Fotos do Culto na Catedral e Encontro na Casa da Martha Faustini Egg em 1998

Algumas fotos…  O culto creio que foi o de celebração dos 70 anos da fundação do Instituto JMC. Depois algumas pessoas foram até a casa da Martha Faustini Egg, inclusive o Royzinho (Charles Roy Harper Jr), que estava presente.

01 02 03 04 05 06 07 08 09 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 a b c d e f

Incluídos aqui em São Paulo, 6 de Novembro de 2015

José Manuel da Conceição (por Émile-G. Léonard)

[De Émile-G.Léonard, O Protestantismo Brasileiro: Estudo de Eclesiologia e História Social, tradução do manuscrito original em francês por Linneu de Camargo Schützer, ASTE, São Paulo, SP, 1963, pp.56-58]

José Manuel da Conceição [1] foi o homem que abriria ao protestantismo o interior do Brasil — conquistando não apenas indivíduos isolados mas famílias extensas e sólidas —, assegurando, assim,  seu estabelecimento, foi um padre. Esta particularidade — que nos reconduz à época da Reforma e às facilidades que ela encontrou  no ministério sacerdotal de um Zwinglio e muitos outros — corresponde também àquilo que fôra o sonho de Feijó: a reforma da Igreja brasileira por um padre brasileiro.

Nascido em São Paulo em 1822, José Manuel da Costa Santos, que tomou o nome de José Manuel da Conceição, tornou-se padre em 1845, após brilhantes estudos realizados em Sorocaba, onde seu tio-avô era cura, e no seminário diocesano. As relações que teve bem cedo com estrageiros protestantes, entretanto, o gosto pela leitura da Bíblia que estes lhe inspiraram, a tradução alemã de uma História Sagrada do Antigo e Novo Testamento publicada pela editora protestante do Rio, Laemmert, mas sem a autorização episcopal, valeram-lhe, em pouco tempo, a alcunha de “padre protestante” e a suspeita da autoridade diocesana. Esta mantinha-o nas funções de vigário encomendado, enviando-o durante quinze anos a uma dezena de paróquias, Limeira, Piracicaba, Monte-Mor, Taubaté, Ubatuba, Santa Bárbara e, finalmente, Brotas, para onde foi transferido em 1860. Os bispos protegiam, assim, seus fiéis, contra uma  influência que, sendo exercida durante muito tempo, pensavam, tornar-se-ia nociva; mas, como se afirmou, “sem que o percebessem, traçavam o itinerário da Reforma na sua diocese”.

 Esta má vontade por parte da hierarquia mostrava ao Pe. Conceição a impossibilidade de realizar esta reforma da Igreja no plano local, ao qual se consagrava, procurando, em cada uma de suas paróquias, reavivar a vida espiritual, centralizando-a na leitura da Bíblia. Conhece profundas crises vocacionais que ajuntaram ao seu cognome “padre protestante” o de “padre louco”. Parece que Brotas, por algum tempo, restituiu-lhe a paz. Essa povoação recentemente fundada (datando de cerca de 1840) era povoada por pequenos fazendeiros, grande parte vinda do sul de Minas, os Gouvea, os Cerqueira Leite, os Garcia, os Lima. Pessoas ativas, decididas e progressistas, aprovaram sem dificuldade a construção de uma nova igreja e a substituição da velha imagem da padroeira do santuário Nossa Senhora das Dores. Conceição pregou-lhes a leitura da Bíblia, e conta-se que um velho, havendo descido com enorme esforço da serra, para se informar sobre o que havia, respondeu: “Então vou aprender a ler para estudá-la”, e o fez. Às noivas que procuravam confessar-se antes de seu casamento, Conceição respondia: “Eu e você precisamos nos confessar a Deus e não aos homens”.

Este episódio nos mostra que, nesse mês de março de 1862, ele procurava apenas melhorar as condições da vida religiosa na sua paróquia. Passava por uma profunda crise espiritual, exatamente a da questão da salvação e do valor meritório das obras. Como Lutero, condenava as indulgências que proporcionavam uma falsa paz, acusando a Igreja pelo seu “sistema de comutação” que “implica e explica a negação da graça de Jesus”. Não lhe sendo possível continuar no exercício do ministério, quis abandoná-lo, tendo sido, por sua vontade, dispensado apenas de suas funções propriamente sacerdotais, após o que foi viver como simples particular, em uma pequena casa de campo nos arredores de Rio Claro. Aí foi encontrá-lo o missionário Blackford, atraído pela fama do “padre protestante”. Este acabou por ceder às suas exortações, batizando-se na Igreja Presbiteriana do Rio em 23 de outubro de 1864. Sua decisão, entretanto, também não lhe proporcionou a paz interior. Nova crise manifestou-se nele, em virtude da advertência bíblica “Não se zomba de Deus”, crise que provinha de sua consciência de que não era bastante haver abandonado os erros da Igreja roamana, depois de havê-los divulgado por tanto tempo. Três vezes evitou seus amigos missionários, subtraindo-se às syas visitas, até que, finalmente, estas outras palavras da Bíblia “O sangue de Jesus Cristo purifica de todo pecado” trouxeram-lhe tranqüilidade ao coração. Escreveu então uma Profissão de Fé Evangélica onde narra suas lutas espirituais, num estilo convulsivo e ardente, uma das mais belas obras da mística protestante [2]. Protestante pelas experiências e afirmações dogmáticas nas quais repousa, guarda ela profundamente, entretanto, o tom da literatura espiritual e da piedade católica. Neste ponto, como veremos, é o espelho fiel de seu autor.

Brotas fôra a última paróquia onde o Pe. Conceição exercera o ministério católico. Possuia ali lácos familiaries desde que sua irmã mais moça, Tudica, se casara com um Cerqueira Leite. Muitos de seus paroquianos haviam conhecido suas lutas espirituais e alguns as haviam mesmo partilhado. Além disso, os missionários seus amigos haviam iniciado ali um trabvalho de propaganda com grande resultado, e esse foi o ponto decisivo: dirigiu-se a Brotas em meados de outubro a fim de tomar parte na campanha de pregações que deveria realizar-se durante diversas semanas, havendo pregações de casa em casa. Eis uma descrição das duas últimas reuniões, feitas por Blackford, que nos mostra o modo como eram realizadas e como se criou o primeiro núcleo protestante verdadeiramente brasileiro.

[O texto continua por várias páginas mais, até a p.67. Seria muito demorado transcreve-lo por inteiro. O que foi transcrito fica como “aperitivo”…].

NOTAS

[1] Sua biografia foi escrita pelo coronel Fausto de Souza, ligado a ele em circunstâncias memoráveis, como veremos mais adiante. Foi tratada também por Vicente Themudo Lessa, Padre José Manuel da Conceição (2ª , 1935). Acaba de aparecer (1950) um bom estudo feito pelo Rev. Boanerges Ribeiro, onde se encontrará uma bibliografia completa. [Nota de Eduardo Chaves: O livro, que teve o título de O Padre Protestante, foi publicado pela Casa Editora Presbiteriana, São Paulo, SP, em 1950].

[2] Encontramos grandes passagens desse livro na obra de Rev. Boanerges Ribeiro que acaba de ser publicada, sob o título O Padre Protestante (São Paulo, 1950). [Nota de Eduardo Chaves: o autor não explica porque não citou o nome do livro na nota anterior].

Transcrito aqui em São Paulo, 6 de Novembro de 2016

Breves Notas Biográficas do Casal Roy e Evelina Harper, Visto pelos Filhos (PORT)

“Quem é aquela gente que vive cantando?”

Breves notas biográficas do Casal Roy e Evelina Harper, visto pelos filhos

Tradução de Rev. Jaime Wright

Introdução

Nossas primeiras lembranças são as melodias que tomavam conta do nosso pequeno mundo em casa, no JMC. Logo descobrimos que outras pessoas fora de nossa casa – na casa das moças, no outro lado da ponte sobre o Jordão, nos dormitórios e salas de aulas do colégio – sabiam e ensaiavam com zelo aqueles hinos e solfejos. Até o nosso cachorrinho branco Fluffy sentava na varanda e, como se fosse um lobo, uivava em concerto tão logo os primeiros versos de “Ao Deus de Abrão Louvai” jorravam do outro lado do vale. Não nos surpreendemos, portanto, ao descobrir, cinqüenta anos depois, entre centenas de cartas adquiridas recentemente, escritas pelos nossos pais aos seus familiares e amigos, um citação significativa. Com a vantagem de percepção tardia, parece que este parágrafo revela uma forte dimensão do caráter e fé dos nossos pais.

