Thebaida (por Waldyr Carvalho Luz)

[O texto a seguir, escrito pelo Rev. Waldyr Carvalho Luz, relata sua experiência no JMC. Ele é retirado de sua autobiografia, que tem o título: Nem General, Nem Fazendeiro: Ministro do Evangelho (Luz para o Caminho, Campinas, 1994). Tive a pachorra de digitar o texto, que é a totalidade do Capítulo 21. Pode haver pequenos erros de digitação no texto. O Rev. Waldyr foi meu professor no Seminário Presbiteriano de Campinas.]

Quinta-feira da Segunda semana de fevereiro de 1935 embarcava eu em Caçador rumo à Capital Paulista. Resolvi descer em Castro para tomar informações mais precisas e completas. No Sábado, à tarde, retomava a viagem para o desconhecido. Tudo transcorreria normalmente, exceto por dois problemas, contornados de modo satisfatório. Primeiro, bateram a carteira de um passageiro e o pobre do homem, quando deu pela coisa, pôs a boca no mundo, entre desesperado e revoltado. Procurava, em vão, descobrir o autor do furto. Suspeitou de mim, assentou-se ao meu lado e iniciou um interrogatório longo e impertinente. Fiquei um tanto apreensivo, porque o dinheiro que eu tinha comigo era exatamente a quantia que lhe haviam surripiado: Setecentos mil réis, e uns trocados. Se o homem me acusasse, iria achar que esse era o dinheiro dele. Eu teria uma defesa: telegrafarem para minha casa e saber com quanto saí para a viagem. Disse-lhe quem eu era, para onde ia, quê ia fazer, e comecei a falar de Cristo e da salvação. Ele, que não estava muito disposto a ouvir do evangelho, levantou-se e deixou-me em paz. Segundo, o chefe de trem, quando lhe falei que iria descer em Barueri, disse-me que o trem era expresso e não parava nessa estação. Certamente eu estaria enganado. O meu destino seria Barueri, cidade de que nunca havia ouvido falar. Contei-lhe que iria para um colégio em Jandira, perto da Capital, e que teria de descer na estação mais próxima. Depois de muita conversa, acabou concluindo que eu deveria desembarcar em Cotia ( hoje Itapevi), aguardar um trem subúrbio e, então, ir a Jandira. Às nove e pouco da manhã, chegamos a Cotia. Desci com as malas, indaguei do horário do subúrbio e comprei a passagem, gentilmente atendido pelo agente da estação, que me prestou todas as informações necessárias. Assentei-me em um banco, a estação quase vazia, cansado, tenso, triste, com saudade de casa. A vegetação em volta no vilarejo era tão diferente da flora linda de minha terra.

O casario, de “material”, feio, um telhado enegrecido, tijolada exposta ou caiada, tudo a dar impressão de miséria e atraso. E achei que eu tinha feito uma grande tolice. Deu-me vontade de voltar, desistir dessa aventura, viver feliz na minha “querência”, como diziam os gaúchos. Estava perdido nesses devaneios depressivos, quando soou a campainha anunciando a chegada do subúrbio. Foi questão de embarcar às pressas rumo à tal Jandira!

Eu imaginava um lugar bonito, o colégio um lindo, prédio ajardinado, tudo da melhor qualidade , com luxo e elegância , pois que era acampamento do Mackenzie, educandário tão afamado. Uns poucos minutos  e parou o trem na acanhada estaçãozinha, em que se aglomerava muita gente nesse Domingo de manhã.

Olhei em volta e nada vi que me parecesse com jeito de colégio. Perguntei a um espanholzinho magricela, de olhos azuis, que tinha  embarcado em Cotia onde ficava o Curso Universitário José Manuel da Conceição. Ele lavrador, da vizinhança a quem viria encontrar bastante freqüentemente ao depois, numa voz fininha de mulher, respondeu: “Não sei !” Fiquei desapontado. Pensei até que estivesse um lugar errado, mas a placa, em grandes letras, com o nome da estação, desmentia essa possibilidade. Não havia táxi. Ao fundo via-se uma grande casa com um vasto pomar , mas à esquerda, à distância, um grupo de vivenda conjugadas, feias a valer, como as de Cotia. Residência de funcionários da estrada de ferro; logo em frente à estação um casebre mais feio ainda onde morava o  guarda-cancela; bem adiante, em parte encoberta por um bosque de eucaliptos, uma linda mansão, a pouca distância da qual outra do mesmo estilo se erguia. Julguei comigo, o tal Acampamento deve ficar para aqueles lados; o problema é chegar lá. Ao fundo direito da ferrovia , em uma elevação, se estadeava um quadrilátero extenso, nos mesmos moldes das tais casinholas dos ferroviários, telhado negro, paredes mal caiadas, que julguei fosse uma olaria, pois que ficava junto a um alagadiço, como os nossos “banhados” do Sul. Ia dirigir-me ao agente para pedir informação, quando se aproximaram de mim três rapazes  que haviam ouvido a minha pergunta ao espanholzinho e disseram que eram do colégio. Achei-os pobremente vestidos, embora um deles estivesse de gravata, por sinal uma gravata velha e surrada. Pensei que fossem cozinheiros ou funcionários da escola. Apanharam minhas malas, e não fiz cerimônia em deixar que o fizessem, pois,  afinal eu era estudante!

Puseram-se a andar… pelos trilhos da ferrovia. Acompanhei-os. A uns trezentos metros tomaram uma trilha barrancosa que dava acesso à “olaria”. Fiquei estarrecido. Seria ali o famoso Acampamento? Subimos a encosta e entramos no quadrilátero. A aparência de tudo era desoladora. Na pracinha central estavam uns estudantes, aos quais os três que me conduziam, que só agora via eu que eram alunos e não funcionários, Erasmo Bastos, o de gravata, baiano de nariz adunco, Francisco Pereira Júnior, carioca loquaz, grande orador, e Rubens Cintra Damião, paulista, que muito se viria a distinguir em sua Igreja (Presbiteriana Independente), foram logo anunciando que mais um novato estava chegando. Foi um reboliço e de todo lado surgiram rapazes a berrar: `”Mais um, mais um”… e se aproximavam de mim. Até pensei que me iriam dar algum trote (coisa que não existia naquele ambiente fraterno). Foi uma acolhida calorosa e foram-me acomodando em um quarto com vaga. Era, porém, domingo e o almoxarifado estava fechado, de sorte que não podia adquirir cama, cadeira, mesa, lampião e mais apetrechos necessários. Mas, alguém me arranjou uma cama de lona, travesseiro, cadeira, e eu estava provisoriamente instalado, inda que com franciscana singeleza e não pouca deficiência.

Logo depois, teríamos a Escola Dominical e, em seguida, o culto, dirigido pelo diretor, Dr. William Alfred Waddell., gorducho, imponente, engenheiro e matemático de renome, que fora missionário na Bahia por muitos anos, depois Diretor do Mackenzie, cargo que deixara para fundar, em 1928, o “Conceição”, como era conhecido esse centro de preparação de candidatos ao ministério que fariam seus estudos teológico no efêmero Seminário Unido do Rio de Janeiro e cujo nome homenageava o primeiro pastor nacional, José Manuel da Conceição, que havia sido padre em Brotas, Estado de São Paulo, e se convertera à fé evangélica. Bastante cansado, sonolento, não foi fácil acompanhar a palavra do nobre pregador, que, a bem da verdade, não somente falava com um sotaque extremamente carregado, como também tinha um português arrevesado, o verbo usado quase só na forma infinitiva e todos os pronomes demonstrativos a assumirem a feição do feminino singular aquela! Fui apresentado ao respeitado Diretor, que me pareceu, desde logo, uma grande alma!

Era quase a hora do almoço e lá nos fomos para o refeitório: um telheiro acanhado, de piso de tijolos mal cobertos de cimento, com uma longa mesa tosca no centro, sem toalha, guardanapos, pratos e talheres, nem mobília outra senão menos de trinta banquinhos rudes, feitos de tábuas de caixotes, de que se apossavam os que chegavam primeiro, os retardatários não tendo onde sentar-se. Entrei e fiquei escandalizado, não crendo no que via! Jamais poderia imaginar coisa mais primitiva. Eu me pus de lado, a observar, enquanto os outros apanhando um banquinho, até que se esgotou o número disponível, iam a um canto da longa janela alçapão, aberta para o momento, onde pegavam um prato de uma pilha ali colocada e uma colher e garfo, entravam na fila para serem servidos, à medida que passavam diante dos grandes caldeirões e panelas postados do lado de dentro da cozinha anexa, cada uma com um servente munido de longa concha ou colher. E os mais glutões já iam formando uma segunda fila. Foi então que um gaiato me chamou a atenção: “Ó novato, se você não quer ficar sem comer, entre na fila”. Não  havia outra coisa a fazer. Fiz como faziam os demais. A comida era farta, contudo, simples e mal preparada, incapaz de agradar a qualquer paladar um pouco mais exigente. Após o “suntuoso banquete” e umas inspeções a mais no “requintado” ambiente, recolhi-me ao improvisado leito… e dormi até a manhã seguinte! Não tive pesadelos, mas bons sonhos dificilmente haveria sonhado!

