Breves Notas Biográficas do Casal Roy e Evelina Harper, Visto pelos Filhos (PORT)

“Quem é aquela gente que vive cantando?”

Breves notas biográficas do Casal Roy e Evelina Harper, visto pelos filhos

Tradução de Rev. Jaime Wright

Introdução

Nossas primeiras lembranças são as melodias que tomavam conta do nosso pequeno mundo em casa, no JMC. Logo descobrimos que outras pessoas fora de nossa casa – na casa das moças, no outro lado da ponte sobre o Jordão, nos dormitórios e salas de aulas do colégio – sabiam e ensaiavam com zelo aqueles hinos e solfejos. Até o nosso cachorrinho branco Fluffy sentava na varanda e, como se fosse um lobo, uivava em concerto tão logo os primeiros versos de “Ao Deus de Abrão Louvai” jorravam do outro lado do vale. Não nos surpreendemos, portanto, ao descobrir, cinqüenta anos depois, entre centenas de cartas adquiridas recentemente, escritas pelos nossos pais aos seus familiares e amigos, um citação significativa. Com a vantagem de percepção tardia, parece que este parágrafo revela uma forte dimensão do caráter e fé dos nossos pais.

“A música está quase fora de controle, fico feliz em dizê-lo, mesmo que isso crie um enorme problema de como melhor aproveitar todo o entusiasmo existente. Alguns dias atrás, um dos nossos vizinhos em Jandira me contou que uma nova moradora na vizinhança havia parado em sua casa para perguntar, apontando na direção do JMC: “Quem é aquela gente que vive cantando?” [De uma carta escrita por Evelina à sua igreja nos EUA, em 1945.]

Cuiabá/ Rosário Oeste

Roy e Evelina eram membros da antiga missão Presbiteriana do Brasil Central (MPBC), pessoa jurídica no Brasil da Igreja Presbiteriana nos Estados Unidos da América. Foi a MPBC que designou o casal para o seu primeiro trabalho, evangelização numa das áreas mais remotas de Mato Grosso, com sede em Cuiabá. Segundo o perfil oficial de carreira, “eles viajaram largamente em lombo de mula, ou sobre estradas primitivas num forde-de-bigode, aprendendo a compreender e falar o português, levando-os a conhecer e amar o povo brasileiro”.

Ao ler as cartas pessoais escritas naqueles anos (1925-1927) aos seus pais e mais intimamente aos seus irmãos e irmãs, manuscritas ou datilografadas na velha Corona com fitas que grudavam no calor escaldante, a gente vislumbra um jovem casal norte-americano, ingênuo, entusiasmado, apaixonado, demonstrando energia e curiosidade sem limites, confiante em sua fé cristã, e sempre produzindo ,música, ele com pistão e ela com seu harmônio.

Eles se indignavam diante das injustiças sociais, do obscurantismo, da superstição e sujeira que cercavam a prática das parteiras, e dos estragos familiares resultantes do alcoolismo. Tornaram-se testemunhas involuntárias da passagem da Coluna Prestes pelo Mato Grosso a caminho da Bolívia, apresentados assim às realidades políticas e militares geralmente ausentes na orientação inicial dos missionários.

Eles se deleitavam com a criançada da vizinhança e com suas famílias que vinham visitá-los em seus modestos aposentos. Suas cartas descrevem Rosário Oeste como um lugar tão carente de conforto que eles inventaram esquemas para poupar energia e experiências na produção de verduras que seriam de muito valor mais tarde, no JMC, onde todos os alunos se envolviam em programas de auto-ajuda em seus labores intelectuais e manuais, visando à construção de uma apreciação positiva pela dignidade do trabalho com um requisito prévio para liderança na igreja.

Jandira

Esse treinamento soberbo em circunstâncias diferentes no seio de Mato Grosso, preparou o casal Harper para participar, em 1928, numa experiência educacional de auto-ajuda, peculiar para a época: o Instituto José Manoel da Conceição (JMC). O JMC era fora do comum porque dava uma oportunidade e estrutura saudável para que jovens adolescentes protestantes do interior do país, vindos de famílias modestas senão pobres, pudessem se preparar para liderança em suas igrejas: presbiterianos, episcopais, batistas, metodistas e várias outras denominações.