“A música está quase fora de controle, fico feliz em dizê-lo, mesmo que isso crie um enorme problema de como melhor aproveitar todo o entusiasmo existente. Alguns dias atrás, um dos nossos vizinhos em Jandira me contou que uma nova moradora na vizinhança havia parado em sua casa para perguntar, apontando na direção do JMC: “Quem é aquela gente que vive cantando?” [De uma carta escrita por Evelina à sua igreja nos EUA, em 1945.]

Cuiabá/ Rosário Oeste

Roy e Evelina eram membros da antiga missão Presbiteriana do Brasil Central (MPBC), pessoa jurídica no Brasil da Igreja Presbiteriana nos Estados Unidos da América. Foi a MPBC que designou o casal para o seu primeiro trabalho, evangelização numa das áreas mais remotas de Mato Grosso, com sede em Cuiabá. Segundo o perfil oficial de carreira, “eles viajaram largamente em lombo de mula, ou sobre estradas primitivas num forde-de-bigode, aprendendo a compreender e falar o português, levando-os a conhecer e amar o povo brasileiro”.

Ao ler as cartas pessoais escritas naqueles anos (1925-1927) aos seus pais e mais intimamente aos seus irmãos e irmãs, manuscritas ou datilografadas na velha Corona com fitas que grudavam no calor escaldante, a gente vislumbra um jovem casal norte-americano, ingênuo, entusiasmado, apaixonado, demonstrando energia e curiosidade sem limites, confiante em sua fé cristã, e sempre produzindo ,música, ele com pistão e ela com seu harmônio.

Eles se indignavam diante das injustiças sociais, do obscurantismo, da superstição e sujeira que cercavam a prática das parteiras, e dos estragos familiares resultantes do alcoolismo. Tornaram-se testemunhas involuntárias da passagem da Coluna Prestes pelo Mato Grosso a caminho da Bolívia, apresentados assim às realidades políticas e militares geralmente ausentes na orientação inicial dos missionários.

Eles se deleitavam com a criançada da vizinhança e com suas famílias que vinham visitá-los em seus modestos aposentos. Suas cartas descrevem Rosário Oeste como um lugar tão carente de conforto que eles inventaram esquemas para poupar energia e experiências na produção de verduras que seriam de muito valor mais tarde, no JMC, onde todos os alunos se envolviam em programas de auto-ajuda em seus labores intelectuais e manuais, visando à construção de uma apreciação positiva pela dignidade do trabalho com um requisito prévio para liderança na igreja.

Jandira

Esse treinamento soberbo em circunstâncias diferentes no seio de Mato Grosso, preparou o casal Harper para participar, em 1928, numa experiência educacional de auto-ajuda, peculiar para a época: o Instituto José Manoel da Conceição (JMC). O JMC era fora do comum porque dava uma oportunidade e estrutura saudável para que jovens adolescentes protestantes do interior do país, vindos de famílias modestas senão pobres, pudessem se preparar para liderança em suas igrejas: presbiterianos, episcopais, batistas, metodistas e várias outras denominações.

 Após os anos iniciais em Mato Grosso, A MPBC transferiu o casal Harper para Jandira, onde se fazia preparativos para a abertura do que se chamava inicialmente “Curso Universitário José Manoel da Conceição”. A primeira proposta para a organização do curso foi feita pelo Dr. William Alfred Waddell à MPBC, reunida em fevereiro de 1925, no Instituto Cristão, em Castro, Paraná, sob a presidência do Rev. Latham Ephraim Wright. A proposta do Dr. Waddell era, em resumo, a seguinte: ele levaria o curso de filosofia para o acampamento do Mackenzie em Jandira; ele se demitiria da presidência do Mackenzie e passaria a receber o salário de missionário [ US$900 por ano para solteiro; US$ 1,800 para casal]; além de si mesmo, ele propunha a contratação de dois professores, um norte-americano e outro brasileiro; ele propunha a aquisição de terreno maior e o trabalho dos estudantes produzindo verduras, cereais, e prestando outros serviços necessários. O curso de quatro anos foi aprovado pela MPBC em dezembro de 1927.

Os primeiros alunos iniciaram as aulas em 8 de fevereiro de 1928. A primeira turma se formou em 1929: Adolfo Machado Correia, Eduardo Pereira de Magalhães, Fernando Nanni, Martinho Rickli e Paulo Braga Mury.

Roy e Evelina trabalharam inicialmente sob a competente liderança do Dr. Waddell, ele lecionando grego, hebraico e as ciências; e ela inglês e música. Ambos contribuíram  eficientemente com seus dons e talentos para a vida do JMC através dos anos, ele pelo treinamento meticuloso nos idiomas bíblicos e nas ciências físicas e sociais, e ela pela criação da Caravana Evangélica Musical (CEM). Por intermédio da CEM, milhares de pessoas em centenas de igrejas e praças públicas ouviram o Evangelho cantado a capela por coros de estudantes do JMC. Um vasto programa de música foi executado na preparação de líderes laicos e ordenados como regentes corais e organistas de igreja. Soma-se a isso tudo a aquisição de Know-how na direção de instituições e congregações da igreja.

Roy foi nomeado diretor do JMC em 1936 e permaneceu neste cargo até 1952, ano em que foi cedido pela MPBC para assumir novas tarefas como tesoureiro do Instituto Mackenzie, entidade fundada por missionários presbiterianos na cidade de São Paulo, em 1870. Durante os nove anos neste posto, Evelina treinava coros para programas de rádio e gravações, e participava na vida litûrgica e musical da igreja. O casal retornou definitivamente aos EUA em 1962 após 35 anos de serviços no Brasil. Roy estava particularmente feliz porque, pela primeira vez desde a fundação do Mackenzie, ele deixava em seu lugar um tesoureiro brasileiro.

Voltando aos EUA, o casal assumiu as mais variadas responsabilidades para interpretar às igrejas norte-americanas as tarefas missionárias no Brasil. Residindo em San Francisco, California, eles puderam receber jovens bolsistas da Ásia. Em 1965, Roy e Evelina se aposentaram em Westminster Gardens, na cidade de Duarte, California, onde continuaram a manter contatos e correspondência com colegas, amigos e estudantes brasileiros. Nessa comunidade de missionários aposentados eles continuaram a prestar serviços administrativos e musicais, sempre cantando…

Edgerton

Charles Roy Harper nasceu em 15 de março de 1895 em Edgerton, uma comunidade rural no estado de Kansas, EUA. Seu pai, Charles Sumner Harper, deu-lhe três dádivas: sua altura (mais de 1m e 90); uma queda pela agricultura e largos horizontes; e um grande respeito pela medicina e a pessoa humana. Todas as três dádivas lhe serviriam abundantemente mais tarde, no JMC: seu entusiasmo e talento na quadra de basquete; uma apreciação pelos benefícios educativos e práticos da horticultura e esquemas de auto-ajuda como parte integrante de programas estudantis; e sua cooperação com o Instituto Butantã, juntamente com estudantes experientes, na captura de numerosas e freqüentemente raras cobras venenosas com a finalidade de produzir soro contra mordidas. De sua mãe, Carrie Erskine Harper, ele ganhou uma profunda apreciação pelos textos bíblicos que lhe eram lidos e ao seu irmão mais velho Meryl desde a tenra idade. Ela também lhe ensinou a se preocupar com os outros. Ele desenvolveu um afinado senso de humor e facilidade em formar amizades com homens e mulheres.  Isso ficou evidente ainda quando marinheiro na marinha dos EUA, com base em São Francisco, na California, e, mais tarde, como farmacêutico e auxiliar de medicina nos navios que transportavam tropas no Oceano Atlântico durante a I Guerra Mundial. Logo após a guerra, Roy matriculou-se num curso universitário em Monmouth College, uma instituição presbiteriana no estado de Illinois. Em 1921 recebeu o grau de bacharel em letras e estudou para o ministério em Princeton Theological Seminary, onde formou-se em 1924. No mesmo ano ele concluía o mestrado em literatura na Universidade de Princeton. Em 1961 ele foi contemplado com um doutorado honoris causa em Monmouth.

