Perfil de João Wilson Faustini (por Rolando de Nassau)

(Dedicado ao leitor Eduardo Chaves, de Salto, SP)

“Nossa identidade pessoal é totalmente dependente de nossa memória” (John Locke, citado por Eduardo Chaves)

João Wilson Faustini (1931-    ) tem motivo para ser um músico alegre; nascido em Bariri (SP) em 20 de novembro, sua data de nascimento foi escolhida pela Igreja Presbiteriana Independente do Brasil como “Dia do Músico Evangélico” (“O Estandarte”, nov. 2011).

Desde menino, foi muito interessado em hinologia, música sacra e música coral. Aos 13 anos de idade, era o único organista da IPI de Pirajuí (SP).

De 1948 a 1951, foi o aluno no. 611 no Instituto Presbiteriano “José Manuel da Conceição”, em Jandira (SP), onde estudou regência coral e participou do coro regido por Evelina Harper (http://tecnicasderegencia.blogspot.com.br/2013/05).

De 1952 a 1955, Faustini fez o curso de bacharel em música no “Westminster Choir College”, em Princeton, NJ (USA), com ênfase em órgão e canto; também estudou regência coral com John Finley Williamson; aperfeiçoou-se com Robert Shaw e Wilhelm Ehmann. Foi o primeiro brasileiro nessa instituição de alto nível.

De 1955 a 1964, dirigiu o Departamento de Música do “JMC”, onde promoveu anualmente seminários e festivais; em 1959 organizou um Encontro de Corais (que assisti), com a participação de mais de mil cantores.

Atendendo ao convite de Faustini, fui a Jandira (SP) para assistir o Festival de Música Sacra (OJB, 08 out 59). Recebido por Faustini, passei pelo mesmo portão gradeado, construído em 1948, quando e por onde ele ingressou no “JMC”; dista 30 quilometros da capital. Foi fundado em 1928 e fechado em 1970, em pleno regimeautoritário. O festival foi realizado no Auditório “Waddell”.

O segredo do desenvolvimento intelectual e cultural dos alunos estava no fato de que tinham um projeto-de-vida bem definido, tinham motivação para estudar certas matérias; num ambiente de que participavam os professores, os internosdedicavam muito tempo ao estudo. O “JMC” era uma instituição educacional.

Nos “anos dourados” (1953-1959) no Rio de Janeiro e em São Paulo, havia, nos fins-de-semana, concertos sinfônicos para a juventude. Eduardo Chaves conta que, numa apresentação da Sinfonia Coral de Beethoven, ao seu lado estava Faustini, que, na “Ode à Alegria”, liberou abundantes lágrimas … Num Domingo de Páscoa, regendo “Fugi, tristeza e horror”, Faustini também chorou …

Por causa da sua tenacidade, Faustini ficou conhecido como regente excepcional, especialmente quando dirigiu a música na Cruzada Evangelística de Billy Graham e apresentou o Coro Evangélico no Teatro Municipal de São Paulo.

Faustini teve como discípulos os maestros Zuínglio Faustini, Davi Machado, Luiz Roberto Borges, Lutero Rodrigues e Parcival Módolo, e as organistas Dorotéa Kerr e Elisa Freixo.

Fiquei impressionado com a competência de Faustini na regência, adquirida no “Westminster”, e sua humildade na direção dos jovens do “JMC”. Também éramos jovens; Faustini tinha buscado o ambiente dos sons; eu, ainda procurava um caminho para as letras.

Ambos tínhamos adotado nossos pseudônimos. Em 1958, Faustini traduziu o hino “God of Our Fathers” (Deus dos Antigos). Um famoso pregador ouviu atradução, mas ficou empolgado com a música. Não gostou da letra, e disse a Faustini:

“Você pode ser bom músico, mas deixe que os poetas façam os textos dos hinos”.

Faustini fez uma nova tradução; atribuiu a letra ao seu pseudônimo “J. Costa”. Aquele pregador logo disse: “Este sim é um bom poeta!” … (Rolando de Nassau, “Memórias”, http://www.abordo.com.br/nassau/).

Em 1963, formou-se em canto orfeônico e canto pela Escola Paulista de Música. Nos EUA e no Brasil, Faustini apresentou-se em muitos recitais de canto.

De 1964 a 1972, foi organista da “Saint Paul’s Presbyterian Church”, em Newark, NJ (USA), igreja de fala portuguesa.

Em 1966, tornou-se mestre em música sacra (especialização em composição) na escola de música do “Union Theological Seminary”, em New York, NY (USA), sob a orientação de Joseph Goodman.

Em 1967, foi colega de João Dias de Araújo no “Princeton Theological Seminary”, em Princeton, NJ (USA).

Nos últimos 46 anos, Faustini revelou-se profícuo compositor: os antemas e hinos reunidos na “Coleção Evelina Harper”; as coletâneas “Os Céus Proclamam”, “Ecos de Louvor”, “Louvemos a Deus”, “When Breaks the Dawn”, “Brazilian Organ Music”, “Cantai ao Senhor”, “Dádiva Divina” e “Queremos Te Louvar (para uso congregacional e coral), além de um hinário com 61 hinos.

Publicado em 1972, o hinário “Seja louvado” contém 175 hinos inteiramente novos na língua portuguesa (“ULTIMATO”, set. 77). Faustini contribuiu, em 1990, para o “HCC”, com 33 hinos por ele traduzidos.

Em 1973 seu livro “Música e Adoração” começou a difundir noções históricas e práticas ainda muito úteis aos músicos evangélicos no Brasil.

Regente do Coro da PIPI de São Paulo (1972-1975), foi ordenado ministro de música da Catedral Evangélica, cargo que exerceu entre 1976 e 1981, sendo o primeiro no Brasil entre os Evangélicos.

