estiveram envolvidos no processo ou já morreram ou, se ainda vivos, preferem morrer a revelar o que realmente aconteceu.

Por isso o Museu Presbiteriano, com sede no Seminário Presbiteriano do Sul, em Campinas, decidiu, neste ano em que se celebram cento e cinqüenta anos do presbiterianismo no Brasil, acolher o pedido da Associação dos ex-Alunos do JMC de fazer uma mostra, no início de 2010, do que foi o JMC. Oitenta e dois anos depois de ele ter sido fundado. E quarenta anos depois de ter sido fechado.

São Paulo, em 3 de Dezembro de 2009

Eduardo Chaves (*)
eduardo@chaves.com.br

(*) Depois de fazer o Curso Clássico no JMC, de 1961 a 1963, Eduardo Chaves estudou no Seminário Presbiteriano de Campinas, SP, do qual foi expulso em 1966, na Faculdade de Teologia da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, em São Leopoldo, RS, que, em 1967, o acolheu, no Presbyterian Theological Seminary, em Pittsburgh, PA, Estados Unidos, onde, sem ter diploma de graduação, obteve seu Mestrado em Teologia (1970), e na University of Pittsburgh, também em Pittsburgh, onde, em 1972, obteve seu Doutorado em Filosofia (Ph.D.), menos de nove anos depois de se formar no JMC.

Eduardo Chaves foi, durante 35 anos, professor universitário. Desses 35 anos, passou 32 anos como Professor (dos quais 26 como Titular) no Departamento de Filosofia e História da Educação da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), da qual se aposentou ao final de 2006.

Na UNICAMP foi Diretor da Faculdade de Educação durante oito anos (quatro como Associado e quatro como Titular) e foi Pró-Reitor para Assuntos Administrativos, de 1984 a 1986.

Em 1986-1987 foi Diretor do Centro de Informações Educacionais da Secretaria de Estado da Educação do Estado de São Paulo, e em 1987-1990 do Centro de Informações de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde do Estado de São Paulo. Em 2007 foi Secretário Adjunto de Ensino Superior do Estado de São Paulo.

De 2007 a 2009 foi Presidente do Instituto Lumiar, e atualmente é membro do Conselho da Aliança Francesa de Campinas, do Programa EducaRede da Fundação Telefônica, e do Instituto Crescer para a Cidadania, os últimos dois com sede em São Paulo. É, também, desde 2003, membro do International Advisory Board do Programa Partners in Learning da Microsoft Corporation, com sede em Redmond, WA, EUA.

Ele mora em Salto, SP (onde pode ser contatado através da Caixa Postal 52, Agência Central dos Correios, 13320-970, Salto, SP).