Des Moines

Evelina nasceu em Des Moines, no estado de Iowa, EUA, em 15 de março de 1899. Ela vinha de uma grande família de professores, pastores e fazendeiros presbiterianos. Seu pai, Alonzo C. Douglass, era o pastor da igreja local, um pregador com consideráveis  qualidades e liderança impressionante, ele mesmo descendente de outros pastores e fazendeiros que emigravam da Escócia e da Irlanda no século 18. Mais tarde, Alonzo ensinou Teologia Pastoral no Seminário Teológico Xenia, em Pittsburgh, no estado da Pennsylvania. Evelina era mais chegada à sua mãe, Mary Findley Douglass, filha de um casal de Monmouth e dotada de grande curiosidade intelectual. Ela imbuiu Evelina com uma grande paixão pela música por intermédio do coral da cidade; do fiel toca-discos Victrola (um dos discos favoritos era Lakmé de Delibe na voz de Lily Pons); e não perdendo a oportunidade de assistir aos raros concertos de sopranos colatura em algum distante auditório nos estados vizinhos. Mary era uma mulher gentil mas firme. Ela escutava bem. Estes traços ela conseguiu passar para sua filha Evelina. Fisicamente fraca quando menina, Evelina logo aprendeu a se defender na convivência com um vigoroso conjunto de quatro irmãos e uma irmã. Esta característica lhe serviria bem, tanto nas agruras da vida missionária em Mato Grosso quanto nas viagens com a CEM em caminhão aberto pelas estradas poeirentas de Goiás, ou até nos ataques de asma na década de 1940. Sua sensibilidade, tenacidade e visão a prepararam para exercer sua vocação de treinar jovens para glorificar a Deus pela música. Evelina também fez o curso universitário em Monmouth College, onde se formou em 1923, bem como no Monmouth Conservatory of Music, com o gráu de bacharel em artes. Em 1946 fez estudos de pós-graduação em Westminster Choir College, em Princeton, com o seu diretor, Dr. Williamson, e, depois, com o Dr. John kelly na School of Sacred Music de San Francisco Theological Seminary, em San Anselmo, California. Ela casou-se com Roy em 1924 e chegaram ao Brasil em 10 de setembro de 1925, enviados pelo Board of Foreign Missions of the Presbyterian Church in the USA [com sede em Nova York].

Família

Roy e Evelina tiveram dois filhos: Annabel Louise, nascida em Long Beach, California, em 1929; e Charles Roy [Royzinho], nascido em São Paulo, em 1933. Ambos estudariam por dois anos no JMC. Annabel matriculou-se no curso universitário de Maryville College, instituição presbiteriana no estado de Tennessee, e, depois, na University of New Mexico. Casou-se em 1952 com William Swenson, técnico de basquete e vice-diretor do colégio público de Tracy, California. Residem em Tracy há mais de quarenta anos, são membros da Igreja Presbiteriana, e criaram quatro filhos: Robert é formado pela University of California e jogou futebol americano profissional por nove anos no Denver Broncos (filhas Lauren e Kristin); linda é professora de escola primária, residindo e trabalhando em Santiago, Chile, com seu marido Christian (filhos Hans, Susie e Mark); Bill é empreiteiro civil em Tracy, com sua esposa Frances (filho Willie); e Susan, técnica de informática em Denver, com seu marido Michael e filha recém-nascida Hannah.

Royzinho formou-se em Wooster College, no estado de Ohio, em 1954, após o que se preparou para o ministério no San Francisco Theological Seminary, formando-se em 1958. Fez pós-graduação em ciências políticas na University of California, em Los Angeles, onde recebeu o mestrado em 1967. Tinha se casado com Babette Damnholz em Marselha, França, em 1962. O casal trabalhou na Argélia durante três anos em programa de reconstrução patrocinado pela comissão Cristã de Serviço na Argélia. A partir de 1967 passaram a residir em Genebra, Suíça, onde Babette trabalhava com o Instituto de Ação Cultural (IDAC), fundado por Paulo Freire no exílio, e Royzinho como diretor da casa internacional do estudante, conhecida como Foyer John Knox. Desde 1973, ele trabalha no programa de assuntos internacionais e direitos humanos do Conselho Mundial de Igrejas. Eles tiveram dois filhos: Caroline Anne, artista gráfica que reside em Londres, Inglaterra, com seu marido Neil; e Steven Martin que reside no Rio de Janeiro, trabalhando como dançarino profissional, professor e coreógrafo. Sua esposa Beth é de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, e curtem a filha Nina.

O coqueiro

Recebemos muitas cartas e mensagens escritas por ex colegas e alunos, amigos e familiares de Roy e Evelina quando faleceram (Roy em 1979 e Evelina em 1989, ambos em Westminster Gardens, em Duarte, California). Todas elas foram eloqüentes, lembrando coisas, e comoventes. Elas nos ajudaram a apreciar melhor este casal vibrante que agora vamos com olhos mais esclarecidos. Ao lermos sua correspondência extraordinária, escrita durante vários momentos de transição, podemos começar a compreender os dilemas, as alegrias, as tensões e os triunfos em suas vidas enquanto conviviam com seus amados alunos, colegas professores e vizinhos de Jandira.

Queremos citar, neste final, um estimado amigo e colega, pois o que ele escreveu reflete bem a maneira como Roy e Evelina gostariam de ser lembrados:

“Tu não te lembras da casinha pequenina
onde o nosso amor nasceu?
Tinha um coqueiro ao lado que, coitado,
De saudade, já morreu.

“Você não crê que Deus gostaria de ouvir esse dueto cantado pelo Altão [‘Moço, moço!’] e D. Evelina de vez em quando? Eu creio. Lembro-me sempre do alto e da baixinha (uso as palavras com amor) cantando em nossas reuniões nas noites de Sábado no Jota. Bem-aventurados aqueles que dormem no Senhor, pois as suas obras o seguem. Somos fruto dessa obra. Cante comigo a casinha pequenina, e estaremos homenageando D. Evelina e o velho mestre Roy.”

Gérson Meyer

No encerramento destas breves notas biográficas, convidamos você – como fizemos na carta que escrevemos em 1989 aos amigos dos nossos pais – a confiar que, ao lado da casinha pequenina, um coqueiro florescerá sempre e sempre, fornecendo frutas abundantes e sombra refrescante para muitos.

Quem é aquela gente que vive no céu cantando?…

Rev. Charles Roy Harper Jr. – Tradução de Rev. Jaime Wright

Transcrito aqui em São Paulo em 6 de Novembro de 2015.

O Instituto JMC (por Júlio Andrade Ferreira)

[Retirado de Júlio Andrade Ferreira, História da Igreja Presbiteriana do Brasil, em Comemoração ao Seu Primeiro Centenário, 2º Volume, Casa Editora Presbiteriana, São Paulo, SP, 1960, Cap. CLX, pp.197-199]

O Rev. William Waddell estava às portas da aposentadoria no Mackenzie. Seu espírito organizador não poderia conformar-se com a inatividade. Por outro lado a luta em prol do Seminário Unido ia acesa. Fundar uma nova escola teria não apenas a vantagem de tomar-lhe o tempo, como também ode prover alunos para o Seminário do Rio.

O alvo inicial da instituição que Waddell dirigia fôra, afinal, o de servir a Igreja Evangélica e em especial a Igreja Presbiteriana. Um bom modo de aliar os vários interesses seria o uso da fazenda em Jandira, que os futuros engenheiros visitavam apenas três semanas por ano. Ora, Waddell nunca se conformava com a formação de cursos tais como os organizados oficialmente no Brasil. Como julgasse que o “ensino comum”, isto é, sem diferenciações, devesse ir até apenas o terceiro ginasial (num tempo em que o ginásio contava seis anos), desejava ele tomar o aluno a esse altura para cuidar já de certa especialização, com vistas à formação ministerial. O “Curso Universitário José Manuel da Conceição”, cujo nome homenagearia um grande vulto do passado da Igreja, seria uma espécie de pré-teológico. E mais: sendo estruturado em bases administrativas modestas e rigorosas, daria oportunidade a muitos alunos pobres, os quais de outra maneira ficariam privados de tão alviçareira oportunidade.

 O que Waddell pensou foi servir. O JMC seria uma obra de cooperação. Dada a influência desse líder junto ao Board de Nova York, obteve a colaboração franca das missões que lhe eram subordinadas. A Assembléia Geral da Igreja Presbiteriana acolheu a idéia e aprovou o plano na reunião havida em Paraíso (1926).

A Igreja Presbiteriana Independente e a Episcopal Brasileira tinham aderido também. Esperava-se que as aulas se abrissem em 1927.

Não foi possível. Só a 8 de fevereiro de 1928, com 12 alunos, uma espécie de 12 apóstolos, abriram-se elas. Desses doze, cinco atingiram a formatura já no ano seguinte, 1929. Os outros só sairiam em 1932. Foi esta a turma, no que diz respeito aos presbiterianos, que primeiro veio ao Seminário de Campinas e se integrou à classe da qual fazia parte o autor deste histórico. Nessa época já havia 44 moços e 5 moças no JMC.

O próprio Rev. Waddell e o Dr. C. R. Harper, que a missão recolhera do campo matogrossense, puseram-se a ensinar com afinco. Outros o auxiliaram: Mrs. Harper, na música; Temudo Lessa e Grotthouse (M. P.), em várias disciplinas. Vários alunos adiantados foram tomados como auxiliares.