Em 1980, Faustini publicou “Música e Teologia Hoje”, cujas teses endossamos inteiramente; nesse opúsculo expunha a idéia de que todo músico de igreja deveria conhecer teologia. Ele mesmo foi o primeiro ministro de música a ser ordenado pastor (OJB, 04 e 11 jan 81).

Na segunda estadia fora do Brasil (1982-1996), foi novamente ministro da igreja presbiteriana em Newark, NJ (USA); depois (1997-2006),  foi organista e regente coral de uma igreja presbiteriana em Elizabeth, NJ (USA).

Esteve no Brasil em 1988 e 1989 participando de dois seminários, que em 1990 serviram de base para a SOEMUS (Sociedade Evangélica de Música Sacra), da qual é patrono. Em 22 de maio de 2013, na capela anexa à Embaixada do Brasil em Roma, a organista Elisa Freixo executou a peça “Currupio”, de Faustini.

O índice das obras de Faustini está disponível no site http://hinocristao.com/faustini/publicadas/ .

Pela quantidade e qualidade das obras e atividades, Faustini merece ser considerado um dos mais importantes músicos evangélicos do Brasil.

Em 31 de Julho de 2013

O Hino do JMC

HINO DO JMC

Os efeitos da luz nos surpreendem
Nestes campos banhados de sol.
Relvas, flores, campinas resplendem
Como as tintas de um claro arrebol.

Estribilho:

Luz é vida, esplendor, harmonia,
Saturemos nossa alma de luz.
Que seus dons seu encanto magia,
No Brasil se derrame a flux.

E a ciência qual sol ressurgindo
Luz, espelha e beleza em redor:
Esplendendo, saneando, fulgindo
Torna a vida mais bela e melhor.

Mas de vida mais alta ciência
Do evangelho se ostenta imortal.
De perene divina influência
Saneadora do mundo moral.

Sob o signo ouro azul do Cruzeiro
De fé viva um clarão irrompeu:
“Conceição” da verdade luzei
Que em Jandira o amor acendeu.

(Joaquim S. Costa, 1967)

José Manuel da Conceição (por Émile-G. Léonard)

[De Émile-G.Léonard, O Protestantismo Brasileiro: Estudo de Eclesiologia e História Social, tradução do manuscrito original em francês por Linneu de Camargo Schützer, ASTE, São Paulo, SP, 1963, pp.56-58]

José Manuel da Conceição [1] foi o homem que abriria ao protestantismo o interior do Brasil — conquistando não apenas indivíduos isolados mas famílias extensas e sólidas —, assegurando, assim,  seu estabelecimento, foi um padre. Esta particularidade — que nos reconduz à época da Reforma e às facilidades que ela encontrou  no ministério sacerdotal de um Zwinglio e muitos outros — corresponde também àquilo que fôra o sonho de Feijó: a reforma da Igreja brasileira por um padre brasileiro.

Nascido em São Paulo em 1822, José Manuel da Costa Santos, que tomou o nome de José Manuel da Conceição, tornou-se padre em 1845, após brilhantes estudos realizados em Sorocaba, onde seu tio-avô era cura, e no seminário diocesano. As relações que teve bem cedo com estrageiros protestantes, entretanto, o gosto pela leitura da Bíblia que estes lhe inspiraram, a tradução alemã de uma História Sagrada do Antigo e Novo Testamento publicada pela editora protestante do Rio, Laemmert, mas sem a autorização episcopal, valeram-lhe, em pouco tempo, a alcunha de “padre protestante” e a suspeita da autoridade diocesana. Esta mantinha-o nas funções de vigário encomendado, enviando-o durante quinze anos a uma dezena de paróquias, Limeira, Piracicaba, Monte-Mor, Taubaté, Ubatuba, Santa Bárbara e, finalmente, Brotas, para onde foi transferido em 1860. Os bispos protegiam, assim, seus fiéis, contra uma  influência que, sendo exercida durante muito tempo, pensavam, tornar-se-ia nociva; mas, como se afirmou, “sem que o percebessem, traçavam o itinerário da Reforma na sua diocese”.

 Esta má vontade por parte da hierarquia mostrava ao Pe. Conceição a impossibilidade de realizar esta reforma da Igreja no plano local, ao qual se consagrava, procurando, em cada uma de suas paróquias, reavivar a vida espiritual, centralizando-a na leitura da Bíblia. Conhece profundas crises vocacionais que ajuntaram ao seu cognome “padre protestante” o de “padre louco”. Parece que Brotas, por algum tempo, restituiu-lhe a paz. Essa povoação recentemente fundada (datando de cerca de 1840) era povoada por pequenos fazendeiros, grande parte vinda do sul de Minas, os Gouvea, os Cerqueira Leite, os Garcia, os Lima. Pessoas ativas, decididas e progressistas, aprovaram sem dificuldade a construção de uma nova igreja e a substituição da velha imagem da padroeira do santuário Nossa Senhora das Dores. Conceição pregou-lhes a leitura da Bíblia, e conta-se que um velho, havendo descido com enorme esforço da serra, para se informar sobre o que havia, respondeu: “Então vou aprender a ler para estudá-la”, e o fez. Às noivas que procuravam confessar-se antes de seu casamento, Conceição respondia: “Eu e você precisamos nos confessar a Deus e não aos homens”.