Quando me levantei, já o horário do café se havia passado. Era tempo de prover-me dos apetrechos necessários e instalar-me definitivamente no quarto determinado… e começar a estudar! O curso constava, de início, de duas séries propedêuticas, matérias gerais, como português, inglês, francês, latim, grego e hebraico, geografia e história, álgebra, geometria plana e esférica, trigonometria, psicologia, sociologia, economia política, antropologia, sei lá mais o quê, e três anos pré-acadêmicos, disciplinas mais avançadas, tais como filosofia geral, epistemologia, metafísica, história da filosofia literatura geral e portuguesa, latina e grega, clássica, patrística e escolástica, em nível tido como elevado. Mas, ao depois, para atender a alunos que não haviam cursado a oitava série, foi criada mais uma, que se veio a chamar de ano zero (mais tarde, uma outra foi adicionada, chamada, é claro, zero-zero), com disciplinas próprias. Como havia feito a sétima série em Castro, fui, naturalmente, matriculado no ano zero. Adquiri os livros e material exigidos, informei-me das lições já ministradas e das próximas, e reiniciei a longa marcha que me absorveria cinco nos no Conceição daquelas eras priscas…

Os professores do ano zero eram, na maioria, alunos adiantados, das últimas séries, com experi6encia previa de ensino ou os mais brilhantes da turma. Assim é que o professor de português era Abimael de Campos Vieira, de Sorocaba, que veio a ser grande pastor e professor, Fernando Buonaducce, baixinho, jovial, comunicativo, professor de geografia, que ensinava com muita arte e maestria, conduzindo-nos em viagens imaginárias pelo mundo todo, após sua formatura substituído pelo poeta e desenhista Alfredo Thone Stein, de Rio Claro, não menos capaz e habilidoso, Eudaldo Silva Lima, um baiano de grande inteligência, orador notável, ensinava o temido latim. Encontrou-se comigo e advertiu-me a que tratasse de estudar, que eu já estava atrasado uma semana e não iria acompanhar a classe. E disse que exigiria a primeira declinação sabida no dia seguinte. Apanhei a vetusta mas prestante gramática de M’ Clintock, então usada, e estudei a matéria. A primeira aula, na manhã seguinte, era justamente de latim. Feita a chamada, o professor mandou-me ao quadro-negro e pediu-me declinar uma palavra. Fi-lo sem problema e ele não se deu por achado, mas um dos colegas, de grande olhos negros como jabuticaba, tez morena, bigode à chinesa, o paulistano Aretino Pereira de Matos, foi logo sentenciado: “Esse já estudou latim!” Era a minha estréia no Conceição e foi, na verdade, bastante auspiciosa, porque o professor dava nota pela chamada à lousa e, evidentemente, obtive nota cem!

Absorvi-me nos estudos, ricos e fascinantes, sedento por mais saber e curioso por ver até onde ia minha capacidade de apreender, buscando atingir o máximo. Nem me apercebia das precárias condições materiais do colégio, de uma pobreza para franciscano nenhum botar defeito, de uma parcimônia mais do que espartana. De fato, os quartos acanhados e sem conforto algum, tinham piso atijolado, telhado de velhas telhas enegrecidas, sem forro, vidraça singela, venezianas comuns; instalações sanitárias apenas duas para mais de quarenta estudantes, a certa distância do quadrilátero de quartos. Verdade é que, no conjunto, havia uma construção melhor, com quartos assoalhados de tábuas de madeira de pinho, dotada de chuveiro e privada, onde se alojavam estudantes mais adiantados, que escolhiam primeiro as acomodações preferidas. Entretanto, essas instalações não eram usadas, porque o abastecimento de água provinha de um poço de capacidade limitada e funcionava à base de uma bomba cujo acionamento era coisa própria para condenados às galés ou a trabalhos forçados; o banho era no riacho do outro lado dos trilhos da estrada de ferro, felizmente, naquela época de rarefeita população, não poluído, por isso mesmo, agradável e seguro; não havia luz elétrica, a iluminação sendo em função de lampiões de querosene; não existia um funcionário sequer, tudo sendo feito por nós mesmos. Até os cozinheiros eram alunos, que, para ganhar ou poupar algum dinheiro, se improvisavam nesse posto, com resultados muito discutíveis: se um ou outro revelava certo dom culinário, a maioria era negação nesse mister. E já se vê a qualidade da cozinha por que éramos servidos. Não poucos tiveram de desistir da função ante os protestos dos comensais insatisfeitos.

Cada estudante desempenhava alguma tarefa. Eu fui rachador de lenha para o fogão da cozinha, distribuidor de querosene de quarto em quarto, vendedor na livraria do colégio, professor de latim no final do curso. Era uma vida realmente dura e aprimitivada, que, porém, testava a fibra do estudante. Hedonista ou sibarita nenhum agüentava a situação, mas os fortes superavam as dificuldades  com galhardia e persistência. Formávamos uma comunidade semi-monacal, dirigida por uma Diretoria composta de representantes das séries, com um presidente e um secretário-tesoureiro, eleitos pela Assembléia dos estudantes. Exerci este último cargo nos últimos dois anos de estudo. Vivíamos em regime de plena liberdade e responsabilidade, o que punha à mostra o caráter, a disciplina, a maturidade do indivíduo. E não eram poucos os que não faziam jus à excelência exigida, acabando por deixarem a instituição de motu proprio ou despedidos. Certa vez, o Diretor chamou a seu escritório uma jovem interiorana, de Camanducaia, Sul de Minas, que andava  tendo uns achaques, sofrendo convulsões, queria fazê-la voltar para casa para tratamento. A mocinha reagiu firme argumentando que iriam pensar que ela procedera mal e acabara expulsa, que se submeteria a sério tratamento, mas de modo algum deixaria a escola! O Diretor insistia em contrário e eu, que ouvia toda a discussão  do meu posto na livraria, adjacente ao escritório, estava condoído da colega e orando a Deus que fosse atendida em seu dramático apelo. Ela não cedeu e continuo no Conceição, para alegria de todos nós.

Havia um  reduzido número de moças estudantes. Alojavam-se  em uma das mansões que eu avistara da estação ferroviária, quando de minha chegada. Era uma casa confortável, como todas as instalações convenientes, em lugar arborizado com plantas frutíferas e ornamentais, belo jardim, em vivo contraste com nosso reduto masculino. Eram dirigidas por uma professora residente e nós, rapazes, não tínhamos permissão de ir à mansão, a não ser como placet dessa severa mentora. Todavia, um de nós era escalado para prestar serviço às moças, especialmente levar-lhes víveres e objetos adquiridos de nosso “armazém”. Era um cargo disputado, pois, além de facultar mais direto contato com as moças, sempre rendia uns mimos, doces, biscoitos, fatias de bolo, chocolates, um cafezinho aromático feito na hora! Menção especial nessa função merece o Eugênio Cleto da Silva, de Sengés, Paraná, excelente servidor, que gostava de cantar hinos enquanto executava seu mister… sempre uma nota só, um Paganini às avessas, que mais tarde, integraria as Forças Expedicionárias Brasileiras nos campos da Itália. O namoro não era proibido, mas, nesses primeiros tempos, de gente mais amadurecida, era discreto e raro, realmente coisa séria. No correr dos anos, cresceu o número de moças e algumas eram frívolas, coquetes, assanhadas, criando problemas para a Direção da escola. Lembro-me de uma dessas, uma jovem do interior de Goiás, não uma beleza notável, contudo, para um ambiente de muitos rapazes e poucas moças, bastante disputada, não poucos pretendentes a requestá-la ao mesmo tempo, ao que ela, soberana, correspondia, namoriscando cada semana uma vítima diferente, que ela podia escolher a seu grado. Participação em trabalhos de igreja e idas a São Paulo eram facultadas a todos, mas as moças não podiam viajar sós, nem na companhia de namorado, o que não impedia que, contrariando as leis da Escola, encontros se dessem, naturalmente com todas as precauções para não virem a ser punidas, caso se fizesse conhecido o fato. Voltava eu de São Paulo, certo anoitecer, e na estação encontrei a famosa avassaladora de corações, que me pediu fazer-lhe companhia para que não viajasse sozinha. Não podia rejeitar o pedido. No dia seguinte, a todos os ventos se propalava o boato de que eu estava namorando a fútil borboleta. Só então vim a saber que um baianinho, apaixonado pela caprichosa garota, fora esperá-la em uma das estações intermédias, na intenção de com ela voltar idilicamente, mas ao ver-me assentado ao lado dela, concluiu que algo havia entre nós, viajou em outro vagão e, despeitado, ”pôs a boca no mundo”. Verificada a fonte do boato, procurei-o imediatamente, expliquei-lhe o que se havia passado, disse-lhe que não tinha nenhum interesse pela sua amada e que fosse um pouco mais prudente, pois que não ficavam bem a uma pessoa séria o disseminar ou espalhar coisas inverídicas. Não lhe adiantou muito. Foi mais uma vítima daquela “femme fatale”.

Nunca fui namorador. Gostava das garotas, mas preferia simples amizade, que não mexia com as emoções e não envolvia comprometimentos. Desde que me converti, achava que namoro só se justificaria, quando visasse ao casamento, e que ninguém tem o direito de abusar dos sentimentos alheios, em fúteis aventuras, irresponsáveis, passageiras, levianas. Além disso, a concentração nos estudos não daria espaço para namoricos que a nada levassem. Seria perda de precioso tempo e prejuízo ao preparo intelectual tão importante. Quando chegasse o momento, Deus proveria aquela a quem entregar o coração. Todavia, nem sempre a cabeça prevalece… e comecei a gostar de uma colega, uma campo-grandense de atitudes sérias, olhar tristonho, mais amadurecida. O Diretor, porém,

agora o mesmo Jessé Wyant que exercera essa função no Instituto, em Castro, pessoa que parecia estimar-me bastante, chamou-me e aconselhou-me a desistir desse namoro, que a moça não reunia qualificações para esposa de pastor. Não sabia bem a quê se referia, mas, dada a certeza de que procurava o melhor para mim, acatei-lhe o parecer. Só no final do curso iria arriscar-me a outra tentativa, que fracassou também, desta vez, entretanto, porque um rival se interpôs, estragando meus sonhos românticos.