Não se comia bem; eram os próprios alunos que cozinhavam. Nem eram as acomodações, de uma casa baixa e comprida, das mais cômodas. Mas o Dr. Waddell teve sempre grande prestígio para apaziguar os descontentes e quase sempre eram os mesmos elementos que agradeciam a “chance” que então se lhes abrira. Afinal, era uma porta aberta ao Seminário!

Seminário Unido, pensavam os organizadores; Seminário de Campinas, disseram os fatos. Isso veremos em outro capítulo.

Dª Evelina Harper organizou a “Caravana Universitária do Curso JMC”. A primeira delas saiu em 1931. Uma fotografia da mesma nô-la apresenta um conjunto de rapazinhos quase ainda imberbes: João Euclydes, Francisco Alves, Firmino Barreto, Jorge Campelo, Edgar Regis,  Rui Gutierrez. Apenas Regis é falecido. Os demais nós os conhecemos; só não têm o mesmo viço da juventude. Cremos que a Caravana desempenhou sempre papel importante na vida da instituição.

Cantores e pregadores têm sido formados nessa escola, muitos dos que me lêem, e que serviram de apresentação da escola perante as famílias evangélicas. E assim, tem-se cumprido a missão inicial do JMC — “dar preparo secundário a alunos de ambos os sexos, maiores de dezesseis anos, que não tiveram oportunidade de cursar ginásios oficiais”. Tem cumprido também outras funções, como a de selecionar candidatos ao ministério.

Certo que outros seminários, o Independente, por exemplo, tem-se valido do JMC — nenhum, porém, tanto como o de Campinas. Lavras, Castro, Jequitibá e outros celeiros de candidatos foram de muito, e de há muito, superados pelo JMC. Em 1948, em uma turma de cinco do Independente, quatro do JMC. Nem sempre a proporção é tão grande, mas nunca deixou de ser apreciável.

Melhoramentos têm sido feitos: motor elétrico, ponte, passeios, rede telefônica, o próprio “campus”. E os prédios? Os modestos casebres iniciais vão desaparecendo, como já desapareceram obreiros daqueles primórdios. O simpático Temudo Lessa e o casal Waddell. Dr. William Waddell e Dª Laura Chamberlain Waddell desapareceram com pequeno espaço de tempo, em boa velhice, mas cercados de estima. De seus filhos, Dr. Ricardo Waddell tem se destacado como de igual têmpera e do mesmo ideal: filho de Waddell, neto de Chamberlain.

Mas voltemos ao JMC. Seria possível acompanhar convenientemente toda a sua vida já de 30 anos? Faltar-me-ia tempo para lembrar todos os obreiros que ali têm ensinado e que ali têm aprendido: quase cem pastores.

Prof. João Euclydes Pereira, Dr. Henrique Maurer, Rev. Renato Fiuzza Teles, o missionário Robert Lodwick…

Quanto aos alunos, lembro trecho do Rev. José Borges dos Santos Júnior. “Os fatos dizem tudo. Américo J. Ribeiro, Francisco Alves, Renato Fiuzza Teles, Valério Silva, Adauto Dourado, Waldyr Carvalho Luz e tantos outros que entraram no ministério vindo do Curso JMC permitiram parafrasear o que disse São Paulo aos Coríntios: ‘São cartas vivas de recomendação’”.

Transcrito aqui em São Paulo, 6 de Novembro de 2015.

Termo de Abertura e Histórico de 1928-1929 do Instituto José Manuel de Conceição

No dia 8 de fevereiro de 1928 reuniram-se no salão nobre do Acampamento do Mackenzie College, sito no kil. 32 da E.[strada de] F.[erro] Sorocabana, o Rev. Dr. W.[illiam] A.[lfred] Waddell, Rev. e Snra. C.[harles] R.[oy] Harper, Rev. R. F. Lenington e os Snrs. Erencio Victorino, Ednardo Pereira de Magalhães e Tuffy Elias, para a abertura das aulas do Curso Universitário “José Manuel da Conceição”.

Foi cantado o hymno nº 26, dos “Psalmos e Hymnos”, um dos hymnos predilectos do fallecido Rev. José Manuel da Conceição. O Dr. Waddell relembrou a ocasião em 7 de fevereiro de 1891, quando se reuniram na casa nº 1 da antiga rua S. José, hoje Líbero Badaró, o Rev. e Snra. G. W. Chamberlain, e, com 3 creanças, um menino branco, nº 1 da matrícula, depois o Rev. Álvaro Reis, uma menina branca e um menino preto, organisaram a Escola Americana de São Paulo.

Também a ocasião, no dia 8 de março de 1891, quando na sala do Rev. G. W. Chamberlain, na Rua Consolação em São Paulo, elle, Dr. Waddell, organisou o Mackenzie College, com três matriculados.

O Dr. Waddell passou a ler as passagens da Bíblia que foram lidas nas duas ocasiões supramencionadas, Ps. 121.1-8; 125.1-2; 127.1 e S. Matheus 7.24-27.

Foi feita oração pelo Rev. R. F. Lenington.

Pelo Rev. Dr. Waddell foi feito o histórico da conversão e o trabalho do Rev. José Manuel da Conceição, o primeiro Brazileiro ordenado no Brazil; sua pregação desde o Rio de Janeiro até a cidade de Ponta Grossa no Paraná; suas viagens a pé, evangelisando bairros, vielas e cidades, e da influencia que assim teve sobre a egreja nascente, fazendo della uma egreja essencialmente missionária. Portanto nada mais proprio do que dar o nome desse pioneiro da evangelisação a este Curso Universitário, cujo fito é o melhor preparo dos futuros evangelisadores da Pátria Brazileira.

Passou-se então a matrícula definitiva dos estudantes, na ordem de sua chegada ao estabelecimento, e foram declaradas abertas as aulas.

Foi feita a seguinte distribuição provisória das materias do curso:

Dr. Waddell: Philosophia e Mathematica;

Rev. C. R. Harper: Grego e Sciencias;

Rev. Lenington e Dr. Motta Sobrinho: Latim e Portuguez;

Mrs. Harper: Inglez e Musica.

No dia 13 de abril de 1928 o Curso foi honrado com a visita dos Revs. Alfredo [Borges] Teixeira e Epaminondas [do Amaral], professores da Faculdade de Theologia da Egreja Presbyteriana Independente em São Paulo.

No dia 20 de abril de 1928 recebeu também a honrosa visita do Rev. Salomão Ferraz, pastor da Egreja Episcopal em São Paulo.

No dia 20 de junho de 1928 foi encerrado o primeiro semestre do anno letivo.

No dia 28 de junho foi aberto o segundo semestre do anno letivo de 1928, com 11 matriculados.

No dia 13 de julho de 1928 o Curso teve o prazer de uma visita do Rev. Stanley Jones, missionário-evangelista da Egreja Methodista na India, auctor dos livros célebres “The Christ of the Indian Road” e “The Christ of the Round Table”, e do Rev. Erasmo Braga, Secretário da Commissão Brazileira de Cooperação, sob cujos auspícios o Rev. Jones fez uma viagem de evangelisação à América Latina. Reunidos os estudantes e professores na capella, o Rev. Stanley Jones fez um breve mas altamente instructivo discurso sobre o facto solemne, que se avida do ministro ou obreiro christão não quadrar com seu ensino, este será em vão.

No dia 3 de agosto de 1928 houve mais uma honrosa visita ao Curso. É que neste dia lá estiveram os Revs. José Carlos Nogueira, Moderador da Assembléia Geral da Egreja Presbyteriana do Brazil; Odilon Moraes, pastor da Egreja [Presbiteriana] Independente do Rio e professor do Seminario Unido naquella capital; Vicente Themudo, redactor da “Semana Evangelica”, órgão official da Egreja Presbyteriana Independente; e Herbert S. Harris, Secretario da “União Brazileira de Escolas Dominicaes”.

1929 – Corpo docente:

Dr. W.ª Waddell: Philosophia, Historia etc.;

Rev. Motta Sobrinho — 1º Semestre: Portuguez e Latim;

Rev. Alfredo Teixeira e Rev. R. F. Lenington: Portuguez e Latim;

Rev. C. R. Harper: Hebraico, grego, etica, physica;

Mrs. C. R. Harper: Inglez e Musica;

Mrs. W. A. Waddell: Pedagogia.

Uma turma de cinco moços formam-se este anno [1929], sendo os seguintes: Martinho Rickli, Ednardo Magalhães, Paulo Braga Mury, Adolpho Corrêa e Fernando Nanui.