Este episódio nos mostra que, nesse mês de março de 1862, ele procurava apenas melhorar as condições da vida religiosa na sua paróquia. Passava por uma profunda crise espiritual, exatamente a da questão da salvação e do valor meritório das obras. Como Lutero, condenava as indulgências que proporcionavam uma falsa paz, acusando a Igreja pelo seu “sistema de comutação” que “implica e explica a negação da graça de Jesus”. Não lhe sendo possível continuar no exercício do ministério, quis abandoná-lo, tendo sido, por sua vontade, dispensado apenas de suas funções propriamente sacerdotais, após o que foi viver como simples particular, em uma pequena casa de campo nos arredores de Rio Claro. Aí foi encontrá-lo o missionário Blackford, atraído pela fama do “padre protestante”. Este acabou por ceder às suas exortações, batizando-se na Igreja Presbiteriana do Rio em 23 de outubro de 1864. Sua decisão, entretanto, também não lhe proporcionou a paz interior. Nova crise manifestou-se nele, em virtude da advertência bíblica “Não se zomba de Deus”, crise que provinha de sua consciência de que não era bastante haver abandonado os erros da Igreja roamana, depois de havê-los divulgado por tanto tempo. Três vezes evitou seus amigos missionários, subtraindo-se às syas visitas, até que, finalmente, estas outras palavras da Bíblia “O sangue de Jesus Cristo purifica de todo pecado” trouxeram-lhe tranqüilidade ao coração. Escreveu então uma Profissão de Fé Evangélica onde narra suas lutas espirituais, num estilo convulsivo e ardente, uma das mais belas obras da mística protestante [2]. Protestante pelas experiências e afirmações dogmáticas nas quais repousa, guarda ela profundamente, entretanto, o tom da literatura espiritual e da piedade católica. Neste ponto, como veremos, é o espelho fiel de seu autor.

Brotas fôra a última paróquia onde o Pe. Conceição exercera o ministério católico. Possuia ali lácos familiaries desde que sua irmã mais moça, Tudica, se casara com um Cerqueira Leite. Muitos de seus paroquianos haviam conhecido suas lutas espirituais e alguns as haviam mesmo partilhado. Além disso, os missionários seus amigos haviam iniciado ali um trabvalho de propaganda com grande resultado, e esse foi o ponto decisivo: dirigiu-se a Brotas em meados de outubro a fim de tomar parte na campanha de pregações que deveria realizar-se durante diversas semanas, havendo pregações de casa em casa. Eis uma descrição das duas últimas reuniões, feitas por Blackford, que nos mostra o modo como eram realizadas e como se criou o primeiro núcleo protestante verdadeiramente brasileiro.

[O texto continua por várias páginas mais, até a p.67. Seria muito demorado transcreve-lo por inteiro. O que foi transcrito fica como “aperitivo”…].

NOTAS

[1] Sua biografia foi escrita pelo coronel Fausto de Souza, ligado a ele em circunstâncias memoráveis, como veremos mais adiante. Foi tratada também por Vicente Themudo Lessa, Padre José Manuel da Conceição (2ª , 1935). Acaba de aparecer (1950) um bom estudo feito pelo Rev. Boanerges Ribeiro, onde se encontrará uma bibliografia completa. [Nota de Eduardo Chaves: O livro, que teve o título de O Padre Protestante, foi publicado pela Casa Editora Presbiteriana, São Paulo, SP, em 1950].

[2] Encontramos grandes passagens desse livro na obra de Rev. Boanerges Ribeiro que acaba de ser publicada, sob o título O Padre Protestante (São Paulo, 1950). [Nota de Eduardo Chaves: o autor não explica porque não citou o nome do livro na nota anterior].

Transcrito aqui em São Paulo, 6 de Novembro de 2016

Memória, Identidade e o “Ser Manuelino”

[Micropalestra que fiz em Jandira, SP, 20 de Junho de 1998, por ocasião de encontro dos ex-alunos do JMC. Eduardo Chaves]

Queridos Manuelinos:

O Takashi me pediu para coordenar os trabalhos aqui hoje (20/6), neste nosso encontro anual (1998) em Jandira (SP). O Gerson Lacerda se responsabilizará pela parte devocional, nós, sem a menor dúvida, vamos cantar, e vamos discutir algumas coisas eminentemente práticas. Mas eu não poderia iniciar esta reunião sem fazer algumas reflexões de natureza teórico-prática com vocês. Parte do que vou dizer já disse antes – na verdade, já venho dizendo há tempo. A outra parte foi se cristalizando na minha mente à medida que pensava em algo interessante para dizer para vocês aqui hoje. Sou filósofo. Por isso minhas reflexões não deixarão de ter um tom meio filosófico.

John Locke, filósofo inglês do século XVII, defendeu a tese de que nossa identidade pessoal é totalmente dependente de nossa memória. Ele argumentou de várias formas em defesa dessa tese. Mas, no fundo, ele achava que a tese era bastante autoevidente. Ele propôs o seguinte “experimento teórico” aos seus leitores. Imaginemos que numa determinada cidade vivam um príncipe e um sapateiro. Eles nunca se encontraram e não se conhecem. Uma bela manhã, entretanto, o sapateiro acorda totalmente sem as suas memórias, mas com as memórias do príncipe, e diz: “O que estou fazendo aqui neste local imundo? E com essas roupas horríveis? Mordomo! Onde você está?” Nada de mordomo. “Rainha, onde você está?” Nada de rainha. No lugar dela aparece a mulher do sapateiro. O príncipe diz: “Quem é você? O que estou fazendo aqui? Onde está meu mordomo?” Etc. (Os diálogos estou inventando, não são de Locke). Por outro lado, o príncipe acorda totalmente sem as suas memórias, mas com as do sapateiro, e também desconhece o local em que está, sentindo-se perdido no palácio, querendo ir embora para sua casa na periferia da cidade. Segundo Locke, se isso acontecesse, nós sem dúvida diríamos que o príncipe e o sapateiro haviam trocado de identidade. Pura e simplesmente.