Como em toda comunidade, se um são passivos, acomodados, curvando-se ao status quo, outros há ativos, revolucionários, que aspiram a mudar as coisas. Era geral o sentimento de que teríamos de melhorar instalações e prover a escola de recursos mais à altura de sua importância. Desde logo avultava a idéia de construir-se um refeitório condigno. Mais do que ninguém  era entusiasta dessa iniciativa o colega de classe Josué Spina França, de Jaú, Estado de São Paulo, dinâmico empreendedor, líder, e o plano veio logo a ser executado: todos daríamos horas de trabalho na terraplanagem e assistência aos pedreiros, segundo a necessidade, e não se passou muito tempo estava concluído o sonhado refeitório, amplo, espaçoso, bem acabado, com mobiliário completo e decoração vistosa. E outras melhorias se processavam, ano após ano. O Conceição gozava de simpatia de muitas igrejas da Capital Paulista e de pessoas de recursos e de influência, que davam grande ajuda à instituição, e a nós, os estudantes, desde gêneros alimentícios até roupas e calçados, verbas em dinheiro, artigos pessoais, objetos vários. Dona Elisa Cerqueira Leite, uma senhora da Igreja Presbiteriana Independente, possuía uma pensão na Rua, hoje Avenida da Liberdade e, por certo tempo, ofereceu, graciosamente, hospedagem alternada em fins de semana a dois manuelinos (designativo de nós preferido), a escolha tendo recaído no Ruy Anacleto, colega do sul de Minas, e em mim. Foi uma boa oportunidade de conhecer melhor a Paulicéia e “tomar um banho de civilização”, se bem que a profusão de percevejos insaciáveis nos não deixasse dormir tranqüilos…

O corpo discente era muito heterogêneo, seja no tocante à origem, idade, procedência, classe social, experiência religiosa, seja na própria estratificação cultural no ambiente, distribuído por sete séries, gradativas, o que, forçosamente, engendraria sensível diferença de mentalidade entre grupos mais e menos adiantados. Natural era, pois, que se formassem blocos, marcados por maior afinidade, unidos por laços de amizade mais sólida. Tinha eu grandes amigos, alguns dos quais nunca mais vim a encontrar, de quem, entretanto, guardo grata lembrança e nutro saudade. Outros vieram a ser colegas no Seminário em Campinas e dois deles também no Seminário de Princeton, nos Estados Unidos: Wilson Castro Ferreira e Óthon Guanaes Dourado, ambos, posteriormente, professor em nossos Seminários, aquele em Campinas, este no Recife.

Alguns nos apelidávamos com títulos para nós graciosos e significativos, estranhos para os de fora. Assim é que o Wilson Castro Ferreira era o “sulço”, do fato de que, durante a sua presidência na Administração, a chamada Cooperativa, era freqüente vir acordá-lo muito cedo o encarregado do café matinal, Octávio Ferreira, de Campo Limpo, perto de Jundiaí, São Paulo, com o infalível anúncio de que o leite havia talhado, por ele, um tanto gago, reduzido a “Sô Ilço, o leitaiô”; o Jorge do Amaral Pinto era o “Su Pino”, alusão ao verbete latino; o Sebastião Tillmann era o “Su Tião”, com uma ponta de malícia, para apoquentar o colega avesso a chistes menos puritanos; eu era o “Su Varni”, velada forma do Jorge alfinetar-me por causa de um incidente, que, de brincadeira, assumiu proporções mais sérias. Um dos rapazes resolveu criar coelhos, um vez que era fácil alimentá-los sem despesa e dariam boa carne e pele vendável. Havia aparecido por lá um cão vagabundo que foi logo adotado pelos estudantes. Uma bela noite, porém, o malvado do cachorro arrombou a gaiola do casal de coelhos e os comeu. O dono ficou irritadíssimo e ameaçou matar o criminoso. Como havia  resistência à sua vingança, resolveu-se instalar um tribunal, que ouviria as partes e daria sentença. Foi um longo e apaixonado debate, ao fim do qual o réu foi sentenciado à morte. Eu fui o advogado de acusação e, portanto, havido como dos principais responsáveis pelo desfecho do caso. O executor seria o Paulo Alvarenga, um ótimo colega e pessoa muita séria, franzininho, doentio. Obteve a dose supostamente letal no laboratório do colégio e a aplicou, mas o cachorro Não morreu tendo porém ficado muito mal. Os defensores do condenado alvoroçaram-se e prometeram vingar-se de nós, do Paulo, carrasco fracassado do dono dos coelhos, cujo prejuízo não pensaram em ressarcir, e de mim, que advoguei a causa do qüerelante. Postaram-se dois à frente do quarto do Paulo, impedindo-o de sair e não permitindo que ninguém entrasse, nem mesmo com ele falasse. Achei isso um absurdo e resolvi interferir. Acheguei-me aos plantonistas e argumentei que era admirável o amor que revelavam pelo cão, mas era paradoxal que faltassem com amor para com um colega, valorizando muito mais um animal desprezível do que uma pessoa digna. Mais, se eles condenavam como violência um ato baseado em formal decisão de autoridades constituídas, como estavam usando de violência por pura decisão própria? Era, a meu ver, uma grosseira incoerência, uma clamorosa hipocrisia. Ficaram meio aturdidos e eu lhes disse que não somente iria ver o Paulo, mas retirá-lo dali, porque ninguém lhe podia tolher a liberdade. Entrei, conversamos e saímos. Lá estavam os dois ainda e eu os aconselhei a deixar o Paulo em paz e irem tratar do cachorro para salvar-lhe a vida, se pudessem. O miserável sobreviveu. As coisas se acalmaram, mas o ressentimento ficou, as relações afetadas por muito tempo. E o pilantra do Jorge achou de dar-me um apelido glosando o nome do cachorro: SOUVENIR, convertido em SUVARNI. Cachorrada dele!

 Em vívido contraste com a pobreza das instalações do Conceição, o ensino ministrado era de alta qualidade. Não só a grade curricular foi elaborada à base das melhores instituições americanas, como também o corpo docente contava com notáveis elementos, inclusive do magistério do Mackenzie e da Universidade de São Paulo (USP).

Destes, lembro-me particularmente de Theodoro Henrique Maurer Júnior, professor de português, de latim, de grego e de hebraico, assim como de literatura correspondente, mestre de grande saber; Vicente Themudo Lessa, ilustre historiador pernambucano, professor de latim eclesiástico, alma toda doçura, camarada demais nos exames; Joel Jorge de Mello, jovem engenheiro, um professor de geometria e trigonometria completo, que ensinava com especial postura, pena que a alunos desinteressados nessas disciplinas. Dos missionários, destacaram-se o Dr. William Aldred Waddell, em álgebra e geometria, e o Dr. Charles Roy Harper, em grego e hebraico, bem como sua esposa, Dona Evelyn, maestrina consumada, que fez do coral manuelino um elenco afamado, com apreciadas apresentações no rádio da época. Prata da casa, vieram a ser respeitados mestres o Rev. João Euclydes Pereira, um mineiro aristocrata, um tanto reservado, sempre muito bem vestido, que lecionava na área filosófica, e o baiano Dario de Oliveira Bastos, alma boa, mas longe de comunicativo, seco quieto, fechado, que ministrava biologia, latim, geometria. Falava com extrema vagareza, palavra-pausa-palavra, tido como professor duro e frio, sem emoções e sentimentos mais humanos. No segundo ano de latim, a leitura era o DE BELLO GALLICO, de César, texto por vezes não muito fácil. Os alunos nem sempre vinham à classe preparados. Ele Chamava alguém. Se o pobre coitado engasgasse ou empacasse, ele, na sua pachorra característica, ficava simplesmente aguardando que a vítima estrebuchasse, esperneasse, suasse, sem dizer palavra. Decorrido tempo, perguntava: “Quem ajuda?” e, se ninguém o fizesse, passaria adiante, repetindo a dose… Ele, porém, não daria a tradução. Era um pesadelo!

Com o professor Dario tive uma experiência nada agradável. Lecionava geometria plana e a turma, dominada pela noção de que matemática era matéria irrelevante par o ministério, não a levava a sério, não estudava. Eu, porém, que gostava de cumprir com todas as obrigações e, além do mais, tinha predileção pelas disciplinas dessa área, não somente preparava as lições com apuro, como ainda fiz, com perfeição, os seis exercícios por ele marcados. Os outros fizeram apenas dois, e isso mesmo com ajuda. Minha, como ele estava cansado de saber. No dia do exame, eu tinha outra prova na mesma hora, de sorte teria de prestá-lo em outra ocasião. Terminada a primeira prova, procurei-o para fazer a de geometria. Deu-ma ele, mas deixou de explicar-me o sentido que dava a certo termo, que eu entendi de modo diferente. A demonstração que fiz não correspondia exatamente ao que ele pedia. Deu-a como totalmente errada. Argumentei que, na acepção em que tomei o termo, a demonstração estava perfeitamente correta e que aceitasse em lugar da outra; que, se ele insistia nessa forma de demonstrar, estaria pronto a fazê-lo; que me desse outra prova; que ele não ignorava que eu conhecia a matéria. Tudo em vão. O homem era teimoso e obstinado como um jegue (jumento, no linguajar nordestino). Atribuíu-me nota 55, a mais baixa de toda minha carreira estudantil. Apenas um de nós obteve 65. Resolveu ele, para que todos passassem, dar 20 pontos de lambuja a cada um. Isto me levaria para 75, que, somada a média de trabalho, 100, proporcionar-me ia média final 87,50. Não era o que eu desejaria, ma o jeito era aceitá-la. À vista, entretanto, do fato de que os outros não fizeram os trabalhos todos, o que implicaria em dar-lhes média extremamente baixa, insuficiente para aprovação, cancelava a exigência, anulando essa nota, o que me prejudicava sensivelmente. Insisti em que eu nada tinha com a nota dos outros, mas se eu havia obtido, legitimamente, uma boa nota, de que eu não queria abrir mão, era injustiça dela privar-me. Fi-lo ver que dar a um aluno, muito menos qualificado, que não cumpria com as exigências que eu cumpria, nota superior à  minha, quando todos reconheciam o meu mérito, era um critério absurdo que depunha muito contra a pessoa do professor. Não cedeu um milímetro. Disse-lhe, pois, que, não conformado com a situação, apelaria para um recurso que me era facultado. Solicitaria cancelamento na disciplina e repeti-la-ia no ano seguinte. E mais, garantia que teria média não inferior a 90! O Diretor interveio, pedindo-me que aceitasse a nota contestada, que a minha média conjunta era excelente, que seria difícil arranjar horário… Comprometi-me, uma vez que eu ajudava no escritório, a fazer, graciosamente, o horário. Assim aconteceu, repeti a matéria, várias vezes o professor teve de dar aulas só a mim, que não faltava a aula nenhuma, e, apesar da rígida “marcação” sofrida, garanti média 92. Talvez eu fosse ainda mais jegue do que o prezado mestre!