———–

[Adendo de Eduardo Chaves]

O Conceição foi, durante mais quatro décadas, a escola e o lar de várias centenas de pessoas, que hoje exercem as mais variadas atividades, gozando da admiração e do respeito dos que os cercam pela probidade e competência herdadas dos dedicados e amáveis professores manuelinos.

Por razões ainda não suficientemente aclaradas, o Instituto José Manuel da Conceição encerrou suas atividades ao final do ano letivo de 1970. Toda a documentação escolar de seus alunos se encontra arquivada na Delegacia de Ensino de Itapevi, SP.

Transcrito aqui em São Paulo, 6 de Novembro de 2015

Vignette do JMC (por Sono Yuasa Tanaami)

Em janeiro de 1937 cheguei pela primeira vez no JMC, na casa do Reverendo Charles Roy Harper e Da. Evelina. A minha mãe foi comigo, menina de 17 anos, pois tinha de ver onde ia ficar e com quem, apesar de muito boas informações.

Descemos pulando do trem, que jogava brasinhas sobre nós e, como a estação era pequena, conforme o lugar pulávamos mais de 1 metro de altura. Logo começamos a andar no meio dos arbustos ao lado da estrada de ferro, em sentindo contrário ao do trem  por 150 metros e dobramos à esquerda para passarmos por uma pinguela sobre um riacho mais ou menos 2 metros abaixo. Dali havia um fio do chão batido meio coberto pelo capim que ia direto à casa do Diretor, que era a casa mais à esquerda das três casas modernas que chamavam atenção destoando o ambiente bucólico.

Mr. Harper e Da. Evelina eram modelos de pessoas dedicadas ao trabalho de Deus. Nós conhecíamos alguns missionários americanos no Japão e os admirávamos. O casal era tão amável, simpático e inspirava confiança que minha mãe se rendeu prontamente. Mas nunca iria imaginar que minha vida se prolongaria por 10 anos no Conceição. O casal tinha dois filhos amáveis e educados: Annabel e Roysinho. A menina cursava o Graded School de São Paulo e Roysinho ficava estudando em casa. No fim de semana toda a família se reunia.

Ao lado dos Harper moravam o Reverendo Jesse Wyant e Da. Barbara que eram professores dedicados do JMC., com seu único filho Jack também muito educado. Ao lado deles moravam Reverendo João Euclydes e D. Abigail que estavam trabalhando na evangelização de Osasco. Eles eram brasileiros e muito dedicados.

A casa das moças ficava na ponta. Era simples e comprida, cercada de mato por todos os lados. A Diretora das moças era Da. Ana Rickli que mais tarde se casou com o Reverendo Mori que pastoreava em Paraguaçu Paulista. Ao entrarmos havia uma sala e logo ao lado a suíte da Diretora. Depois havia a sala de jantar e estudos, a cozinha com fogão à lenha e dispensa, e o corredor que comportava dois quartos de cada lado, um banheiro com duas pias, dois vasos e dois chuveiros frios pois não havia luz elétrica. Estudávamos com lampião, lamparina e vela quando, às vezes, acabava o querosene. O tanque para lavar a roupa era lá embaixo perto do “rio”. A água era bombeada  duas vezes por dia e ia para o uso de todo o Conceição.

Havia no JMC professores que na maioria eram pastores e vinham de trem da Sorocabana. O reverendo Henrique Maurer e Da. Branca moravam no Conceição mas depois se mudaram para São Paulo. Ele foi um professor fiel e marcante em minha vida

E tive o privilégio de ser sua aluna durante muito tempo. Creio que o reverendo Henrique Temudo Lessa também vinha de trem para lecionar. Lembro-me do Reverendo Motta, Reverendo Fernando Buonaducce, professor Isaac Nicolau Salum, Professor Dario Bastose Da. Eunice que vieram morar no Conceição. Peço desculpas porque sei que havia mais pessoas mas não consigo me lembrar.

Da. Ana Rickli, Da. Nina Lima que era secretária do Mr. Harper e Da. Nena que era uma das professoras, moravam conosco.

Todos os dias antes do almoço, havia culto do outro lado da linha, o “lado dos rapazes”. Tocava o grande sino para o culto e lá estavam o dirigente, o organista e pregador e todos os alunos. Tudo era feito através de “escalas”, porém sempre havia visitantes e missionários americanos que geralmente nos traziam mensagens diferentes e abriam as nossas mentes intelectual e espiritualmente. Nós do JMC éramos muito privilegiados podendo ter contato com pessoas que nunca poderíamos conhecer, vindos de toda parte.

No grande refeitório dos rapazes almoçavam todos os professores, alunos, trabalhadores e visitantes. Havia uma “escala” de cozinha e, rapazes que nunca tinha entrado numa cozinha iam cozinhar para aprender. Imaginem uma semana de abóbora ou chuchu , mas o feijão e arroz não faltavam. As verduras vinham nadando em algo que parecia água e sal. Mas o fato era que a alimentação assim se tornava barata, ajudando ,muito nas despesas dos estudantes candidatos ao ministério.

Anos mais tarde apareceram cozinheira e família, o que melhorou bastante nosso menu vegetariano. O jantar era preparado em suas próprias casas. Na casa das moças também era feito com “escalas”. Era até divertido porém perdia-se muito tempo por causa do fogão à lenha.

Após o jantar, algumas vezes íamos ao outro lado da estação para comprar doces caseiros. Ali nós precisávamos escolher onde pisar e, com a luz do lampião distinguíamos uma figura idosa e rechonchuda que dizia para tudo “tana bona”.

Havia outro culto na casa das moças que também obedecia uma “escala” e, somente após tudo isso é que íamos estudar. E então ao final do dia tínhamos o momento que cada uma se recolhia para a leitura e oração. Era muito bom para aprendermos a dar tempo para o alimento espiritual.

Durante o ano nós estudávamos com livros muito velhos e em inglês, que no final do ano devolvíamos com o pequeno aluguel. Era mais um fator que facilitava as despesas em nossa vida estudantina. Os livros que usei foram de Álgebra, Geometria, Trigonometria, Psicologia, Grego e diversos clássicos. O  resto era em português, o que nos dava alívio pois em inglês tínhamos que andar com um dicionário. Para mim a luta era maior porque nem português entendia bem já que havia chegado do Japão há oito anos e não conhecia a língua e os costumes sendo muito difícil ler em português. A Bíblia tinha que ser em japonês, mas lutei de verdade e Deus me ajudou. Tinha vontade, gostava de desafios e não perdia tempo.

No dia dos namorados, alguns rapazes vinham fazer serenata nas janelas da casa das moças. Cantavam para suas namoradas mas nós todas  aproveitávamos para ouvir. Era muito lindo!

Aos sábados à noite havia reuniões dos grêmios para desenvolver o talento dos alunos. Havia grêmios religiosos e literários onde os alunos cantavam, declamavam poesias, liam artigos ou poemas de sua autoria, discutiam temas diversos, etc.

Em 1943 e 44, em plena Segunda Guerra Mundial, a situação foi ficando muito difícil para o eixo. Alemães, italianos e japoneses. Aqui no Brasil de repente começaram achar que o tintureiro da praça era espião do governo japonês. Havia perseguição: os agricultores japoneses perderam ferramentas de trabalho, os que carregavam Bíblia japonesa foram presos. Era época de completo absurdo, com mortes injustificáveis.

Quanto aos manuelinos, para tomar o trem da Sorocabana até o JMC era preciso gastar tempo e desgastar os nervos para tirar o salvo conduto. No entanto os fiscais tiravam o salvo conduto quando deveria somente dar o visto para ser usado três ou quatro vezes. Não me lembro bem se foi no fim de 1945 ou no começo de 1946 mas, de repente não precisava nada mais além da passagem para viajar no trem. O JMC era dirigido pelos missionários americanos mas nunca ouvi uma só palavra que fosse me desagradar e os alunos eram todos muito educados e ótimos colegas.

Os missionários presbiterianos americanos iam de sete em sete anos descansar e estudar para atualizar suas matérias nos Estado Unidos. Em 1946 o casal Harper viajou e D. Evelina deixou-me todas as matérias que lecionava e o coral para que prosseguisse. Deus me deu coragem e forças para desempenhar a função. Deus seja louvado! Ele foi misericordioso e carregou o meu fardo.

Da. Evelina Harper dedicava-se de corpo e alma à música com coral, ensino de órgão, de voz e de regência. Confesso que recebi sobremaneira a sua atenção e com isto nossa igreja Evangélica Holiness ganhou um coral durante muitos anos desde 1939. Isto se deu logo que aprendemos a cantar em duas e depois quatro vozes. Mais tarde quando Mr. Alberto Ream esteve na Igreja Metodista Central, D. Evelina me escolheu justamente com alguns outros para estudarmos regência com ele. E durante dois anos fomos junto com o casal Harper toas as segundas feiras à noite para São Paulo e voltávamos no trem das onze horas para o Conceição.