Há muito a favor da tese de Locke. Quando alguém tem amnésia total, em virtude algum acidente ou de alguma doença, passa, em um sentido importante do termo, a ser outra pessoa. Começa vida nova. Adquire nova identidade. Há um filme de muito interessante de Harrison Ford em que isso acontece com ele, chamado Regarding Henry (de 1991)>

Também há um livro de ficção científica famoso, escrito por Robert Heinlein, em que se defende tese semelhante, I Will Fear no Evil (Não Temerei Mal Algum), em que o cérebro perfeitamente sadio de um velho cujo corpo era mantido vivo por instrumentos, e que era podre de rico, é transplantado para o corpo de uma linda moça, sua secretária. O autor gasta uma boa quantidade de páginas argumentando que o a pessoa que passou a existir no corpo da moça era de fato o velho, que mudou de corpo, adquirindo um novo (e bem mais apresentável!) – porque as memórias preservadas no cérebro transplantado eram as do velho, e, portanto, a identidade que permaneceu deveria ser a sua, a despeito do novo corpo.

Para que tanta discussão desse problema?

Porque estou convicto de que Locke estava certo e que é a memória a base da identidade pessoal. Na verdade, acredito que a memória é também a base da identidade de um povo ou de um grupo. É por isso que os Israelitas tinham que constantemente se lembrar de sua história. Preservar a sua história é manter a identidade de um povo ou de um grupo. Cultivar a memória é uma forma de manter a identidade em uma pessoa. Aquilo que eu esqueço deixa de ser parte de mim, deixa de ser parte de minha identidade.

Algumas vezes no passado me perguntei se ainda era protestante. Hoje não tenho dúvida. O Rubem Alves me convenceu de que sou. Sou, porque fui. Sou, porque vividamente me lembro de ter sido. Ser protestante é parte de minha memória viva, e, portanto, uma parte inextricável de minha identidade. (Vide o artigo do Rubem Alves que transcrevi em meu outro blog, em que ele discute isso: “Confissões de um Protestante Obstinado”, publicado em meu blog Liberal Space, em https://liberal.space/2015/10/07/confissoes-de-um-protestante-obstinado-depoimento-de-rubem-alves/.

Outras vezes no passado me dei conta de que ainda continuava amando as mulheres que amei. Hoje isso não me assusta, mais. Amo, porque amei. Amo, porque vividamente me lembro de tê-las amado. O amor que um dia senti de determinada forma é parte de minha memória viva, e, portanto, parte de minha identidade como pessoa, e, assim, ainda existe, ainda que não se expresse da mesma forma exterior.

Talvez essas considerações expliquem o que sinto pelo JMC – o que todos sentimos, acredito. Não gosto de me rotular, nem que me rotulem, de ex-Manuelino. Sou Manuelino até hoje. Sou, porque fui.

O que me causa espanto é que essa parece ser a experiência de todos os Manuelinos. Há uma surpreendente unanimidade entre os Manuelinos, que é o sentimento terno e carinhoso que mantêm pela escola. Basta olhar as mensagens deixadas no site. Uma vez Manuelino, sempre Manuelino. Somos Manuelinos, porque fomos. Somos, porque essa escola vive em nossa memória como uma das passagens mais importantes da nossa vida. Somos, porque é impossível que alguém realmente nos entenda hoje, num sentido profundo, sem entender o que essa escola significou para nós.

Lembro-me do que me contou o Dorival Xavier, no culto de 7/2/98. Disse-me que imprimiu minha vinheta sobre o JMC e fez cópias para seus filhos, dizendo: “Leiam isso aí, para que vocês saibam o que significa ser Manuelino”. Senti-me mais ou menos assim como deve ter se sentido o escritor sagrado, contando a história do povo de Israel, para que as novas gerações não perdessem a sua identidade.

A última turma a cursar o JMC o fez cerca de trinta anos atrás, em 1969 ou 1970, não estou bem certo. É possível que daqui a 50 anos não haja mais nenhum Manuelino vivo. A MENOS QUE ser Manuelino passe a ser mais um estado de espírito do que uma condição histórica. A MENOS QUE ser Manuelino passe a ser assim algo semelhante a ser Judeu, que mesmo sem ter nascido na Palestina, mesmo sem pátria, no exílio ou na diáspora, continuou a ser Judeu – porque se lembrava do Senhor seu Deus que o tirou da terra do Egito.

O nosso esforço com esta nossa Associação, como eu disse na abertura do site do JMC na Internet, é não permitir que a memória do JMC se perca, é preservar a memória, e, portanto, preservar a identidade do Manuelino – e, de certo forma, dar continuidade à raça, mesmo que de forma virtual.

Hoje, com computadores, grande parte da nossa memória está armazenada não no nosso cérebro, mas em meios magnéticos. Nossos computadores hoje passam a fazer parte de nossa identidade. O mesmo se dá no caso do JMC. O site do JMC na Internet é indispensável para a continuidade da raça. Como é o museu. E muitas outras coisas.

Já resgatamos nosso hino. Hoje temos aqui nossa bandeira, de novo, num trabalho de resgate histórico fenomenal do Takashi. Depois teremos nossas camisetas, nossos agasalhos. Aos poucos vamos recuperando fotos, histórias, objetos. Essas coisas são importantes, contudo, apenas pelas memórias que elas evocam e representam.

A esperança, dizia um professor meu do Seminário de Pittsburgh, se fundamenta na memória. Nós somos o que fomos, é verdade – mas somos também o que desejamos e esperamos ser. Nós somos o resultado dessa mescla de lembranças e sonhos, recordações e desejos, memória e esperança. O povo de Israel confiava na vinda do Messias (tinha esperança) porque se lembrava de que, no passado, Deus havia estado ao lado do seu povo (porque tinha memória).