O Conceição tinha uma pequena biblioteca, instalada em minúsculo prédio, na parte leste da pracinha central do quadrilátero. Havia bons livros, poucos, porém. Entretanto, para cursos, compêndios, nacionais e estrangeiros, eram adquiridos facilmente e o preço não era elevado, de sorte que para o estrito estudo das disciplinas regulares, dispúnhamos de todo o material necessário. E a escola gozava de bom nome no âmbito evangélico e mesmo fora de nossas igrejas. E melhorava cada vez mais. Se quando ai cheguei, 1935, ainda fazia jus ao termo depreciativo de alguns latinista virulentos, ´Thebaída”, já não era assim quando o deixei no final de 1939. Pelo Conceição passaram  muitos rapazes e moças que vieram a servir à Causa do Evangelho com extraordinário destaque, contribuindo de modo incalculável para o progresso da Igreja Evangélica do Brasil e mesmo para o bem desta Pátria de todos estimada. Pena é que, com a proliferação de escolas públicas , eficientes e gratuítas, em que os futuros seminaristas podiam estudar sem ônus financeiro e sem constrangimento de consciência, livres das pressões dos educandários católicos, muitos dos quais, em meu tempo, nem aceitavam alunos protestantes, rareou o número de estudantes e o glorioso Conceição teve de encerrar sua breve carreira. Mas, graças a Deus, pelo que realizou, bênção, grande bênção, para nós que tivemos o privilégio de cursá-lo, inda que, não raro, com lutas e sacrifícios!

Entrei para o Conceição com 18 anos incompletos, todavia bastante amadurecido e disposto a enfrentar  os estudos com força total e aproveitar o máximo o ensino ministrado. E acho que o consegui. Toda a matéria a mim me parecia importante, mas, desde o início, a preferência me foi pelas línguas clássicas, latim e grego, e pelo hebraico, de onde dizer jocosamente que foi amor à primeira vista, disciplinas a que viria consagrar a vida na docência, com satisfação cada vez maior e proveito desmedido. Após o primeiro mês de aulas, o Diretor chamou-me e disse que eu iria ser promovido ao primeiro ano, cursando no zero apenas latim. Fiquei apavorado! A série, mormente após decorridas já umas quatro semanas de curso, seria muito mais pesada e eu tinha dúvidas de que eu pudesse acompanhar os estudos com a desejada costumeira eficiência. Além disso, deixaria uma turma realmente amiga para ingressar em outra, em que dificilmente gozaria da mesma acolhida. Disse ao Dr. Waddell que preferia continuar na mesma série, sem a anunciada promoção, mas ele não anuíu e, aconselhado até por professores a acatar-lhe a decisão, porque ele sabia o que fazia, não tive saída, senão passar para o primeiro ano, repetindo a experiência de Castro. Orei fervorosamente que Deus me ajudasse a vencer mais essa parada e não encontrei grande dificuldade. A paixão eram os livros…  e um pouquinho de futebol, dentro do estrito horário estabelecido. Obtinha excelentes notas, por duas vezes conseguindo a façanha de tirar 100 em todas as disciplinas semestrais, coisa até então de ninguém conseguida, e não creio que haja acontecido depois. Não é que eu fosse necessariamente mais inteligente do que os demais, sem dúvida, contudo, ninguém estudava mais do que eu. Isso, se, de um lado, me granjeava admiradores, de outro, despertava certos despeitos e ressentimentos, infelizmente. E jamais me arrependi de ser um aluno profundamente estudioso: os frutos foram os melhores imagináveis.

Quando cursava o quarto ano, fui convocado para ensinar latim aos alunos principiantes, substituindo ao titular, Lázaro Manuel de Camargo, que preferira afastar-se da docência, formando que era. Assumi a classe com disposição , suficientemente preparado para ajudar aos colegas nesse primeiro contato com a língua latina. Bom número de alunos, alguns de muito boa qualidade. Destacava-se um especialmente: Aristeu de Oliveira Pires, Sobrinho de Eudaldo da Silva Lima que tinha sido meu professor da matéria nessa série. Era o Aristeu, um baiano extremamente inteligente, por isso mesmo não demasiado estudioso, perdendo, por vezes, a primeira aula matinal, ainda a desfrutar de um bom sono. Traduzia sem erro …mas, ao responder às questões teóricas de gramática, nem sempre havia estudado. Caiu do primeiro para o quarto lugar! Colecionei uma antologia de traduções  abstrusas de elementos da classe, alguns de fazer rir  por sua absoluta improcedência, antologia que, nas muitas mudanças de campo, acabei por perder. Isso, naturalmente, não se dava apenas em minhas aulas. Assim é que o Emílio Carvalho de Avellar, tudo menos latinista, traduziu o verso vergiliano pinquesque in gramine laeto por “o leite pingava na grama”, enganado pelas aparências, em vez de “e ubertosos no ledo vergel”, e muitos outros que tal, um havendo que deu ao famoso início da ENEIDA, arma virumque cano (canto as armas e o varão) a hilariante tradução: “a arma virou o cano”. Outro, original nessa área, foi o Josué Spina França, vivo, inteligente, não muito estudioso, porém, que, em um exame em que o professor Maurer assinalou uma porção nova de discurso de Cícero, facultando, entretanto, o uso do dicionário, ao não atinar bem com o sentido , já que a palavra pecunia ocorria várias vezes, engendrou uma bela alocução em que o autor buscava cobrar uma dívida de alguém em atraso… coisa que nada tinha a ver com o texto ciceroniano. O próprio professor achou fecunda a imaginação do ilustre colega, contudo, totalmente descabida a engenhosa tradução.

Talvez nenhuma obra literária mais que haja empolgado que a Eneida, de Virgílio (ou, melhor, Vergílio). A cadência dos versos, a riqueza do vocabulário, a luz cantante das frases, a soberba eloqüência do estilo borbulhante, a arrebatada expressão dos temas, a própria colocação dos termos em posições tão variadas, exercem sobre mim fascínio irresistível e muito influíram em meu próprio escrever, o que em muito desgostava o professor Maurer , quanto lhe fazia redações exigidas nas aulas de português. Era comum apresentar-lhe um trabalho escrito, que, após ler e não achar nenhum erro de linguagem, me devolvia para que o expurgasse da redundante adjetivação e dos advérbios inúteis que eu empregara. Queria, a viva força, desbastar meu estilo empolado, bombástico, redundante, pomposo, afetado, tipicamente gongórico, a seu ver. Eu o fazia, pesaroso, dizendo-lhe, após a revisão exigida, que o trabalho me parecia uma árvore despojada da folhagem viridente, apenas galhos e ramos desnudos, sem graça. O resultado é que Rui Barbosa, Alfredo Rangel, Euclides da Cunha, me eram autores proibidos, para tristeza minha.

Escola que visava ao preparo de pregadores, a retórica, a oratória, era tida em alta estima e os bons oradores eram objeto de profunda admiração de todo manuelino que se prezava. Era esse o período de extraordinário fulgor de nosso maior pregador da época, o Rev. Miguel Rizzo Júnior, e no Conceição grassava verdadeira “rizzolatria”. Quase todo Domingo à tarde numerosa caravana seguia para São Paulo para ouvi-lo na Igreja Unida, da rua Helvétia, em que era pastor. Para isso, o mais das vezes ficávamos sem jantar, ou comíamos algum naco de pão com banana, antes do culto. Findo o sermão, saíamos às pressas para apanhar o trem, que partia às 9,30 da noite. No dia seguinte, o assunto nas rodinhas de estudantes era o sermão, sua arte, sua beleza, seu conteúdo. E a figura vistosa, bonita, do Rev. Rizzo, vestido elegantemente, um diamante a tremeluzir na gravata, voz modulada, com momentos de arrebatadora eloqüência, gesticulação esmerada, mesmerizava o boquiaberto admirador. Destes dois se destacavam: o Josué Spina França, que o imitava abertamente, e nisso se gloriava, acabando por Ter o apelido de “Rizzinho”, para ele sublime elogio; o outro, o Francisco Pereira Júnior, um daqueles três que estavam na estação quando de minha chegada a Jandira, como Josué, orador de notórias qualidades, que, certa vez, juntamente com ele e outro colega, comentava, arrebatado, o sermão do Rev. Rizzo, postado no estreito pontilhão sobre o riacho. Em dado momento, num rasgo de eloqüência fulminante, deu com as costas no já apodrecido varal de proteção da cancela que cedeu, e foi esfriar o calor da retórica nas barrentas águas lá em baixo.

O cultivo literário era também objeto de ênfase. Para isso, existia o Grêmio Castro Alves, com aprimoradas tertúlias mensais, discursos, declamações , debates, música. Em determinada ocasião, uma colega foi declamar, embatucou, tentou de novo e não conseguiu lembrar o texto no seu todo, gaguejou, perdeu-se na seqüência, e foi sentar-se arrasada. Como secretário, registrei em ata que ela. “declamaria” a poesia tal. Quando se discutia a ata para aprovação, essa inflexão verbal suscitou acesso debate. Uns sustentaram que era ofensivo à declamadora, outros que, para não melindrá-la, melhor seria anular o registro, o que a essa altura era impraticável, outros que se registrasse que ela declamou, ao que redarguia não corresponder à verdade dos fatos… Depois de muito contender, optou-se pela sibilina expressão: “apresentou a poesia … que declamaria”. E tudo era levado muito a sério.

Quando no primeiro ano, nossa turma resolveu fundar uma associação própria, o GRÊMIO AMOR À ARTE, com reuniões semanais, destinadas ao desenvolvimento de nossa arte oratória. Um de nós faria um discurso ou sermão e todos dariam sua opinião e observações, em seguida, como em família, em um esforço de ajudarmo-nos uns aos outros. Eu, particularmente, gostei da idéia porque, tendo quase nenhuma experiência de falar em público, certamente que muito iria aprender. O presidente do Castro Alves, o Eudaldo da Silva Lima, entretanto, achou que isso era diminuir a importância do grêmio a que presidia e, com os demais membros da Diretoria, exigiu que encerrássemos as atividades. Tivemos de fazê-lo para não criarmos caso. Desse modo, ficamos com o Amor, mas perdemos a Arte.