O coral do JMC era muito conhecido nas igrejas da cidade de São Paulo. Chamávamos atenção pois íamos cantar de uniforme o que era novidade na época. Nas férias D. Evelina formava o coral “”Caravana Evangélica Musical” que viajava pelo interior. As igrejas se responsabilizavam pela hospedagem. Após cantar dormíamos em casas de membros da igreja. Certa vez estive numa casa onde me deram uma lata de banha com água para o meu banho e a comida foi farinha de milho com leite. Agradeci a Deus e, por muito tempo não conseguia me lembrar daqueles irmãos sem me emocionar, pelo que fizeram para receber o coral em sua igreja.

O coral chegava quase sempre  na hora de ensaiar rapidamente, cantar à noite e dormir para logo cedo reunir-se na estação para a próxima cidade. Este era o nosso programa. Nada de passeios, nada de restaurante. Cansávamos muito mas estávamos  sempre satisfeitos tendo convicção de estar fazendo tudo  para o crescimento da obra de Deus. Era muita alegria também! Fomos algumas vezes à cadeia e à algumas emissoras de rádio no interior. Era novidade ouvir-se algo religioso evangelístico em rádio, mas Mr. Harper estava sempre presente e ajudava o coral em todos os sentidos, além de pregar e cantar. Deus estava com o casal e o coral.

Para mim o JMC foi uma bênção de Deus. Eu que estava feliz quando estava estudando me sentia no lugar certo. No último ano de minha permanência o Conceição já estava bem diferente, com luz elétrica nas casas, chuveiro quente, fogão à gás, ponte de madeira e outros melhoramentos.

Recebi muita atenção, muito favor, muita bondade e carinho. Tiveram paciência com uma japonesa que nada conhecia sobre a vida brasileira. Muito obrigado por tudo, meu Deus!

Transcrito aqui em São Paulo, 6 de Novembro de 2015.

Uma Breve Biografia Impressionista do Casal Harper, Visto pelos seus Filhos [ENG]

“Quem é aquela gente que vive cantando?

Introduction

Our first memories are those where sung melodies paced and filled our small world at home at JMC.  Soon it became clear to us that others outside the house, down the road in the Casa das Moças, across the ponte above the Jordão, into the dormitórios and classrooms  of the college, knew and practised those solfégios and hymns with  diligence..  Even our white dog, Fluffy, sat back on the front porch, wolf-like, and howled in concert when the first stanzas of “Ao Deus de Abrão Louvai” poured across the valley.  We are not surprised, therefore, to discover,  fifty years later,  from among  the hundreds of recently acquired letters written by our parents to their families and friends, one significant quote.  With the advantage of hindsight, it seems to us that the paragraph catches neatly a strong dimension of our parents’ character and  faith.

 “The music has almost gotten out of hand”, writes Evelyn, “I am happy to say, even though it creates a big problem of how best to take advantage of all the enthusiasm. A short time ago one of our neighbors in Jandira told me that a newcomer in the neighborhood stopped at his house one day to ask, pointing in the direction of JMC,  “Quem é aquela gente que vive cantando?” (Evelyn, in a letter written in 1945 to her church).

Cuiabá

Evelyn´s and Roy were first assigned, as missionaries under the Central Brazil Mission of the Presbyterian Church, USA, to work in direct evangelism in one of the most remote areas of Mato Grosso, with headquarters in Cuiabà. “They travelled widely by mule back, or over primitive roads in a model-T Ford”, states their official career profile, “as they learned to understand and speak Portuguese, and came to know and love the Brazilian people”.  To read the personal letters written in those years (1925-27) to their parents, and more intimately to their brothers and sisters, handwritten or typed on the old Corona with sticking ribbons in the steam heat,  reveals a riveting glimpse:  that of  a youthful,  naïve, enthusiastic North American couple, very much in love, displaying boundless energy and curiosity, funny, confident in their Christian faith, always producing music (e.g. Roy’s trumpet, Evelyn’s harmonium) .

They became indignant over social injustices, such as over the obscurantism, superstition and filth surrounding parto practices and the family ravages of alcoholism.  They became the unwitting witnesses to Luis Carlos Prestes’ sweeps through the state on his way to Bolivia, and were thus rapidly introduced to political and military realities usually absent from missionary “orientation”.  They were overjoyed with the nieghborhood children, and with their families, who came to visit them in their modest quarters. Their letters speak of a place so devoid of comforts that they developed innovative energy-saving schemes and vegetable- production experiments  which were to prove extremely valuable in later  at JMC: reference is made here to the self-help work programme involving all students in their intellectual and manual labor, with a view to building a healthy appreciation of the dignity of work as a prerequesite of church leadership.

Jandira

 Such superb training in such unusual circumstances,  deep in Mato Grosso, prepared the Harper couple to participate, as of 1928 in a self-help educational experiment unique for its time: that of José Manuel da Conceição Insitute (JMC). It was unusual in that it gave an opportunity and a healthy framework to evangelical Protestant adolescent young men and women from the interior of Brazil from modest, if not poor, families, to prepare themselves for leadership in their churches: Presbyterian, Episcopal, Baptist, Methodist and several other denominations.

After their initial years Mato Gross, Roy and Evelyn Harper arrived at Jandira, where the early preparations for opening JMC were being made in 1927. They  received the first students for its initial courses on 8th February, 1928. (For the record, this turma, graduating in 1929, included Adolfo Machado Correia, Eduardo Pereira de Magalhães, Fernando Nanni, Martinho Rickli and Paulo Braga Mury) :  They first taught under the able leadership of Dr. W.A.Waddell –  Roy as teacher of Greek, Hebrew and the sciences, Evelyn taught English and Music. It was here that both contributed most effectively over the years to the life of JMC, and perhaps for which they are best remembered: thorough training in the biblical languages and in the physical and social sciences; the creation of the “Caravana Evangélica Musical” (CEM),  by which people in hundreds of churches, and praças públicas across Brazil were witnessed to, through A Cappella choirs made up of JMC students; a vast programme of music to prepare future lay and ordained church leaders as choral directors and organists in the churches, and the acquisition of skills in management and administration in church institutions and congregations.

In 1936, Roy was appointed the director of the school and remained in this position until 1952, when he took up new duties, in the city of São  Paulo,  as the treasurer of MacKenzie Institute, which had been founded by Presbyterian missionaries in 1870.  After nine years there, during which time Evelyn trained radio choirs for broadcasting and recording and participated fully in the liturgical and musical life of local churches, they returned to the USA, after 35 years of service in Brazil. Roy was particularly satisfied  then (1962) that,  for the first time since MacKenzie Institute’s founding, he was succeeded as treasurer by a Brazilian national.   Upon returning to the USA, for several years they assumed various responsibilities, out of San Fransisco, California, for interpretation of the Mission of the Church, in Brazil,  to churches in the western United States. Roy also received, in the Bay Area, young  Asian scholarship students.  In 1965 they retired to a home in Westminster Gardens, were they maintained close contact and rich correspondence with Brazilian colleagues, students, and friends. They continued serving the retired missionary community with administrative tasks and …music, always cantando..   

Edgerton

Charles Roy Harper was born on March 15, 1895 in Edgerton, a farming community in the central  state of Kansas in the USA. His father, Charles Sumner Harper, gave Roy three gifts: his height (well over 1m90); a love for agriculture and  wide horizons ;   and a deep respect for medicine and the human person. All three gifts served Roy in abundance later, at JMC –  his

enthusiasm and skill on the basketball court, a keen appreciation of the educational and practical benefits of horticulture and self-help schemes as a part of the student programmes, and his close cooperation with the Instituto Butantã, along with those students experienced in mata fauna, in the capture of numerous and often rare poisonous snakes for purposes of producing serum antidotes for bites.  From his mother, Carrie Erskine Harper, he gained a deep love of the rich biblical texts, read to him and to his older brother Meryl from early age on in the resonance of the King James’ version. She also taught him to care for others. He developed an unusual sense of humor and a keen eye for companions. He struck up friendships easily, with men and women. This became  evident  already as a sailor in the US Navy, stationed in San Francisco and later as a pharmacist and medical aid on troop ships crossing the Atlantic Ocean

during  World War One. Immediately following the war Roy enrolled in a four year pre-ministerial program at Monmouth College, a United Presbyterian institution, in Illinois, In 1921 he received his BA degree there, studied for the ministry at Princeton Theological Seminary (BD, 1924) while earning, the same year, an MA in literature from Princeton University.  In 1961 he received an honorary Doctor of Divinity degree from Monmouth.