A memória, já temos. Precisamos agora trabalhar para dar corpo ao nosso sonho. É a parte mais difícil, porque a memória é aquilo que foi – mas o futuro está aberto, pode ser o que sonhamos, e os sonhos são muitos, e muitas vezes incompatíveis. Mas é preciso trabalhar para procurar definir um horizonte na direção do qual caminhar.

É por isso que estamos mais uma vez aqui.

Bem-vindos a esse novo encontro dos Manuelinos.

Jandira, SP, 20 de Junho de 1998

Eduardo Chaves

Transcrito aqui em São Paulo em 6 de Novembro de 2015

Breves Notas Biográficas do Casal Roy e Evelina Harper, Visto pelos Filhos (PORT)

“Quem é aquela gente que vive cantando?”

Breves notas biográficas do Casal Roy e Evelina Harper, visto pelos filhos

Tradução de Rev. Jaime Wright

Introdução

Nossas primeiras lembranças são as melodias que tomavam conta do nosso pequeno mundo em casa, no JMC. Logo descobrimos que outras pessoas fora de nossa casa – na casa das moças, no outro lado da ponte sobre o Jordão, nos dormitórios e salas de aulas do colégio – sabiam e ensaiavam com zelo aqueles hinos e solfejos. Até o nosso cachorrinho branco Fluffy sentava na varanda e, como se fosse um lobo, uivava em concerto tão logo os primeiros versos de “Ao Deus de Abrão Louvai” jorravam do outro lado do vale. Não nos surpreendemos, portanto, ao descobrir, cinqüenta anos depois, entre centenas de cartas adquiridas recentemente, escritas pelos nossos pais aos seus familiares e amigos, um citação significativa. Com a vantagem de percepção tardia, parece que este parágrafo revela uma forte dimensão do caráter e fé dos nossos pais.

“A música está quase fora de controle, fico feliz em dizê-lo, mesmo que isso crie um enorme problema de como melhor aproveitar todo o entusiasmo existente. Alguns dias atrás, um dos nossos vizinhos em Jandira me contou que uma nova moradora na vizinhança havia parado em sua casa para perguntar, apontando na direção do JMC: “Quem é aquela gente que vive cantando?” [De uma carta escrita por Evelina à sua igreja nos EUA, em 1945.]

Cuiabá/ Rosário Oeste

Roy e Evelina eram membros da antiga missão Presbiteriana do Brasil Central (MPBC), pessoa jurídica no Brasil da Igreja Presbiteriana nos Estados Unidos da América. Foi a MPBC que designou o casal para o seu primeiro trabalho, evangelização numa das áreas mais remotas de Mato Grosso, com sede em Cuiabá. Segundo o perfil oficial de carreira, “eles viajaram largamente em lombo de mula, ou sobre estradas primitivas num forde-de-bigode, aprendendo a compreender e falar o português, levando-os a conhecer e amar o povo brasileiro”.

Ao ler as cartas pessoais escritas naqueles anos (1925-1927) aos seus pais e mais intimamente aos seus irmãos e irmãs, manuscritas ou datilografadas na velha Corona com fitas que grudavam no calor escaldante, a gente vislumbra um jovem casal norte-americano, ingênuo, entusiasmado, apaixonado, demonstrando energia e curiosidade sem limites, confiante em sua fé cristã, e sempre produzindo ,música, ele com pistão e ela com seu harmônio.

Eles se indignavam diante das injustiças sociais, do obscurantismo, da superstição e sujeira que cercavam a prática das parteiras, e dos estragos familiares resultantes do alcoolismo. Tornaram-se testemunhas involuntárias da passagem da Coluna Prestes pelo Mato Grosso a caminho da Bolívia, apresentados assim às realidades políticas e militares geralmente ausentes na orientação inicial dos missionários.

Eles se deleitavam com a criançada da vizinhança e com suas famílias que vinham visitá-los em seus modestos aposentos. Suas cartas descrevem Rosário Oeste como um lugar tão carente de conforto que eles inventaram esquemas para poupar energia e experiências na produção de verduras que seriam de muito valor mais tarde, no JMC, onde todos os alunos se envolviam em programas de auto-ajuda em seus labores intelectuais e manuais, visando à construção de uma apreciação positiva pela dignidade do trabalho com um requisito prévio para liderança na igreja.

Jandira

Esse treinamento soberbo em circunstâncias diferentes no seio de Mato Grosso, preparou o casal Harper para participar, em 1928, numa experiência educacional de auto-ajuda, peculiar para a época: o Instituto José Manoel da Conceição (JMC). O JMC era fora do comum porque dava uma oportunidade e estrutura saudável para que jovens adolescentes protestantes do interior do país, vindos de famílias modestas senão pobres, pudessem se preparar para liderança em suas igrejas: presbiterianos, episcopais, batistas, metodistas e várias outras denominações.

 Após os anos iniciais em Mato Grosso, A MPBC transferiu o casal Harper para Jandira, onde se fazia preparativos para a abertura do que se chamava inicialmente “Curso Universitário José Manoel da Conceição”. A primeira proposta para a organização do curso foi feita pelo Dr. William Alfred Waddell à MPBC, reunida em fevereiro de 1925, no Instituto Cristão, em Castro, Paraná, sob a presidência do Rev. Latham Ephraim Wright. A proposta do Dr. Waddell era, em resumo, a seguinte: ele levaria o curso de filosofia para o acampamento do Mackenzie em Jandira; ele se demitiria da presidência do Mackenzie e passaria a receber o salário de missionário [ US$900 por ano para solteiro; US$ 1,800 para casal]; além de si mesmo, ele propunha a contratação de dois professores, um norte-americano e outro brasileiro; ele propunha a aquisição de terreno maior e o trabalho dos estudantes produzindo verduras, cereais, e prestando outros serviços necessários. O curso de quatro anos foi aprovado pela MPBC em dezembro de 1927.