Os manuelinos da velha guarda, os pioneiros, dos primeiros tempos, eram rapazes de mais idade, amadurecidos, cujo senso de vocação não padecia dúvida, por isso mesmo sérios nos propósitos, conduta acima da crítica, zelosos da vida devocional, de sorte que o ambiente religioso de primeira qualidade.

À medida que os anos se passavam, maior número de estudantes afluía ao Conceição, não poucos muito jovens, imaturos, nem sabendo o que queriam da vida, alguns até “degredados” para lá pela família, que não agüentava mais e esperava tê-los “consertados” no celebrado educandário. Nos meus tempos, a situação religiosa era razoável, cultos devocionais nos dias de aula, em que se ouviam grandes pregadores, reuniões de oração, hora tranqüila de meditação, respeito e seriedade no trato e na linguagem, pureza de vida e alto senso de responsabilidade moral, com ligeiras infrações de certos caracteres fracos. O Conceição era, de fato, uma forja de homens de Deus.

De par com Castro Alves havia Miguel Torres, grêmio religioso, que oferecia programas dessa natureza, superintendia as atividades espirituais do corpo  discente e acompanhava o trabalho evangélico nas redondezas. Aos domingos, espalhávamo-nos pelas estações próximas e pela vizinhança, visitando, pregando, distribuindo folhetos, proclamando a verdade de Cristo, treinando para o futuro. Minha paróquia foi, por bom tempo, um sítio em Amador Bueno; outras vezes fazia parte de grupos de colegas em diferentes lugares. Um ponto preferido era Itaqui, a uns dois a três quilômetros, a que se ia a pé, onde havia uma congregação metodista, de gente muito simples e que cantava os hinos em uma toada especial, bem alheia à música da Igreja. Um Domingo, expunha a lição da Escola Dominical o Adão Ribeiro da Silva, que, por várias vezes se referiu à “pinotisa” de Endor e eu, para não desautorar o colega em público, achei melhor não corrigi-lo. Afinal, os bons irmãos de Itaqui também não iriam saber o que era “pitonisa”. Outro ponto a que iamos constantemente era Osasco, onde o Silas Dias, que dava assistência a uma igreja, requeria nosso concurso. Barueri era, então, uma cidadezinha sem vida, atrasada, a cuja agência postal era encaminhada a correspondência do Conceição, a quatro quilômetros de Jandira, pelo que muitas vezes se ia até lá a pé ( o que havia custado a vida a um estudante que ficara entre dois trens em movimento e acabara atingido por um deles). Alugamos um pequeno salão e, aos domingos especialmente, mas também em outros dias, fazíamos pregação, com assistência , muito reduzida. O mais ativo e diligente evangelizador era o Jorge do Amaral Pinto. Responsável pelo trabalho de Barueri, ao prazo de meses nenhum resultado vendo dos esforços feitos, foi de parecer que se fechasse o ponto, encerrando as atividades. A mim não me parecia razoável, mas prevaleceu a opinião contrária. Anos depois, em viagem por Goiás procuro-o um moço, que o reconheceu, e disse que, uma noite, quando fazia o serviço militar em Tamboré, junto de Barueri, passando pela mal iluminada rua, parou do lado de fora e ouviu a sua pregação. Resolveu comprar uma Bíblia, leu-a, converteu-se e agora não somente ele, mas também toda a sua numerosa família, eram crentes! Não poucos tinham atividades em igrejas da Capital.

Convertido no Instituto Cristão, em Castro, desejaria fazer minha profissão de fé na igreja daquela cidade. Não o fiz no final de 1934, esperando fazê-lo no ano seguinte. Tendo, porém, de vir para o Conceição, somente em ocasião especial poderia realizar esse intento. As férias de junho passava-as no próprio colégio, já que eram apenas quinze dias e a viagem era longa e dispendiosa. Ficávamos vários colegas e sempre tínhamos algum trabalho que nos rendia uns trocados, comumente carregar aos ombros latas de areia tirada do riacho, a 400 réis por hora! Verdade é que em três dessas férias fizemos longa excursão até o pico do Jaraguá, descendo do trem em Caieiras e fazendo o restante do percurso a pé. Uma vez, entretanto, partimos de Osasco. Ficávamos três ou quatro dias no pico e retornávamos felizes, deslumbrados especialmente pelo cenário que se descortinava do alto. Agasalhávamo-nos bem contra o frio, províamo-nos de suficientes provisões, fáceis de preparar. O problema era água, que tinha de ser apanhada em fonte no sopé do morro, a longa distância e a exigir dura ascensão de volta. A escalada não era difícil, mas requeria habilidade e cuidado, o que não impediu que o João Bernardes da Silva, que tinha uma perna de borracha, a fizesse à noite!. Nas férias de junho de 1938, fomos para Jacutinga, Sul de Minas, para trabalhos com a Igreja Independente local. Éramos um grupo animado e foi boa experiência, seja pelas atividades realizadas, seja pelo carinho com que fomos tratados, particularmente por certas senhoras, que se divertiam conosco, insistindo em que lhes namorássemos as filhas. E um caso, pelo menos, deu certo. O baiano Óthon Guanaes Dourado tomou-se de amores por uma garotinha mimosa, a Raquel de seus sonhos, não a esqueceu e com ela veio a casar-se, muitos anos depois.

As férias de fim de ano, esperadas com sofreguidão, eram a ocasião feliz de voltar ao seio da família e passar umas semanas reconfortantes no aconchego do lar. Não dava para parar em Castro e, assim, fui protelando a profissão de fé. Passei quatro anos no Conceição sem ser professo, uma aberração surpreendente! Também, eu estava um tanto confuso, não sabendo bem qual a diferença entre as várias denominações protestantes, no Conceição estudando presbiterianos, independentes, metodistas, congregacionais, batistas, episcopais! Para mim, tudo era a mesma coisa, e não via critério seguro para optar por uma em detrimento das outras. Pus-me, portanto, a orar, pedindo a Deus que me iluminasse quanto à escolha a fazer, decidindo que aquela que primeiro se interessasse pelo meu trabalho seria a de preferir. No meu penúltimo ano, o Diretor, Jessé Wyant, chamou-me e perguntou se eu não gostaria de trabalhar em campo missionário da Central Brazil Mission, organização da Igreja Presbiteriana nos Estados Unidos, que operava em consonância com a Igreja Presbiteriana do Brasil, a que dera origem. Era a esperada resposta. Aceitei e tratei de fazer a profissão de fé. Como não fosse viável voltar a Castro, fi-la na Igreja Presbiteriana Unida, da Rua Helvétia, em São Paulo, aos 7 de agosto de 1938, tendo sido batizado na ocasião pelo Rev. Miguel Rizzo Júnior. Professaram, também, nesse dia, dois outros colegas, Abimael Monteiro de Lima, que viria a ser um patriarca da Igreja em sua terra, a Bahia, e o mineiro Gérson de Azevedo Meyer, muito jovem, a quem chamávamos de CAÇULA, que se tornou burocrata de instituição ligada ao Conselho Mundial de Igrejas, acabando por ser despojado da Igreja Presbiteriana do Brasil e ingressar em um ramo dissidente. Mas não havia dúvidas: eu fui “predestinado” a ser presbiteriano!

Ao retornar a Santa Catarina ao final de meu primeiro ano de Conceição, já a família se havia transferido para Caçador, papai tendo resolvido vender  as propriedades de São Sebastião e estabelecer-se nesse centro progressista, onde os meninos poderiam estudar e encaminhar-se melhor na vida. Mamãe, especialmente, após a dura experiência da Revolução de 30, não se sentia segura no lugarejo, em que as amizades não eram sólidas e muitos dos próprios vizinhos não eram confiáveis. Queria mudar-se de um lugar de tantas recordações amargas, que não oferecia esperanças de futuro mais grato. Em 1932, durante a famosa Revolução Constitucionalista, eu garoto de quinze anos, lamentava não ser grande ainda para lutar por São Paulo. A família toda era anti-getulista, e com ampla razão. Formou-se, porém, um batalhão de voluntários, comandados pelo “capitão” Guilherme Ventura, famoso valentão da zona, que viria a morrer, anos mais tarde, no desencontro com outro reconhecido topetudo. De fato, cerca de cem caboclos se alistaram para ir combater os paulistas. Na noite anterior à partida para o embarque em Caçador apenas uns trinta se apresentaram e, na manhã seguinte, restavam somente quatorze! Os demais haviam desertado. Entre estes um tipo falante, loroteiro, apelidado de CANANÉIA, que trabalhou nas roças de papai e a quem outro caboclo, chistoso, chamava de CANELINHA, que, aproveitando as sombras da noite, pegou um cavalo velho do “potreiro” vizinho, apoderou-se de um quarto de carne e disparou para sua distante morada, em Caçadorzinho, léguas e léguas de São Sebastião.

Mas o “capitão” reuniu na praça os heróis que sobraram, reafirmaram seus propósitos beligerantes, esporearam os matungos e avançaram, voluntariosos, com empáfia e disposição. Entre esses, meu tio Benjamim, que, a esse tempo, juntamente com o sogro, o estafeta Lydio Valladão Flores, rompera ligações conosco. Vi-os partir, naturalmente desejando-lhes tudo menos saírem vitoriosos. Não entraram em luta, mas assolaram o sul paulista, saqueando fazendas e levando muita “muamba”, despojos de guerra. Demoraram, entretanto, meses para voltar e, nesse ínterim, a família do tio guerreiro, esposa e os filhos pequenos, pobres que eram, começaram a passar necessidade. Quando mamãe soube dessa triste situação, mandou chamar a concunhada, ouviu de suas necessidades e, imediatamente a supriu de tudo o que precisava, até que lhe voltasse o marido. Admirei o generoso espírito de minha nobre mãe e aprovei de coração a atitude assumida.