Des Moines

Evelyn was born in Des Moines, Iowa, USA, on March 15th, 1899.  She was part of a large family of Presbyterian teachers, preachers and farmers. Her father, Alonzo C. Douglass, was the pastor of the local congregation, a preacher of considerable skill – not to mention imposing authority – and was himself the descendant of other ministers, farmers who emmigrated from Scotland and Ireland in the 18th century.  (It seems from recent research that another branch of the same extended Scottish-Irish clans, specializing in the production of distilled whiskey, made its way south to Kentucky, but that part of the family history was not easily made available to descendants of this branch…).

Alonzo later taught Pastoral Theology at Zenia Theological Seminary, in Pittsburg, Pennsylvania.  Evelyn was closest to her mother, Mary Margaret Findley Douglass, daughter of a Monmouth, Illinois couple of wide intellectual curiosity.  She imbued Evelyn with a passion for music – through the local choir, with the loyal Victrola record player (Lily Pons´ rendition of Delibe´s Lakmé was a favorite), and attending at every opportunity the rare coloratura soprano concert in some distant mid-west town hall!.  Mary was a soft-spoken woman, gentle and firm. She listened well.  These traits,  she clearly transmitted to  Evelyn. Quite frail as a young girl, she learned quickly a sense of self-defence, flexibility and tenacity by living with a vigorous set of four brothers and a sister. This characteristic: toughness under material circumstances as a young missionary in Cuiabà in the 1920s,  or travelling with the CEM choir in an open truck, in spite of her bouts with asthma in the 1940s,  served her well. Sensitivity, tenacity and vision prepared her to carry out her perceived calling to train young people to glorify God through music.

Evelyn also attended Monmouth College with this large group of siblings, and graduated from there and the Monmouth Conservatory of Music in 1923, with a BA degree.  In 1946 she pursued further studies under Dr. Williamson, director of the Westminister Choir College, in Princeton, New Jersey, and the with Dr. John Kelly at the School of Sacred Music at San Francisco Theological Seminary, in San Anselmo, California.

She married Roy in 1924. They were appointed for service in Brazil by the Board of Foreign Missions of the Presbyterian Church, USA., until their retirement in 1964.

Family

Roy and Evelyn had two children: Annabel Louise was born in 1929, in Long Beach, California.  Charles Roy (Royzinho),  in 1933, in São Paulo.  Each later enrolled at JMC for two years.   Annabel studied at Maryville College, related to the Presbyterian Church US, and then, at the University of New Mexico, training in education. In 1952 she married William Swenson,  who became basketball coach and the vice principle of the high school in Tracy, California, near San Francisco.  Members of the local Presbyterian Church, Ann and Bill have lived in Tracy for over forty years, and raised four children:  Robert, a graduate of the University of California and former professional football (US) player nine years with the Denver Broncos (daughters Lauren and Kristin) ; Linda, a primary school teacher now living and working in Santiago, Chile, with her husband Christian (Hans, Susie and Mark);  Bill, a professional housebuilder in Tracy, and his wife Frances (Willie);  and Susan, a computer programmer in Denver, who with her husband Michael, are recent parents of Hannah,

Charles (Roy) graduated from Wooster College, in Ohio (1954). He studied for the ordained ministry in San Francisco Theological Seminary (MDiv, 1958), did  graduate work in Political Science at the University of California, Los Angeles (MA, 1967). He married Babette Dammholz, of Berlin, in 1962 in Marseilles, France. They served in Algeria for three years in a reconstruction programme with the Christian Committee of Service in Algeria, and from 1967 on, in Geneva Switzerland – she with the Institut d’Action Culturelle (IDAC, founded with Paulo Freire),  and Charles as director of an international student house, the Foyer John Knox and since 1973 with the international affairs and human rights program of the  World Council of Churches. They had two children:  Caroline Anne,  a graphic artist in London, England,  married to Neil;  and  Steven Martin who lives in Rio de Janeiro and works as a professional tap-dancer, teacher and choreographer. With his wife Beth  (from Campo Grande, Mato Grosso) they have a daughter, Nina.

O coqueiro

We received many letters and personal messages written by former colleagues and students, friends and family, when they died (Roy, at Westminster Gardens, in 1979; Evelyn, also in Duarte, California,  ten years later). They are all eloquent,  evocative, and touching. They help us begin to appreciate more fully this vibrant couple, whom we now see more clearly or that we were able, as their children, to perceive.  As we read on in their remarkable correspondence, at different transition points, we can begin to understand the dilemmas,  joys tensions and triumphs in their lives among their beloved students, faculty colleagues and Jandira neighbors.

We quote here, from an esteemed  friend and former colleague, because it reflects  Evelyn and Roy quite as they might have liked to be remembered. It came from Gerson Meyer, as Manuelino as they come:

Querido Chuck,

Tu não te lembras da casinha pequenina
onde o nosso amor nasceu?
Tinha um coqueiro do lado que coitado de
saudade já morreu?

Você não crê que Deus gostaria de ouvir esse dueto cantado pelo Altão (“Moço, moço!”) e D. Evelina de vez em quando? Eu creio. Lembro-me sempre do alto e da baixinha (uso a palavra com amor) cantando em nossas reuniões nas noites de Sábado no Jota. Bem-aventurados aqueles que dormem no Senhor, pois as suas obras o seguem. Somos frutos dessa obra.

Cante comigo a Casinha Pequenina, e estaremos homenageando D. Evelina e o velho mestre Roy.

As we close this brief biographical sketch, we invite you, as we did in the letter which we wrote to our parents’ friends in 1989,  to trust that next to the casinha pequenina a coqueiro will flourish again and again, providing abundant fruit and refreshing shade for many.

Quem é aquela gente que vive no céu cantando …? 

Transcrito aqui em 6 de Novembro de 2015.

No Tempo do Conceição (por Loyde Amália Faustini)

O site do JMC despertou em mim a memória adormecida dos meus longínquos tempos de Conceição. Ao rever algumas fotos dessa época, novas lembranças surgiram em minha mente e, não resisti em externa-las. Tudo o que parecia apagado, começou a reaparecer, reviver e a ressurgir como se um livro começasse a ser lido.

Não, quem passou pelo Conceição, não se esquece das experiências lá vividas! Era um colégio único, diferente e jamais teremos outro igual. Fui aluna do Jota no ano de 1945. Tinha terminado o curso ginasial em escola do estado, na cidade de Pirajui, SP e, influenciada pela Martha, minha irmã, que estudara no Conceição alguns anos antes, fui para lá, onde matriculei-me  no 1º ano colegial. Muito jovem ainda e, pela primeira vez fora de casa, esse ano de estudos valeu pelas grandes e marcantes experiências  em minha vida.  Escola, ou melhor, educação de tempo integral, onde, além das aulas formais, aprendia-se a assumir responsabilidades, a cantar e a apreciar a boa música coral, a conhecer a bíblia, a praticar algum esporte, a conviver com regras baseadas na confiança e não na imposição e vigilância.

A rotina diária começava com o café da manhã na casa das moças e a corrida para as aulas que se iniciavam às 7 e meia e iam até às 10 e meia. A seguir, o culto diário e, depois, o almoço no refeitório, com todos os alunos. A tarde, em geral, era dedicada aos estudos, preparação de trabalhos, ensaios, esportes. O jantar também era feito na casa das moças. Havia uma escala e, em pequenos grupos, éramos encarregadas de prepara-lo. Pelo menos duas de nós deveríamos buscar enormes tigelas de feijão no refeitório da escola para complementar a refeição. À noite, reuniões, estudos, leituras, até o horário do apagar das luzes do colégio.Além de aprender a cozinhar em imensas panelas, tínhamos que lavar nossa própria roupa às margens do jordãozinho, coisas inusitadas para mim.

Aos sábados à noite, tínhamos reuniões alternadas dos grêmios Miguel Torres e Castro Alves. Aos domingos havia escola dominical e culto para os alunos que não tivessem outros compromissos com igrejas.

No culto diário, após as aulas, encontrávamos o diretor ou professores, missionários, visitantes ilustres que ocupavam o púlpito. Era também a oportunidade usada por d. Evelina, para treinar os muitos alunos-organistas que, muitas vezes tremendo, preparavam-se para o ofício.