Os primeiros alunos iniciaram as aulas em 8 de fevereiro de 1928. A primeira turma se formou em 1929: Adolfo Machado Correia, Eduardo Pereira de Magalhães, Fernando Nanni, Martinho Rickli e Paulo Braga Mury.

Roy e Evelina trabalharam inicialmente sob a competente liderança do Dr. Waddell, ele lecionando grego, hebraico e as ciências; e ela inglês e música. Ambos contribuíram  eficientemente com seus dons e talentos para a vida do JMC através dos anos, ele pelo treinamento meticuloso nos idiomas bíblicos e nas ciências físicas e sociais, e ela pela criação da Caravana Evangélica Musical (CEM). Por intermédio da CEM, milhares de pessoas em centenas de igrejas e praças públicas ouviram o Evangelho cantado a capela por coros de estudantes do JMC. Um vasto programa de música foi executado na preparação de líderes laicos e ordenados como regentes corais e organistas de igreja. Soma-se a isso tudo a aquisição de Know-how na direção de instituições e congregações da igreja.

Roy foi nomeado diretor do JMC em 1936 e permaneceu neste cargo até 1952, ano em que foi cedido pela MPBC para assumir novas tarefas como tesoureiro do Instituto Mackenzie, entidade fundada por missionários presbiterianos na cidade de São Paulo, em 1870. Durante os nove anos neste posto, Evelina treinava coros para programas de rádio e gravações, e participava na vida litûrgica e musical da igreja. O casal retornou definitivamente aos EUA em 1962 após 35 anos de serviços no Brasil. Roy estava particularmente feliz porque, pela primeira vez desde a fundação do Mackenzie, ele deixava em seu lugar um tesoureiro brasileiro.

Voltando aos EUA, o casal assumiu as mais variadas responsabilidades para interpretar às igrejas norte-americanas as tarefas missionárias no Brasil. Residindo em San Francisco, California, eles puderam receber jovens bolsistas da Ásia. Em 1965, Roy e Evelina se aposentaram em Westminster Gardens, na cidade de Duarte, California, onde continuaram a manter contatos e correspondência com colegas, amigos e estudantes brasileiros. Nessa comunidade de missionários aposentados eles continuaram a prestar serviços administrativos e musicais, sempre cantando…

Edgerton

Charles Roy Harper nasceu em 15 de março de 1895 em Edgerton, uma comunidade rural no estado de Kansas, EUA. Seu pai, Charles Sumner Harper, deu-lhe três dádivas: sua altura (mais de 1m e 90); uma queda pela agricultura e largos horizontes; e um grande respeito pela medicina e a pessoa humana. Todas as três dádivas lhe serviriam abundantemente mais tarde, no JMC: seu entusiasmo e talento na quadra de basquete; uma apreciação pelos benefícios educativos e práticos da horticultura e esquemas de auto-ajuda como parte integrante de programas estudantis; e sua cooperação com o Instituto Butantã, juntamente com estudantes experientes, na captura de numerosas e freqüentemente raras cobras venenosas com a finalidade de produzir soro contra mordidas. De sua mãe, Carrie Erskine Harper, ele ganhou uma profunda apreciação pelos textos bíblicos que lhe eram lidos e ao seu irmão mais velho Meryl desde a tenra idade. Ela também lhe ensinou a se preocupar com os outros. Ele desenvolveu um afinado senso de humor e facilidade em formar amizades com homens e mulheres.  Isso ficou evidente ainda quando marinheiro na marinha dos EUA, com base em São Francisco, na California, e, mais tarde, como farmacêutico e auxiliar de medicina nos navios que transportavam tropas no Oceano Atlântico durante a I Guerra Mundial. Logo após a guerra, Roy matriculou-se num curso universitário em Monmouth College, uma instituição presbiteriana no estado de Illinois. Em 1921 recebeu o grau de bacharel em letras e estudou para o ministério em Princeton Theological Seminary, onde formou-se em 1924. No mesmo ano ele concluía o mestrado em literatura na Universidade de Princeton. Em 1961 ele foi contemplado com um doutorado honoris causa em Monmouth.

Des Moines

Evelina nasceu em Des Moines, no estado de Iowa, EUA, em 15 de março de 1899. Ela vinha de uma grande família de professores, pastores e fazendeiros presbiterianos. Seu pai, Alonzo C. Douglass, era o pastor da igreja local, um pregador com consideráveis  qualidades e liderança impressionante, ele mesmo descendente de outros pastores e fazendeiros que emigravam da Escócia e da Irlanda no século 18. Mais tarde, Alonzo ensinou Teologia Pastoral no Seminário Teológico Xenia, em Pittsburgh, no estado da Pennsylvania. Evelina era mais chegada à sua mãe, Mary Findley Douglass, filha de um casal de Monmouth e dotada de grande curiosidade intelectual. Ela imbuiu Evelina com uma grande paixão pela música por intermédio do coral da cidade; do fiel toca-discos Victrola (um dos discos favoritos era Lakmé de Delibe na voz de Lily Pons); e não perdendo a oportunidade de assistir aos raros concertos de sopranos colatura em algum distante auditório nos estados vizinhos. Mary era uma mulher gentil mas firme. Ela escutava bem. Estes traços ela conseguiu passar para sua filha Evelina. Fisicamente fraca quando menina, Evelina logo aprendeu a se defender na convivência com um vigoroso conjunto de quatro irmãos e uma irmã. Esta característica lhe serviria bem, tanto nas agruras da vida missionária em Mato Grosso quanto nas viagens com a CEM em caminhão aberto pelas estradas poeirentas de Goiás, ou até nos ataques de asma na década de 1940. Sua sensibilidade, tenacidade e visão a prepararam para exercer sua vocação de treinar jovens para glorificar a Deus pela música. Evelina também fez o curso universitário em Monmouth College, onde se formou em 1923, bem como no Monmouth Conservatory of Music, com o gráu de bacharel em artes. Em 1946 fez estudos de pós-graduação em Westminster Choir College, em Princeton, com o seu diretor, Dr. Williamson, e, depois, com o Dr. John kelly na School of Sacred Music de San Francisco Theological Seminary, em San Anselmo, California. Ela casou-se com Roy em 1924 e chegaram ao Brasil em 10 de setembro de 1925, enviados pelo Board of Foreign Missions of the Presbyterian Church in the USA [com sede em Nova York].