Não há dizer de como foram agradáveis essas férias! Mamãe estava feliz, sem tensões nem preocupações, os garotos simplesmente encantados com o ambiente mais urbano, eu mesmo contente, muito contente com os resultados do ano letivo, papai animado, com mil planos, muitos deles sonhos irrealizáveis. Montara loja em bom ponto, mas agora a competição era enorme e implacável e a caboclada já não lhe era freguesia cativa. Adquirira também, junto com tio Joãozinho, irmão caçula de mamãe, boa área nos limites da zona urbana, área que acabou ficando toda para papai, porque o tio Joãozinho não se deu bem em Caçador e retornou ao Campo da Roça, o velho sítio de vovô Chico Ruivo, nas cercanias de Curitibanos, vendendo a papai a parte dele no terreno adquirido em sociedade. Mas, em relação a papai, a alegria maior me era que ele acabara convertendo-se também, de forma bastante curiosa. De caminho às plantações distantes, o cavalo que montava tropeçou e caiu por sobre uma das pernas de papai, de que resultou extensa fratura. Com dificuldade, conseguiu montar de novo e retornar, tendo de permanecer acamado várias semanas. Para passar o tempo, começou a ler um hinário (SALMOS E HINOS) que eu adquirira em Castro e ele insistira que deixasse com ele quando parti para São Paulo. Foi lendo e impressionando-se com o que lia, Deus falando-lhe à alma pela letra das composições sacras, acabando por aceitar a mensagem assim transmitida e decidindo-se a professar a fé, o que faria, mais tarde, na Igreja Metodista, em Caçador, pois que sua conversão se dera ainda em São Sebastião.

Existira, por  anos, uma pequenina congregação presbiteriana em Caçador, dois de cujos vultos ainda me são lembrados: Trajano Rocha e Lourencinho Batista, velho músico, que, em outros tempos, nós, Nedival, Acácio e eu, víamos pelos bilhares, e idoso, alquebrado, lábio inferior caído, apelidamos de PERU VELHO. Dava assistência a esses crentes o missionário Wright, sediado em Herval, depois Joaçaba, hoje Herval do Oeste. Indo passar férias prolongadas nos Estados Unidos, pediu ao colega metodista, Daniel Betts, que residia em Porto União, que visitasse a congregação de tempos em tempos, especialmente para ministrar a Santa Ceia. Vieram, nesse período, do Rio Grande para Caçador várias famílias metodistas, que insistiram na fundação de trabalho dessa denominação, a que o Rev. Betts, apesar do convênio de que onde houvesse atividade organizada de uma para outra não iniciaria operações, acedeu, levando os presbiterianos para seu rebanho. Por isso, papai, embora quisesse ser presbiteriano como eu, teve de ficar metodista!

Mamãe não desistia de tentar demover-me do propósito de ser pastor protestante. Andava tramando meu casamento com a filha de uma prima, jovem muito prendada, além de muito rica. Eu, porém, o em que menos pensava era casamento e não tinha o mínimo interesse em riquezas materiais. Também não sentia qualquer pendor para com a prima, pois que não iria casar-me com uma jovem não crente, e ela, educada por freiras, era carola a valer! Nada, nada mesmo, iria afastar-me de meus estudos, embora  reconhecesse que, a seu modo, mamãe estava pensando no que lhe parecia ser o melhor para mim. E eu ia já sentindo, o que mais e mais se agravaria com o passar dos anos, que eu estava perdendo direto contato com a família, tornando-me um estranho, vivendo longe dos queridos e alheio a seus problemas, lutas e convivência. As reduzidas semanas de férias não bastavam para que eu me integrasse plenamente. Isso me doía muito, porque eu amava demais a papai e mamãe, gostaria de estar perto deles sempre, assim como dos irmão, Nedival e Acácio, companheiros de infância, os mais íntimos que tive, da Jandira, em suas limitações, a irmã única, do João, o garotinho, onze anos mais novo que eu, que só via de ano em ano. Perdia também a identificação com minha gente, o povo da minha terra, meus compatriotas, que sempre me emocionam ao lembrá-los. Não que eu seja bairrista, mas a verdade é que nunca trocaria minha “nacionalidade” catarinense por nenhuma outra. Por isso, gentileza de conterrâneos a quem solicitei a dádiva, a bandeira de meu Estado, há muito que a tenho comigo como símbolo e penhor de tudo que minha terra distante representa para mim.

Uma questão, de certo modo, me perturbava a consciência. Papai já havia gasto bom dinheiro com a minha educação e iria gastar ainda bem mais. Eu não queria ser privilegiado mais que meus irmãos, que, aliás, um dia poderiam alegar que papai gastou muito comigo, nada com eles. Verdade é que Nedival e Acácio não davam mostras de fazer carreira nos estudos e preferiram não cursar sequer o primário. O João, bem depois, estudou sempre com recursos próprios. Não menos incomodativo me era o fato de que não me parecia coerente estudar para o ministério protestante com dinheiro católico, se bem que papai agora já se dizia desejoso de seguir a minha “religião”. Propus, então, a  papai que vendesse o meu terreno em CACHOEIRA e se ressarcisse de todas as despesas já feitas e reservasse o restante para futuras. Pareceu-lhe bom o alvitre e assim se fez. Felizmente , a partir do terceiro ano do Conceição, eu já não mais precisei de verbas de casa.

As férias de 1937 foram-me particularmente laboriosas de início. É que deveria partir no dia 11 de novembro e o Ditador dos Pampas instaurou seu famigerado Estado Novo nesse dia. Não se podia viajar de qualquer ponto a outro sem um malsinado salvo-conduto. Até para ir de Jandira a São Paulo era requerido o papelucho. Seguir para Santa Catarina, só depois de conseguir documento apropriado. Extensas filas se formavam junto às delegacias da Capital para obter o indispensável passe autoritário. Fui à rua Florêncio de Abreu, junto com outros colegas, e aí entramos numa fila quilométrica. Depois de horas, finalmente fui atendido. Era um capitão da guarda-civil, roliço, meia-idade, cara de quem estava enfastiado. Após uma perguntas, pediu-me o salvo-conduto que eu tinha tirado em Barueri, deu uma rápida olhadela e sentenciou: “Este serve para sua viagem”. Quis insistir em que aquele era específico entre Jandira e São Paulo, mas o “paxá” nem me deu ouvidos e foi logo chamando outra vítima. Fui, pois, à estação ferroviária para comprar passagem e o bilheteiro disse-me que eu corria risco de ser barrado no caminho. Resolvi tentar outro posto policial. Foi na Rua Güianases. Longa espera, enorme fila. Quando cheguei ao oficial topetudo, examinou o documento que eu tinha, trovejou que eu precisava de outro, fez-me longo interrogatório, acabando por exigir um atestado do colégio e a assinatura ou presença de alguém que me afiançasse! E agora, como conseguir esse ‘fiador”? Disposto já a permanecer no Conceição, fui, à noite, à formatura da turma de 1937, na hoje demolida igreja da rua 24 de Maio. Comentando o fato, um sargento crente prometeu-me levar, na manhã seguinte, a outro local, sede de batalhão, na Avenida Tiradentes. Seria a terceira tentativa, em três dias sucessivos. Cumpriu a palavra, a fila não era grande, ele conhecia o ambiente e, após dizer-me estudante do Mackenzie ( uma como que reserva mental) e assinar o competente termo de compromisso, consegui o milagroso “vademecum”. Viajei, afinal, excomungando, mais uma vez, o Ditador.

Papai havia feito construir linda e espaçosa casa, de madeira, dois andares, no terreno que comprara, para aí transferindo a loja. O ponto não era ainda muito apropriado para comércio. Papai vendia muito a prazo e não era pequeno o número de fregueses que acabavam deixando de saldar suas dívidas, causando-lhe prejuízos. Além disso, Acácio andava fazendo gastos a seu bel prazer, contas que papai pagava para não Ter mau nome na cidade. Isso não agourava futuro muito róseo. Ambos, Nedival e Acácio, desistiram dos estudos, preferindo trabalhar. Sonhavam com ser motoristas de caminhão. Papai comprou-lhes um caminhão INTERNACIONAL, que ainda cinqüenta anos depois, o Nedival estava utilizando para pequenos transportes. Coisa de museu, a esta altura. Como nas férias anteriores, eu ajudava na loja, o que me punha em contato com muita gente, a quem procurava comunicar o Evangelho. Nos momentos vagos revia estudos feitos ou lia antecipadamente matéria referente a disciplinas a serem cursadas no ano próximo. Também passava bons instantes brincando com o João, o caçulinha mimado. Findaram-se as férias e retornei ao Conceição, entre pesaroso e animado , triste por deixar o doce lar, o convívio acalentador da família, para só voltar meses mais tarde, ao mesmo tempo que entusiasmado com a continuidade dos estudos, sempre tão gratos e desafiadores.

Foi nas férias precedentes, antes da mudança para casa nova, que tive duas experiências um tanto jocosas. A primeira, apareceu na loja um padre vendendo assinatura de revistas católicas. Eu não queria ser indelicado, mas achava um contra-senso contribuir para publicações que não serviam à causa evangélica, antes a combatiam. Propus-lhe uma barganha: eu assinaria uma de suas revistas e ele faria o mesmo em relação à revistinha que nós publicávamos no Conceição. Ele alegou que não poderia fazê-lo sem permissão superior. Sugeri-lhe que obtivesse tal permissão e voltasse para efetuarmos a troca de assinaturas. Ele não saiu zangado, nem eu me senti constrangido. Não voltou. Disso eu estava mais do que certo.