 Após os anos iniciais em Mato Grosso, A MPBC transferiu o casal Harper para Jandira, onde se fazia preparativos para a abertura do que se chamava inicialmente “Curso Universitário José Manoel da Conceição”. A primeira proposta para a organização do curso foi feita pelo Dr. William Alfred Waddell à MPBC, reunida em fevereiro de 1925, no Instituto Cristão, em Castro, Paraná, sob a presidência do Rev. Latham Ephraim Wright. A proposta do Dr. Waddell era, em resumo, a seguinte: ele levaria o curso de filosofia para o acampamento do Mackenzie em Jandira; ele se demitiria da presidência do Mackenzie e passaria a receber o salário de missionário [ US$900 por ano para solteiro; US$ 1,800 para casal]; além de si mesmo, ele propunha a contratação de dois professores, um norte-americano e outro brasileiro; ele propunha a aquisição de terreno maior e o trabalho dos estudantes produzindo verduras, cereais, e prestando outros serviços necessários. O curso de quatro anos foi aprovado pela MPBC em dezembro de 1927.

Os primeiros alunos iniciaram as aulas em 8 de fevereiro de 1928. A primeira turma se formou em 1929: Adolfo Machado Correia, Eduardo Pereira de Magalhães, Fernando Nanni, Martinho Rickli e Paulo Braga Mury.

Roy e Evelina trabalharam inicialmente sob a competente liderança do Dr. Waddell, ele lecionando grego, hebraico e as ciências; e ela inglês e música. Ambos contribuíram  eficientemente com seus dons e talentos para a vida do JMC através dos anos, ele pelo treinamento meticuloso nos idiomas bíblicos e nas ciências físicas e sociais, e ela pela criação da Caravana Evangélica Musical (CEM). Por intermédio da CEM, milhares de pessoas em centenas de igrejas e praças públicas ouviram o Evangelho cantado a capela por coros de estudantes do JMC. Um vasto programa de música foi executado na preparação de líderes laicos e ordenados como regentes corais e organistas de igreja. Soma-se a isso tudo a aquisição de Know-how na direção de instituições e congregações da igreja.

Roy foi nomeado diretor do JMC em 1936 e permaneceu neste cargo até 1952, ano em que foi cedido pela MPBC para assumir novas tarefas como tesoureiro do Instituto Mackenzie, entidade fundada por missionários presbiterianos na cidade de São Paulo, em 1870. Durante os nove anos neste posto, Evelina treinava coros para programas de rádio e gravações, e participava na vida litûrgica e musical da igreja. O casal retornou definitivamente aos EUA em 1962 após 35 anos de serviços no Brasil. Roy estava particularmente feliz porque, pela primeira vez desde a fundação do Mackenzie, ele deixava em seu lugar um tesoureiro brasileiro.

Voltando aos EUA, o casal assumiu as mais variadas responsabilidades para interpretar às igrejas norte-americanas as tarefas missionárias no Brasil. Residindo em San Francisco, California, eles puderam receber jovens bolsistas da Ásia. Em 1965, Roy e Evelina se aposentaram em Westminster Gardens, na cidade de Duarte, California, onde continuaram a manter contatos e correspondência com colegas, amigos e estudantes brasileiros. Nessa comunidade de missionários aposentados eles continuaram a prestar serviços administrativos e musicais, sempre cantando…