Família

Roy e Evelina tiveram dois filhos: Annabel Louise, nascida em Long Beach, California, em 1929; e Charles Roy [Royzinho], nascido em São Paulo, em 1933. Ambos estudariam por dois anos no JMC. Annabel matriculou-se no curso universitário de Maryville College, instituição presbiteriana no estado de Tennessee, e, depois, na University of New Mexico. Casou-se em 1952 com William Swenson, técnico de basquete e vice-diretor do colégio público de Tracy, California. Residem em Tracy há mais de quarenta anos, são membros da Igreja Presbiteriana, e criaram quatro filhos: Robert é formado pela University of California e jogou futebol americano profissional por nove anos no Denver Broncos (filhas Lauren e Kristin); linda é professora de escola primária, residindo e trabalhando em Santiago, Chile, com seu marido Christian (filhos Hans, Susie e Mark); Bill é empreiteiro civil em Tracy, com sua esposa Frances (filho Willie); e Susan, técnica de informática em Denver, com seu marido Michael e filha recém-nascida Hannah.

Royzinho formou-se em Wooster College, no estado de Ohio, em 1954, após o que se preparou para o ministério no San Francisco Theological Seminary, formando-se em 1958. Fez pós-graduação em ciências políticas na University of California, em Los Angeles, onde recebeu o mestrado em 1967. Tinha se casado com Babette Damnholz em Marselha, França, em 1962. O casal trabalhou na Argélia durante três anos em programa de reconstrução patrocinado pela comissão Cristã de Serviço na Argélia. A partir de 1967 passaram a residir em Genebra, Suíça, onde Babette trabalhava com o Instituto de Ação Cultural (IDAC), fundado por Paulo Freire no exílio, e Royzinho como diretor da casa internacional do estudante, conhecida como Foyer John Knox. Desde 1973, ele trabalha no programa de assuntos internacionais e direitos humanos do Conselho Mundial de Igrejas. Eles tiveram dois filhos: Caroline Anne, artista gráfica que reside em Londres, Inglaterra, com seu marido Neil; e Steven Martin que reside no Rio de Janeiro, trabalhando como dançarino profissional, professor e coreógrafo. Sua esposa Beth é de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, e curtem a filha Nina.

O coqueiro

Recebemos muitas cartas e mensagens escritas por ex colegas e alunos, amigos e familiares de Roy e Evelina quando faleceram (Roy em 1979 e Evelina em 1989, ambos em Westminster Gardens, em Duarte, California). Todas elas foram eloqüentes, lembrando coisas, e comoventes. Elas nos ajudaram a apreciar melhor este casal vibrante que agora vamos com olhos mais esclarecidos. Ao lermos sua correspondência extraordinária, escrita durante vários momentos de transição, podemos começar a compreender os dilemas, as alegrias, as tensões e os triunfos em suas vidas enquanto conviviam com seus amados alunos, colegas professores e vizinhos de Jandira.

Queremos citar, neste final, um estimado amigo e colega, pois o que ele escreveu reflete bem a maneira como Roy e Evelina gostariam de ser lembrados:

“Tu não te lembras da casinha pequenina
onde o nosso amor nasceu?
Tinha um coqueiro ao lado que, coitado,
De saudade, já morreu.

“Você não crê que Deus gostaria de ouvir esse dueto cantado pelo Altão [‘Moço, moço!’] e D. Evelina de vez em quando? Eu creio. Lembro-me sempre do alto e da baixinha (uso as palavras com amor) cantando em nossas reuniões nas noites de Sábado no Jota. Bem-aventurados aqueles que dormem no Senhor, pois as suas obras o seguem. Somos fruto dessa obra. Cante comigo a casinha pequenina, e estaremos homenageando D. Evelina e o velho mestre Roy.”

Gérson Meyer

No encerramento destas breves notas biográficas, convidamos você – como fizemos na carta que escrevemos em 1989 aos amigos dos nossos pais – a confiar que, ao lado da casinha pequenina, um coqueiro florescerá sempre e sempre, fornecendo frutas abundantes e sombra refrescante para muitos.

Quem é aquela gente que vive no céu cantando?…

Rev. Charles Roy Harper Jr. – Tradução de Rev. Jaime Wright

Transcrito aqui em São Paulo em 6 de Novembro de 2015.

O Instituto JMC (por Júlio Andrade Ferreira)

[Retirado de Júlio Andrade Ferreira, História da Igreja Presbiteriana do Brasil, em Comemoração ao Seu Primeiro Centenário, 2º Volume, Casa Editora Presbiteriana, São Paulo, SP, 1960, Cap. CLX, pp.197-199]

O Rev. William Waddell estava às portas da aposentadoria no Mackenzie. Seu espírito organizador não poderia conformar-se com a inatividade. Por outro lado a luta em prol do Seminário Unido ia acesa. Fundar uma nova escola teria não apenas a vantagem de tomar-lhe o tempo, como também ode prover alunos para o Seminário do Rio.