A Segunda foi mais complicada. Um professor primário de ascendência polonesa, ativista católico, sabedor que eu era protestante, veio à nossa casa no firme propósito de chamar-me às falas. Eu estava com a gramática de grego aberta, recapitulando a matéria nos intervalos em que não surgiam fregueses, quando ele chegou muito seguro de si, todo empertigado, e abriu fogo, dizendo que a religião evangélica estava em franco declínio no Brasil, pois que os jornais davam notícias de dois templos protestantes incendiados, um em São Francisco do Sul, Santa Catarina, outro em uma cidadezinha do interior mineiro, e que não podia entender como uma pessoa que conhecesse a doutrina católica houvesse de ceder ao erro protestante. Respondi-lhe que os incêndios referidos não provavam necessário declínio, talvez até o contrário, pois o avanço protestante alarmava as autoridades católicas e reagiam elas dessa maneira violenta. Provavam, com certeza, o espírito intolerante, agressivo, perseguidor do catolicismo, o que bem mostrava que não podia ser essa a religião de Cristo. Quanto me constava, o protestantismo estava crescendo no Brasil. Ele que se informasse melhor. De uma coisa não haveria dúvida e ele, como professor que era, poderia verificar facilmente. Os protestantes representavam. em tese, católicos que mudaram de religião, logo, qualquer cifra protestante significaria perda do lado católico. O oposto praticamente não acontecia. Mais, se observássemos as estatísticas da época, os protestantes no mundo, em quatrocentos anos, haviam atingido em total equivalente a um terço daquilo que o Catolicismo conseguia manter após mil e novecentos anos. Ora, era só aplicar uma regra de três e ele veria quanto a população protestante superava o quociente que lhe caberia dentro da mesma proporção. Portanto, a realidade, mesmo no Brasil, parecia ser exatamente o contrário do que o professor sustentava. Quanto a não entender ele como um católico esclarecido pudesse virar protestante, eu afirmaria que era apenas questão de conhecimento: quem quer que conhecesse o ensino da Bíblia e quisesse ser-lhe obediente, não poderia continuar católico. Ele que a tomasse e a estudasse que, sendo honesto e sincero, iria ficar protestante como eu fiquei. E, mostrando-lhe a gramática de grego, exortei a fazer o que eu estava fazendo,  para melhor interpretar a Escritura Sagrada, de sorte a ver que o que ele chamava de erro protestante era, realidade, a verdade da fé. Após mais umas ponderações, retirou-se… e não voltou para reconverter-me. Mamãe, que a tudo ouvia sem ser percebida, estava “torcendo”… por mim! O Evangelho já lhe estava começando a penetrar no coração!

Não estou bem certo, mas acredito que nas férias de 1937 é que fui convidado pelo missionário metodista Daniel Betts para ajudar em uma Escola Bíblica de Férias em Porto União, na divisa com o Paraná, uma experiência pioneira para mim. Gostei imensamente desse encontro muito bem organizado, programação bastante convidativa, bom número de crianças e adolescentes, que pareciam participar com grande satisfação, tudo em moldes assaz propícios a crescimento espiritual, formação moral e cívica e consolidação de caráter cristão. O Rev. Betts convidou-me para pregar em uma Quarta-feira à noite. Preparei a mensagem com esmero, ensaiei-a mentalmente várias vezes, não via por que não houvesse de dar-me bem nessa minha primeira apresentação em uma igreja regular. O auditório não era grande, o ambiente simples… mas eu comecei a sentir um calor abafante, a respiração curta, o coração em disparada. Fui à frente com o Rev. Betts e tudo me parecia nebuloso, caótico. Falei embaraçado, gaguejante, incerto… coisa de principiante inexperiente e inseguro, cujo nervosismo tolda a mente e prejudica a elocução. Mas a família Betts me foi muito compreensiva e simpática. Dos filhos, o mais velho, João Nelson, viria a ser pastor no Brasil e nos encontraríamos algumas vezes. Com os outros dois, Billy e Joyce, acabei perdendo contato e não lhes tive mais notícias, depois de um certo tempo.

Nas férias de 1938, se me não engano, partimos de São Paulo, juntos, quatro colegas rumo ao sul: Domiciano Avelino de Macedo, nortista, Domício Pereira de Mattos, paulista , Herondina Grimbor, paranaense, e eu. Embarcamos em São Paulo , trem lotado, viagem, porém, agradável. Havia chovido muito no Paraná e, ao chegarmos perto de Castro, estava interrompido o tráfego, um pontilhão levado pelas águas. Não tínhamos como continuar viagem. Passados dois dias, já que estávamos junto de uma estaçãozinha , resolvemos depositar as malas para serem despachadas posteriormente e seguimos para Castro, a pé. Eram 28  quilômetros pelos trilhos, mas, tomando-se atalhos pelos campos, a distância era bem menor, reduzida, talvez, à metade. A dúvida era se a Herondina agüentaria a marcha. Céu límpido, sol radiante, partimos, enquanto os demais passageiros continuarão aguardando a baldeação anunciada. Transcorria tudo muito bem. À hora do almoço, assentamo-nos à beira de um lajeado de límpidas águas e saboreamos o apetitoso frango com farofa que havíamos mandado preparar antes da partida. Continuamos sem percalços e lá pelo meio da tarde chegamos a outra estação, onde havia conhecidos da Herondina. Receberam-nos com a tradicional hospitalidade paranaense e serviram-nos gostoso café com leite e broa com mel… uma delícia! Seguimos adiante e nuvens grossas ameaçavam chuva. Castro já estava não  muito longe. De repente, sobreveio um aguaceiro e buscamos refúgio em uma casa junto à estrada… mas os moradores estavam fora e acabamos entrando no galinheiro, vazio àquela hora, as galinhas a perambularem pela vizinhança. Nada reclamaram e, passada a chuva, desocupamos o abrigo, muito agradecidos. Prosseguimos e, ao anoitecer, chegamos à cidade, indo todos para a casa da colega, que aí residia e nos havia convidado para a gostosa aventura. Após um bom jantar e um sono reparador, procurei notícias na estação, que não era muito distante, e fui informado de que, ao meio dia, passaria um trem que havia ido fazer baldeação dos passageiros. Tomei-o e segui para Santa Catarina, os colegas viajando, mais tarde, par o litoral do Estado, onde iam trabalhar com igrejas. A Herondina estava feliz em casa, no convívio de sua não pequena família.

Cheguei a Caçador e achei a todos em casa bem dispostos. Não havia grandes alterações, senão que os negócios de papai não iam a contento, Acácio continuava a fazer gastos, a situação parecia exigir outros rumos. Isso me afligia, contudo, não via quê pudesse eu fazer para ajudar a resolver os problemas. Desdobrava-me nos serviços da casa, como sempre atendia a fregueses no balcão, conversava longamente com papai e mamãe, animava-os e procurava firmar-lhes a fé. A esse tempo, impressionada com a minha conduta diferente, rapaz que não fumava, não bebia, não jogava, não tomava parte em farras, nem fazia noitadas, preocupado com os estudos, conversa séria de gente madura, mamãe nutria comigo profunda admiração, achando que o único defeito que eu tinha era ser protestante, conforme a ouvi comentar com amigas várias vezes, sem aperceber-se de que eu estava escutando o que diziam. Retornei ao Conceição, para meu último ano de estudos no agora bem modernizado educandário, com grande preocupação quanto à família e sentindo-me cada vez mais distanciado do convívio regular, o que muito me entristecia. Era o preço a pagar pelo meu ideal!

O ano letivo passava rápido. E nós, os formandos, à medida que os dias corriam, mais íamos sentindo tristeza de deixar a escola em que vivemos por cinco duros mas abençoados anos, da qual tanto havíamos recebido e de que sofreríamos grande saudade. Tínhamos de fazer novos planos e preparar-nos para a próxima etapa, o Seminário. O colega Eliseu Narciso, que fora meu aluno de latim, barbeiro de profissão em Sorocaba, dotado de real talento musical que o faria respeitado maestro, compositor e professor no Seminário e em Conservatórios, amigo leal, falou-me de uma jovem de sua igreja que, a seu ver, ser-me-ia um bom partido. Fui, vi-a e achei-a bastante atraente. Pouco pudemos conversar na agitação da festiva reunião, com programa regular e muita gente a tomar parte. Mantivemos, daí em diante, através do pombo-correio, o Eliseu, constante contacto de recadinhos e lembranças. Em outubro celebrava-se o dia comemorativo do Conceição e muita gente vinha a Jandira. Convidei-a e ela veio com bom número de jovens da igreja. Apreciei-lhe muito a fina educação, a delicadeza do trato, a simpatia que irradiava, o encanto que exercia. Havia, porém, o programa dos festejos a ser observado, de que eu participava, mormente a partida de futebol à tarde. De fato, estava ainda o jogo em andamento, quando ela veio até à lateral do campo para despedir-se, que tomaria o trem daquele horário. Eu nem a pude acompanhar ao embarque, mas outro  “nobre” colega o fez… e foi até Sorocaba… e voltou dizendo que estava namorando a moça! Fiquei de beiço caído com essa “traição”, mas reconhecia que o rival era vistoso, falante, experimentado em matéria de namoro, ousado e insistente, acostumado a levar as garotas na lábia, enfim, um galã com que eu não tinha condições de competir. Dei o caso por encerrado. Na Segunda-feira, voltando de casa, o Eliseu me disse Ter falado com ela e que toda a estória contada pelo distinto colega era inverídica. Continuaram os recados, mas eu não tinha certeza de quem estava falando a verdade. Todavia, iria a Sorocaba antes de entrar em férias.

Poucos dias mais e encerraram-se as aulas. Feitos os exames finais, obtida a esperada aprovação, veio a formatura. Primeiro, um almoço de gala em restaurante fino junto ao chamado prédio da LIGHT, próximo ao Viaduto do Chá, em São Paulo. Envergando o melhor terno, escuro, com camisa branca, lá estávamos nós, os companheiros de classe pela última vez todos juntos em repasto, que, se, de um lado, assinalava o termo vitorioso de longa e espinhosa jornada, motivo de alegria, de outro, significava a nossa parcial dispersão, nem todos tomando, a partir dessa data, o mesmo rumo nos estudos, razão de tristeza. Assim soem ser celebrações dessa natureza. À noite, o culto de ação de graças, em que pregou o Rev. Miguel Rizzo Júnior, o elegante orador sacro de todos admirado. Foi uma cerimônia tocante, a calar fundo na alma, a despertar fortes emoções, na beleza da fé e na glória da esperança cristã. Estava encerrada a para mim extraordinária caminhada manuelina. E era triste deixar o velho casario, que, a despeito de tudo, era uma porção de minha vida, um pedaço do meu coração. Voltei ao colégio, arrumei as malas e dispus-me para a longa e cansativa viagem de um mínimo de trinta e sete horas de trem de São Paulo a Caçador. Apanharia, à tarde, um subúrbio, desceria em Sorocaba, encontrar me-ia com a disputada jovem e, à noite, embarcaria no expresso para o Sul. Pouco antes de dirigir-me para a estação, surge o ilustre rival, bem vestido, perfumado, elegante, ares principescos, e, com a maior desfaçatez, disse-me que estava indo para Sorocaba, pois  que era o dia de pedir em casamento a moça, já que o namoro ia às mil maravilhas. Tive de mudar de plano. Fui a São Paulo e embarquei lá mesmo. Quando passei por Sorocaba, imaginava a felicidade do nosso herói e me sentia um tanto acabrunhado, pois que, afinal, fui “passado para trás”! As férias, porém, seriam excelente lenitivo e o negócio era esquecer os acontecimentos, como um sonho vaporoso que se desfez.