Edgerton

Charles Roy Harper nasceu em 15 de março de 1895 em Edgerton, uma comunidade rural no estado de Kansas, EUA. Seu pai, Charles Sumner Harper, deu-lhe três dádivas: sua altura (mais de 1m e 90); uma queda pela agricultura e largos horizontes; e um grande respeito pela medicina e a pessoa humana. Todas as três dádivas lhe serviriam abundantemente mais tarde, no JMC: seu entusiasmo e talento na quadra de basquete; uma apreciação pelos benefícios educativos e práticos da horticultura e esquemas de auto-ajuda como parte integrante de programas estudantis; e sua cooperação com o Instituto Butantã, juntamente com estudantes experientes, na captura de numerosas e freqüentemente raras cobras venenosas com a finalidade de produzir soro contra mordidas. De sua mãe, Carrie Erskine Harper, ele ganhou uma profunda apreciação pelos textos bíblicos que lhe eram lidos e ao seu irmão mais velho Meryl desde a tenra idade. Ela também lhe ensinou a se preocupar com os outros. Ele desenvolveu um afinado senso de humor e facilidade em formar amizades com homens e mulheres.  Isso ficou evidente ainda quando marinheiro na marinha dos EUA, com base em São Francisco, na California, e, mais tarde, como farmacêutico e auxiliar de medicina nos navios que transportavam tropas no Oceano Atlântico durante a I Guerra Mundial. Logo após a guerra, Roy matriculou-se num curso universitário em Monmouth College, uma instituição presbiteriana no estado de Illinois. Em 1921 recebeu o grau de bacharel em letras e estudou para o ministério em Princeton Theological Seminary, onde formou-se em 1924. No mesmo ano ele concluía o mestrado em literatura na Universidade de Princeton. Em 1961 ele foi contemplado com um doutorado honoris causa em Monmouth.

Des Moines

Evelina nasceu em Des Moines, no estado de Iowa, EUA, em 15 de março de 1899. Ela vinha de uma grande família de professores, pastores e fazendeiros presbiterianos. Seu pai, Alonzo C. Douglass, era o pastor da igreja local, um pregador com consideráveis  qualidades e liderança impressionante, ele mesmo descendente de outros pastores e fazendeiros que emigravam da Escócia e da Irlanda no século 18. Mais tarde, Alonzo ensinou Teologia Pastoral no Seminário Teológico Xenia, em Pittsburgh, no estado da Pennsylvania. Evelina era mais chegada à sua mãe, Mary Findley Douglass, filha de um casal de Monmouth e dotada de grande curiosidade intelectual. Ela imbuiu Evelina com uma grande paixão pela música por intermédio do coral da cidade; do fiel toca-discos Victrola (um dos discos favoritos era Lakmé de Delibe na voz de Lily Pons); e não perdendo a oportunidade de assistir aos raros concertos de sopranos colatura em algum distante auditório nos estados vizinhos. Mary era uma mulher gentil mas firme. Ela escutava bem. Estes traços ela conseguiu passar para sua filha Evelina. Fisicamente fraca quando menina, Evelina logo aprendeu a se defender na convivência com um vigoroso conjunto de quatro irmãos e uma irmã. Esta característica lhe serviria bem, tanto nas agruras da vida missionária em Mato Grosso quanto nas viagens com a CEM em caminhão aberto pelas estradas poeirentas de Goiás, ou até nos ataques de asma na década de 1940. Sua sensibilidade, tenacidade e visão a prepararam para exercer sua vocação de treinar jovens para glorificar a Deus pela música. Evelina também fez o curso universitário em Monmouth College, onde se formou em 1923, bem como no Monmouth Conservatory of Music, com o gráu de bacharel em artes. Em 1946 fez estudos de pós-graduação em Westminster Choir College, em Princeton, com o seu diretor, Dr. Williamson, e, depois, com o Dr. John kelly na School of Sacred Music de San Francisco Theological Seminary, em San Anselmo, California. Ela casou-se com Roy em 1924 e chegaram ao Brasil em 10 de setembro de 1925, enviados pelo Board of Foreign Missions of the Presbyterian Church in the USA [com sede em Nova York].