O alvo inicial da instituição que Waddell dirigia fôra, afinal, o de servir a Igreja Evangélica e em especial a Igreja Presbiteriana. Um bom modo de aliar os vários interesses seria o uso da fazenda em Jandira, que os futuros engenheiros visitavam apenas três semanas por ano. Ora, Waddell nunca se conformava com a formação de cursos tais como os organizados oficialmente no Brasil. Como julgasse que o “ensino comum”, isto é, sem diferenciações, devesse ir até apenas o terceiro ginasial (num tempo em que o ginásio contava seis anos), desejava ele tomar o aluno a esse altura para cuidar já de certa especialização, com vistas à formação ministerial. O “Curso Universitário José Manuel da Conceição”, cujo nome homenagearia um grande vulto do passado da Igreja, seria uma espécie de pré-teológico. E mais: sendo estruturado em bases administrativas modestas e rigorosas, daria oportunidade a muitos alunos pobres, os quais de outra maneira ficariam privados de tão alviçareira oportunidade.

 O que Waddell pensou foi servir. O JMC seria uma obra de cooperação. Dada a influência desse líder junto ao Board de Nova York, obteve a colaboração franca das missões que lhe eram subordinadas. A Assembléia Geral da Igreja Presbiteriana acolheu a idéia e aprovou o plano na reunião havida em Paraíso (1926).

A Igreja Presbiteriana Independente e a Episcopal Brasileira tinham aderido também. Esperava-se que as aulas se abrissem em 1927.

Não foi possível. Só a 8 de fevereiro de 1928, com 12 alunos, uma espécie de 12 apóstolos, abriram-se elas. Desses doze, cinco atingiram a formatura já no ano seguinte, 1929. Os outros só sairiam em 1932. Foi esta a turma, no que diz respeito aos presbiterianos, que primeiro veio ao Seminário de Campinas e se integrou à classe da qual fazia parte o autor deste histórico. Nessa época já havia 44 moços e 5 moças no JMC.

O próprio Rev. Waddell e o Dr. C. R. Harper, que a missão recolhera do campo matogrossense, puseram-se a ensinar com afinco. Outros o auxiliaram: Mrs. Harper, na música; Temudo Lessa e Grotthouse (M. P.), em várias disciplinas. Vários alunos adiantados foram tomados como auxiliares.

Não se comia bem; eram os próprios alunos que cozinhavam. Nem eram as acomodações, de uma casa baixa e comprida, das mais cômodas. Mas o Dr. Waddell teve sempre grande prestígio para apaziguar os descontentes e quase sempre eram os mesmos elementos que agradeciam a “chance” que então se lhes abrira. Afinal, era uma porta aberta ao Seminário!

Seminário Unido, pensavam os organizadores; Seminário de Campinas, disseram os fatos. Isso veremos em outro capítulo.

Dª Evelina Harper organizou a “Caravana Universitária do Curso JMC”. A primeira delas saiu em 1931. Uma fotografia da mesma nô-la apresenta um conjunto de rapazinhos quase ainda imberbes: João Euclydes, Francisco Alves, Firmino Barreto, Jorge Campelo, Edgar Regis,  Rui Gutierrez. Apenas Regis é falecido. Os demais nós os conhecemos; só não têm o mesmo viço da juventude. Cremos que a Caravana desempenhou sempre papel importante na vida da instituição.

Cantores e pregadores têm sido formados nessa escola, muitos dos que me lêem, e que serviram de apresentação da escola perante as famílias evangélicas. E assim, tem-se cumprido a missão inicial do JMC — “dar preparo secundário a alunos de ambos os sexos, maiores de dezesseis anos, que não tiveram oportunidade de cursar ginásios oficiais”. Tem cumprido também outras funções, como a de selecionar candidatos ao ministério.

Certo que outros seminários, o Independente, por exemplo, tem-se valido do JMC — nenhum, porém, tanto como o de Campinas. Lavras, Castro, Jequitibá e outros celeiros de candidatos foram de muito, e de há muito, superados pelo JMC. Em 1948, em uma turma de cinco do Independente, quatro do JMC. Nem sempre a proporção é tão grande, mas nunca deixou de ser apreciável.

Melhoramentos têm sido feitos: motor elétrico, ponte, passeios, rede telefônica, o próprio “campus”. E os prédios? Os modestos casebres iniciais vão desaparecendo, como já desapareceram obreiros daqueles primórdios. O simpático Temudo Lessa e o casal Waddell. Dr. William Waddell e Dª Laura Chamberlain Waddell desapareceram com pequeno espaço de tempo, em boa velhice, mas cercados de estima. De seus filhos, Dr. Ricardo Waddell tem se destacado como de igual têmpera e do mesmo ideal: filho de Waddell, neto de Chamberlain.

Mas voltemos ao JMC. Seria possível acompanhar convenientemente toda a sua vida já de 30 anos? Faltar-me-ia tempo para lembrar todos os obreiros que ali têm ensinado e que ali têm aprendido: quase cem pastores.

Prof. João Euclydes Pereira, Dr. Henrique Maurer, Rev. Renato Fiuzza Teles, o missionário Robert Lodwick…

Quanto aos alunos, lembro trecho do Rev. José Borges dos Santos Júnior. “Os fatos dizem tudo. Américo J. Ribeiro, Francisco Alves, Renato Fiuzza Teles, Valério Silva, Adauto Dourado, Waldyr Carvalho Luz e tantos outros que entraram no ministério vindo do Curso JMC permitiram parafrasear o que disse São Paulo aos Coríntios: ‘São cartas vivas de recomendação’”.

Transcrito aqui em São Paulo, 6 de Novembro de 2015.