Tive como “véias” a Silvia Magalhães Lima e a Adélia Rosa do Vale, duas grandes amigas. Foram meus colegas de classe os futuros pastores Elizeu Vieira Gonçalves, Egidio Costa, Lino Medeiros, Rubem Alberto, Adílio Gomes, Alcides de Matos, Palmiro Andrade e Darcy Amaral Camargo, além da Adélia. Tive aulas com o Rev, Renato, Rev. João Euclides, Rev. Buonaducci, prof. Dario. Fui aluna, ainda, de Mr. Harper (inglês) e d. Evelina (música), aulas que assistia na 4ª série.Tive um grande impacto quando, pela primeira vez, fiz provas sem a presença de professores. Esse fato marcou muito o resto de minha vida estudantil, coisa impensável em outra escola qualquer. A monotonia das aulas de história, associada ao livro de texto História Universal, de Oliveira Lima, que nada tinha de didático, fizeram-me apagar, por completo da memória, o conteúdo do que deveria ter sido aprendido. De Bello Galico, com comentários em inglês, para as aulas de latim, deixava-me confusa. Aulas de espanhol para quem só sabe portunhol, até que foi aproveitável. E o “princípio da isostasia,” por alguma razão, ainda me recordo da explicação do professor. Tudo, afinal deve ter contribuído, de alguma forma, para a minha formação futura…

As reuniões dos grêmios eram bem variadas.A recepção aos calouros que o Castro Alves promoveu naquele ano foi bastante simpática e muito ajudou na rápida integração com os colegas veteranos. Nós, novatos, ficávamos “na berlinda” nas brincadeiras, para a alegria dos demais alunos. Numa delas, tivemos que fazer uma longa lista de ações, lugares etc. Depois, ao ser lido um questionário, essas listas formavam frases e criavam as mais divertidas situações para a diversão dos presentes. Em outras reuniões, lembro-me de ouvir o José Costa declamar, com toda a emoção e entusiasmo, o Navio Negreiros, de Castro Alves. Parece-me ouvi-lo: “Estamos em alto mar…”. Nesse ano, conforme uma foto disponível, a diretoria eleita do Grêmio Castro Alves éramos o Carlos Monteiro (presidente), Violeta Graham e eu.

Após as reuniões dos grêmios, íamos todos para a refeitório, para um chazinho ou café e brincadeiras de salão. Qual o manuelino que não participou do “Há um macaco na roda….”, “Minha direita está vaga…” ? Quantos namoros, declarações de amor aconteceram nesse ambiente, como também no convívio diário? Os correios amorosos eram sempre colegas mais chegados ou livros que serviam para a troca de correspondência, dentro dos quais sempre havia um bilhete, uma cartinha especial…

Certo dia, as moças foram avisadas pela diretora da casa, d. Nena, que Mr. Harper viria conversar conosco, logo após o jantar. Foi um alvoroço geral, já que isso não era comum acontecer. Na hora marcada, lá apareceu o diretor que, muito solene e com grande tato, passou o seu recado, aconselhando as moças a não namorarem durante o curso porque, na certa, não haveria futuro para esse relacionamento pois, dentro em pouco, cada um voltaria para seus lares e para suas atividades. Para enfatizar, disse mais ou menos o seguinte: “O namoro aqui é como um cogumelo  à beira do rio, cresce logo, mas, dura muito pouco.” Por muito tempo, esse “discurso”foi motivo de muita risada entre as moças.

Quanto pernilongo havia por lá nessa época! Ao anoitecer, enquanto conversávamos ao ar livre, nuvens desses insetos cobriam nossas cabeças, com seu zumbido impertinente e picadas indesejadas! Era impossível dormir sem ter, cada um o seu próprio mosqueteiro.

Diversas comemorações marcavam a vida do Colégio. Uma era o Dia do Conceição, cujo programa era preparado com esmero e os alunos eram escalados para diferentes tarefas. Nessa ocasião, a memória dos fundadores era relembrada. Aprendíamos a cantar o Hino do Conceição. Muitos ex-alunos compareciam e participavam das atividades.As igrejas de São Paulo e de cidades vizinhas também costumavam visitar amigos e participar desses eventos festivos.. De manhã havia culto especial, programas musicais; à tarde, piqueniques, competições esportivas e sociabilidade. Barracas eram armadas para a venda, pelos alunos, de lanches para os visitantes. Uma outra era o Dia da Comunidade. Era o dia da faxina geral da escola e da limpeza especial dos quartos.O colégio parecia transformar-se em um formigueiro humano. Tudo saia do lugar e o almoço era servido em filas indianas, fora do refeitório. No final da tarde,depois de tanta labuta, vinha a recompensa tão desejada: permissão para visitar os alojamentos de todos os alunos do Colégio, para conferir a limpeza feita e premiar os mais esforçados. Era uma verdadeira diversão através de um trabalho altamente motivado.

De modo especial, dois fatos ficaram gravados em minha memória. O primeiro foi um piquenique promovido pela própria direção da escola e realizado em Cotia. Para lá todos os alunos se moveram e passamos um dia alegre com jogos, brincadeiras, disputas e passeios. O dia seguinte era o dia da Páscoa e Mr. Harper havia convidado todos os alunos para participarem de um culto, às 6 horas da manhã, junto à figueira. Aconteceu que a freqüência foi bem abaixo do esperado. Logo descobriu-se o motivo: alguma comida servida no dia anterior tinha feito mal para muita gente que teve que se levantar durante a noite e não conseguiu chegar até lá.O segundo fato foi a eleição da primeira rainha do Conceição. O grêmio resolveu fazer uma campanha para levantar fundos para a compra de livros e ampliação da biblioteca e o meio utilizado foi a venda de votos para essa eleição. Para minha surpresa, fui a eleita! A coroação se deu em uma reunião festiva do grêmio, sendo a rainha introduzida solenemente pelo diretor, com discurso e tudo o mais. Não sei se houve repetição desse fato, posteriormente…

Um dos grandes privilégios que tive enquanto aluna foi participar da Caravana Evangélica Musical dirigida por d. Evelina que, nesse ano realizava a sua sexta viagem. Que emoção senti ao ser convidada para sacrificar minhas férias de junho para viajar com a Caravana, já tão famosa! O grupo compunha-se de 11 moças e 13 rapazes. Viajamos de trem, de ônibus e, boa parte, de caminhão. Nem sentíamos o desconforto da viagem pois, como sempre, o grupo era muito bem recebido pelas igrejas hospedeiras. Visitamos algumas igrejas da Capital e, depois fomos para Campinas, Ribeirão Preto (SP), Uberaba, Uberlândia, Araguari (MG), Anápolis, Goiania e Rio Verde (GO). Ainda nem se cogitava de Brasília. Cantávamos nas igrejas das cidades, em praças públicas, em estações ferroviárias, em rádios e em hospitais. Numa dessas cidades, a Carmem Vilá ficou doente e teve que ser internada em hospital e só voltou ao colégio depois de recuperada. Em Anápolis conhecemos o Hospital Evangélico e o trabalho do Dr. Fanstone, então seu diretor. Goiania, cidade planejada, apenas mostrava o início de seu crescimento futuro.Em Rio Verde conhecemos Dr. Gordon e d. Helena, missionários radicados na cidade que ali fundaram e deixaram um hospital e uma escola de enfermagem. A Maurita incorporou-se à Caravana para vir estudar no Conceição. Dali em diante, a viagem prosseguiu de caminhão, com diversos sacos de arroz doados, servindo de assentos aos caravanistas. Lembro-me de que, depois disso, no colégio, por muitos dias comíamos arroz precisando separar a grande quantidade de carunchos que os cozinheiros não davam conta de limpar…

Muitos hinos fazem-me lembrar de d. Evelina e de seu carisma  diante do coro, ao rege-los. Na verdade, são músicas e hinos que, ainda hoje, ligam todos os manuelinos como se fossem uma só família. Dentre eles, a Bênção Aaraônica, de Peter Lutkin,  o Aleluia, de Handel e o Elevo os meus olhos, de Mendelsshon que, até hoje canto decór, fazem-me sentir a presença marcante de D. Evelina à frente do coro.

Em 1950 voltei ao Conceição para dar aulas de Música e de História do Brasil, para a 4ª série ginasial. Estava ensaiando minha carreira no magistério e essa experiência muito me ajudou nessa profissão. Alunos desse época: Sergio Paulo Freddi, Josias de Almeida, Takashi Shimizu, Soroku…. E., muitas vezes ainda voltei por lá. Depois que o João, meu irmão, foi para o Jota e, aos poucos, começou a assumir, tanto a Caravana Evangélica Musical, como o Departamento de Música do Colégio, tinha sempre motivos para lá voltar. Outras caravanas musicais, dias do Conceição, aulas de canto, seminários de música e até os preparativos para uma viagem frustrada aos Estados Unidos. Mas, sei que se agora quiser voltar lá outra vez, lamentavelmente, nunca mais encontrarei aquele querido Colégio de todos nós.

Loyde Amália Faustini
Janeiro de 1998

Transcrito aqui em 6 de Novembro de 2015.