Família

Roy e Evelina tiveram dois filhos: Annabel Louise, nascida em Long Beach, California, em 1929; e Charles Roy [Royzinho], nascido em São Paulo, em 1933. Ambos estudariam por dois anos no JMC. Annabel matriculou-se no curso universitário de Maryville College, instituição presbiteriana no estado de Tennessee, e, depois, na University of New Mexico. Casou-se em 1952 com William Swenson, técnico de basquete e vice-diretor do colégio público de Tracy, California. Residem em Tracy há mais de quarenta anos, são membros da Igreja Presbiteriana, e criaram quatro filhos: Robert é formado pela University of California e jogou futebol americano profissional por nove anos no Denver Broncos (filhas Lauren e Kristin); linda é professora de escola primária, residindo e trabalhando em Santiago, Chile, com seu marido Christian (filhos Hans, Susie e Mark); Bill é empreiteiro civil em Tracy, com sua esposa Frances (filho Willie); e Susan, técnica de informática em Denver, com seu marido Michael e filha recém-nascida Hannah.

Royzinho formou-se em Wooster College, no estado de Ohio, em 1954, após o que se preparou para o ministério no San Francisco Theological Seminary, formando-se em 1958. Fez pós-graduação em ciências políticas na University of California, em Los Angeles, onde recebeu o mestrado em 1967. Tinha se casado com Babette Damnholz em Marselha, França, em 1962. O casal trabalhou na Argélia durante três anos em programa de reconstrução patrocinado pela comissão Cristã de Serviço na Argélia. A partir de 1967 passaram a residir em Genebra, Suíça, onde Babette trabalhava com o Instituto de Ação Cultural (IDAC), fundado por Paulo Freire no exílio, e Royzinho como diretor da casa internacional do estudante, conhecida como Foyer John Knox. Desde 1973, ele trabalha no programa de assuntos internacionais e direitos humanos do Conselho Mundial de Igrejas. Eles tiveram dois filhos: Caroline Anne, artista gráfica que reside em Londres, Inglaterra, com seu marido Neil; e Steven Martin que reside no Rio de Janeiro, trabalhando como dançarino profissional, professor e coreógrafo. Sua esposa Beth é de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, e curtem a filha Nina.

O coqueiro

Recebemos muitas cartas e mensagens escritas por ex colegas e alunos, amigos e familiares de Roy e Evelina quando faleceram (Roy em 1979 e Evelina em 1989, ambos em Westminster Gardens, em Duarte, California). Todas elas foram eloqüentes, lembrando coisas, e comoventes. Elas nos ajudaram a apreciar melhor este casal vibrante que agora vamos com olhos mais esclarecidos. Ao lermos sua correspondência extraordinária, escrita durante vários momentos de transição, podemos começar a compreender os dilemas, as alegrias, as tensões e os triunfos em suas vidas enquanto conviviam com seus amados alunos, colegas professores e vizinhos de Jandira.

Queremos citar, neste final, um estimado amigo e colega, pois o que ele escreveu reflete bem a maneira como Roy e Evelina gostariam de ser lembrados:

“Tu não te lembras da casinha pequenina
onde o nosso amor nasceu?
Tinha um coqueiro ao lado que, coitado,
De saudade, já morreu.

“Você não crê que Deus gostaria de ouvir esse dueto cantado pelo Altão [‘Moço, moço!’] e D. Evelina de vez em quando? Eu creio. Lembro-me sempre do alto e da baixinha (uso as palavras com amor) cantando em nossas reuniões nas noites de Sábado no Jota. Bem-aventurados aqueles que dormem no Senhor, pois as suas obras o seguem. Somos fruto dessa obra. Cante comigo a casinha pequenina, e estaremos homenageando D. Evelina e o velho mestre Roy.”

Gérson Meyer

No encerramento destas breves notas biográficas, convidamos você – como fizemos na carta que escrevemos em 1989 aos amigos dos nossos pais – a confiar que, ao lado da casinha pequenina, um coqueiro florescerá sempre e sempre, fornecendo frutas abundantes e sombra refrescante para muitos.

Quem é aquela gente que vive no céu cantando?…

Rev. Charles Roy Harper Jr. – Tradução de Rev. Jaime Wright

Transcrito aqui em São Paulo em 6 de Novembro de 2015.

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