Aguardavam-me em casa, como sempre, com muita saudade e minha chegada era esperada com especial ansiedade. Achei a todos bem. Papai havia encerrado as atividades comerciais e agora vivia de outros expedientes, a seu modo, independente, porque não lhe aprazia ser empregado de ninguém! Foi sempre essa a diretriz que seguiu e não iria mudá-la agora. Eu ficava apreensivo, temendo dificuldades e privações que lhe pudessem sobreviver, sentindo-me frustrado em não poder ajudá-los agora, como os ajudei nos velhos tempos. Era, porém, infundada minha preocupação. Papai era trabalhador, ativo, operoso, dispunha de terras de plantio a pouca distância de Caçador, boa área na zona suburbana e certa reserva financeira.

Agora já não iria passar as férias todas em casa. A Central Brazil Mission , com que eu me comprometera, escalou-me para trabalhos com o missionário Donald Reasoner , em Xanxerê, no oeste catarinense. Teria de ir de trem até Herval (Joaçaba) e de lá tomar ônibus, melhor dito “jardineira”, para Xanxerê. Era tempo chuvoso, a estrada de terra, uma argila pegajosa e escorregadia, a região bastante acidentada. Embora saíssemos de manhã, não foi possível vencer os oitenta e poucos quilômetros de caminho. Pernoitamos em Ponte Serrada, vila nascente e promissora, região agrícola de grandes lavouras. Quando souberam quem eu era, uns moradores vieram procurar-me dizendo que estavam revoltados com o padre, jovem que não se comunicava com os paroquianos, não visitava ninguém e vivia com a empregada, que, aliás, estava grávida. Disse-lhes que se Deus me chamasse para servir ali, ficaria feliz, mas, por agora, eu tinha compromisso em Xanxerê.

Na manhã seguinte chegamos à pequena e singela cidade, perdida naqueles rincões. Teria acima de tudo de organizar a chamada  Festa de Natal, minha primeira experiência nessa matéria. Éramos uma boa equipe e ensaiávamos crianças, jovens e adultos para representações. Isto após um período de Escola Bíblica de Férias das mais animadas. A festa foi realmente um sucesso, para alegria de todos. Xanxerê tivera uma igreja muito próspera, mas havia ficado sem assistência pastoral por muito tempo, decaíra não pouco e se mundanizara ao ponto da Festa de Natal ser celebrada nos moldes dos farranchos católicos tradicionais: leilão de prendas, bebida a rodo e muita dança. Era esta a primeira vez, depois de anos, que a comemoração natalina retornava aos moldes tipicamente evangélicos. Entretanto, um grupo, justamente da família principal da igreja, não concordou conosco e fez, à sua moda, um festim que acabou em brigas e pancadaria.

O trabalho era o regular: visitas aos crentes, particularmente aos que moravam fora da cidade, com quem se lia e comentava a Bíblia, cantavam hinos e orava; ensino na Escola Dominical e celebração de cultos no templo e em casas, com a necessária pregação da palavra. Empreendi uma breve jornada para pontos mais distantes ao norte, rumo do Paraná, acompanhando a um crente de nome Pedro, um tanto místico, um homem de oração e vivamente empenhado em evangelizar a quantos encontrava, bom parceiro de viagem. Levou-me a uma aldeia de índios Kaingangs, o que me deixou algo apreensivo, porque a maloca recebia  assistência religiosa do padre da região, extremamente anti-protestante, que os proibira de receber a essa gente do Diabo. O Pedro entretanto, nem por isso se intimidava. Quando chegamos, só o cacique estava no local, os demais trabalhando na roça. O índio pareceu-me seco, não-comunicativo, conversa reticente, com jeito não muito amigo. Retiramo-nos logo, mas, pelo menos, conheci in loco um aldeamento indígena. Fomos até Abelardo Luz, tivemos boas reuniões e fiquei condoído daquela gente desejosa de Ter uma escola para os filhos. Insistiram muito que eu ficasse por lá e ensinasse às crianças pelo menos as primeiras noções de leitura e escrita. Senti não poder atender a esse apelo, diria, dramático. Vi aí uns nenês lindos, rechonchudos, com aparência de muito sadios. Manifestando minha admiração nesse sentido, disse-me um dos moradores que esses eram os fortes e que sobreviviam, os fracos morriam logo… mas, mesmo assim, eram, na verdade, crianças fora de série, encantadoras.

A família Reasoner era modelar. O missionário e sua esposa, Dona Dorotéia, muito prestativos e dedicados à obra, sempre interessados em melhorar as próprias condições materiais do povo. Viviam modestamente, se bem que, mais cultos que a população, dispusessem de moinho de vento que lhes puxava água do poço e ainda provia eletricidade para o consumo doméstico, além do velho carro que enfrentava aquelas estradas malconservadas a serviço dos necessitados. Certo dia, sabendo de um caboclo que estava com um grande tumor abdominal, carecendo de assistência médica, sem recursos, convidou-me a acompanhá-lo e foi até o sítio onde morava o velho doente, pô-lo no carro e o levou ao médico, em Chapecó, então um lugarejo bem aprimitivado. Feito o tratamento, pagas as despesas de seu próprio bolso, trouxe o homem de volta e deu-lhe assistência até de todo recuperar-se. Era o bom samaritano redivivo. Seus três filhos eram também dignos dos pais: Ellen, a mais velha, mocinha muito bonita: Mildred, a Segunda, mimosa e terna como uma flor; e o caçula, o Alberto, bom garotinho que continuaria o labor missionário no Brasil.

Voltei de Xanxerê, fiquei uns dias em Caçador e iniciei outra viagem, agora a cavalo, visitando o campo do missionário Wright em nossa região. Iria de Caçador até Curitibanos, passando por vários pontos em que deveria pregar. Cheguei até Anta Gorda, após pregar em Faxinal, Rio dos Patos, Trombudos (hoje Lebon Régis). Começou, porém, a chover sem parar, os rios se encheram e tive de regressar a Caçador, profundamente resfriado, com uma tosse que nada fazia cessar. Já faltavam poucos dias para voltar a São Paulo, e passaram depressa. Agora iria para Campinas, estudar no afamado Seminário Presbiteriano. Passei pelo Conceição para despachar a bagagem restante e despedir-me, com muita emoção, daquele recanto que me havia marcado indelevelmente a vida, a mundivisão, a própria personalidade.

Ficavam para trás tantos acontecimentos, gratos uns, sombrios outros. A lembrança dos grêmios e suas tertúlias, do esporte praticado com alma e muitos jogos emocionantes, de fatos pitorescos, quais a idéia maluca do Emílio Carvalho de Avellar, colega de turma, que trouxera de Goiás dois papagaios escondidos em gaiola envolvida por um saco, desafiando a fiscalização e vigilância dos chefes de trem e demais agentes ferroviários; da mania de box, com mãos envolvidas em grossas toalhas, que custara ao mesmo Emílio a perda de um pivô frontal em luta com o Dionísio ramos Lima; da ventura desse Dionísio, que, tendo desistido da álgebra com o Dr. Waddell, via todo mês seu nome incluído na lista de aprovados, com boa nota, até que se descobriu o engano; da clarineta do Jair Ribeiro, inoportuna a sua hora de inspiração e bem pobre a qualidade da música do instrumentista, a excitar dos vizinhos enfadados a exclamação: “Eta clarinetinha!”, acompanhadas de alguns adjetivos não tão recomendáveis; a sanfona do Octávio Ferreira Júnior, que somente executaria músicas religiosas e que, ante o leviano chiste do galhofeiro Oziel Alcântara, baiano brincalhão, a pedir tocasse uma valsa para ele dançar, fechou o acordeão, retirou-se escandalizado e, gaguejando, nos pergunta: “O sô Oziel é crente?” E por mais de um mês deixou de tocar!

Difíceis de esquecer, dolorosos, também os houve, tais o caso do Raimundo, baiano de elevada estatura, corpulento, musculatura de aço, que parecia vender saúde, mas, examinado pelo médico, estava com tuberculose avançada e, levado para Campos do Jordão, falecia menos de um ano depois; ou o Raul Marciano da Silva, de Bebedouro, São Paulo, alto, vistoso, um moreno estudioso e simpático, estimado de todos, que, no decurso de uma excursão ao Seminário de Campinas, sofreu um desmaio, foi hospitalizado, quando teve condições voltou para casa e veio a falecer pouco mais tarde; ou do Manuel Cunha, colega sereno e equilibrado, que, certa noite fria, muito fria, vestido apenas de calção, acompanhado por um violão, se pôs a cantar em tom profundamente lamuriento, acabando em crise de choro e gritos violentos, completamente transtornado, requerendo-se internação em sanatório. Estava loucamente apaixonado pela professora  Anna Rickli, que havia sido minha mestra em Castro, já matrona, de origem alemã, enquanto ele era muito mais jovem, e negro! Nunca mais soubemos dele!

Dizia adeus ao Conceição. Voltaria vezes muitas, agora, porém, como visitante apenas, não mais elemento integrante da instituição. Isso me entristecia, e muito.

Transcrito aqui em 6 de Novembro de 2015.

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